A caixa-preta das pesquisas | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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A caixa-preta das pesquisas

Por Luiz Weis em 30/08/2008 | comentários

Em qual dessas manchetes deve o leitor acreditar?


”Marta lidera; Alckmin pára de cair” (Folha).


‘Alckmin cai mais e Kassab sobe em SP, aponta Ibope” (Estado).


As duas devem estar “certas”, ou seja, correspondem aos resultados da rodada de pesquisas eleitorais a que se referem (a noticiada pela Folha, como sempre, é a do Datafolha).


Mas, para o leitor, isso não faz diferença. Ele não tem como saber por que uma pesquisa deu uma coisa e a outra, praticamente nos mesmos dias e na mesma cidade, deu outra.


Ele não tem os meios – nem a obrigação – de saber por si só se a diferença entre os resultados se explica por eventuais diferenças de metodologia entre as pesquisas. Muito menos se, nessa hipótese, qual delas está mais “certa” – ou seja, qual identifica com mais precisão as tendências de voto do eleitorado em dado momento da campanha.


Os políticos têm lá os seus especialistas no assunto para lhes dizer, com razoável margem de segurança, por que as pesquisas divergem, quando divergem, e que importância efetiva tem isso.


Além do mais, os candidatos contam com os seus próprios esquemas para garimpar sistematicamente as inclinações do eleitorado, entre eles as pesquisas chamadas qualitativas, a que o pessoal do ramo vem dando importância cada vez maior.


Mas, perplexo diante do “Alckmin pára de cair” e do “Alckmin cai mais”, não se culpará o leitor se ele concluir que não deve confiar em pesquisas porque elas são todas manipuladas.


Não são, na esmagadora maioria dos casos, mas e daí?


Daí o seguinte. Não é de hoje que a mídia se tornou refém do pesquisismo – dando às sondagens, que ela própria encomenda, um peso enorme na cobertura das campanhas, em detrimento do jornalismo que não só informe o que os candidatos dizem e fazem, nem só aponte as falsidades de suas propagandas e promessas, mas também apure e explique as suas estratégias, para tornar o processo o mais transparente possível.


Já que é assim, os jornais não fariam nada além de seu dever se tratassem com a mesma frequência de familiarizar o leitor com as pesquisas: além de apresentar os números devidamente mastigados, indicar como os diversos institutos chegam a eles.


Isso é mais, muito mais do que informar burocraticamente as datas dos levantamentos, o número de pessoas ouvidas e a margem de erro dos resultados. É abrir até onde der o que o público decerto considera a caixa-preta das pesquisas eleitorais.


Mas se os diários sequer se dão o trabalho de explicar por que a margem de erro de uma sondagem é tal ou qual, que dirá traduzir a expressão técnica “intervalo de confiança” quando a utilizam, fará melhor quem prefira esperar sentado pelo dia em que o pesquisismo terá uma face humana – a do respeito pelo leitor.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/09/2008 Marco Leite

    Caro Carlos, você já ouviu falar em laranja? Aqueles que realizam as pesquisas In-Loco pertencem há esse exército de faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço. Reiterando, no Brasil pesquisa nada mais é que manipulações dos números bem como elas exercem forte influência sobre os eleitores. Abraços…

  2. Comentou em 01/09/2008 Baader Baader

    Uma matéria muito ingenua, na minha opinião. Está claro a todos qual a função social dos jornais e, desta forma, é óbvio que é muito mais interessante ‘dar a informação sem informar’…

  3. Comentou em 31/08/2008 Carlos Martins

    ‘No Brasil pesquisa nada mais é que manipulação dos números.’ Êpa! Devagar com o andor, Marco! Se fosse manipulação pura e simples como você levianamente afirma, isso implicaria uma conspiração envolvendo centenas de profissionais, incluindo os pobres entrevistadores que ‘ralam na rua’ e que não seriam necessariamnete coniventes com os ‘esquemas’ patronais, até, no caso, por motivos político-ideológicos. Claro que pesquisas – assim como o jornalismo, ou o que atualmente passa por na ausência de… – podem ser fajutadas, mal feitas, mal intencionadas ou vender gato por lebre. Mas não é essa a questão. De novo, o problema não são as pesquisas em si, muito menos as que estão disponíveis ao escrutínio público, e sim o mau uso que a ‘mídia’ faz delas. E, aqui entre nós, os resultados das pesquisas não têm tanta influência assim sobre as decisões dos eleitores; o claro viés eleitoreiro e negocista das corporações midiáticas, esse sim, das pautas às manchetes, das ênfases às omissões, é que é lesivo.

  4. Comentou em 31/08/2008 Marco Leite

    Nenhuma das pesquisas mostra a realidade daquilo que o eleitor tem em mente. No Brasil pesquisa nada mais é que manipulação dos números, dependendo do comprador da pesquisa deste ou daquele instituto a pesquisa sempre o dará como o que recebe o maior número de intenção de votos. Portanto, esses institutos de pesquisas refletem aquilo que o cliente exige, do mais apenas sofisma referente aos demais candidatos.

  5. Comentou em 31/08/2008 Carlos Martins

    LW, ‘abrir a caixa-preta’, como você, pós-graduado em Ciências Sociais, deve saber, não é tão simples assim. Tente explicar, dentro dos constrangimentos da linguagem e do espaço ‘midiáticos’, o que é uma curva normal donde o que é ‘intervalo de confiança’, o que é uma amostra estratificada por quotas, o que é ‘margem de erro’ na distribuição normal e na distribuição binomial, isso sem falar nas inúmeras artimanhas metodológicas outras, a começar pelo velho embate entrevistas domiciliares versus entrevistas ‘flagrante’. A propósito, algué aí tem a mais remota idéia do que sejam essas esoterices?

  6. Comentou em 31/08/2008 Carlos Martins

    Márcio, ‘banir’ as pesquisas (para divulgação pública) não seria solução. Além de ser complicado legalmente, só faria suprimir uma informação ao eleitorado – e aos partidos e candidadtos, que por lei têm acesso aos dados. Já os ‘gatos gordos’, com cacife para tal, continuariam a contratá-las para ‘consumo interno’. O problema, como bem aponta o artigo, está, e não é de hoje, na ‘pesquisite’ preguiçosa (e tosca, jornalistas e números em geral que dirá estatística historicamente nunca se deram bem) da mídia, que pauperizou e despolitizou o noticiário eleitoral. Em grande parte, com o beneplácito dos donos e diretores dos institutos de pesquisa, que não raro se metem a posar de analistas políticos. Em uma ocasião, as pesquisas foram íteis à democracia: na eleição para governador do Rio, em 82, em que a discrepância entre os resultados oficiais parciais e as pesquisas deixou o JB com a pulga atrás da orelha, o que resultou no estouro do ‘caso Proconsult’ e no desmascaramento da fraude montada em favor do candidato Moreira Franco, do PDS – fraude pela qual, infelizmente, ninguém foi punido, mas isso é outra história. Ou não. (Em tempo: a tal ‘margem de erro’, a rigor, é uma aproximação grosseira e sem valor estatístico, o que os interessados dos dois lados do balcão obviamente omitem.)

  7. Comentou em 31/08/2008 Marcio Henrique

    Na minha humilde opinião as pesquisas de intenção de voto deveriam ser banidas, justamente pelo fato de não corresponderem com a realidade e de ludibriar o eleitorado.

    Ademais, também deveria haver mudanças significativas no horário político, proibindo de vez a edição de programas. Isto é, os candidatos se apresentariam ao vivo em algum assembléia legislativa sem nenhum recurso eletrônico, cortes e ´jingles´.

    Desta forma os menos esclarecidos dificilmente seriam iludidos pelas propagandas bonitinhas e pelos números fantasiosos das pesquisas esbravejados por todos jornais, que de há muito perderam sua capacidade de crítica.

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