Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A caixa-preta e a Casa Branca

Por Luiz Weis em 22/01/2009 | comentários

No princípio, a fonte primária da autoridade e do poder era a força bruta. Depois, outro fator entrou em cena – sem que, naturalmente, a violência saísse. Esse outro fator, que foi mudando de fisionomia ao longo dos milênios, mas sem perder a essência jamais, era o saber exclusivo, o conhecimento privilegiado.


As primeiras castas sacerdotais se constituíram com base no princípio de que a divindade compartilhara com os seus membros as chaves dos mistérios da vida e da morte, as respostas para os enigmas do universo, os meios de aplacar o sobrenatural – que se confundia com a própria natureza – e a prerrogativa de premiar ou punir os aterrorizados homens comuns.


O alegado domínio da dimensão secreta da existência era, portanto, essencial para a perpetuação dos iniciados no comando das populações submissas. Levou uma eternidade, mas não é difícil entender como isso migrou da esfera sagrada para o mundo laico, quando ambos começaram a se separar. A partir de então, o poder passou a se fundamentar no poder de exercê-lo.


As elites dirigentes se legitimavam pela sua presumível maestria em governar – uma atividade tão arcana que exigia dos seus praticantes, à maneira dos oficiantes dos ritos religiosos, atributos inacessíveis aos governados. Estes, na melhor das hipóteses, teriam o direito de escolher periodicamente os detentores do monopólio da gestão dos “negócios do Estado” – a aristocracia (depois burocracia e por fim tecnoburocracia) que fazia andar a “máquina pública” enquanto os políticos politicavam nos parlamentos.


Em ampla medida, os seus poderes variavam – ou variam, porque a história não acabou – na razão inversa do grau de informação ao alcance das sociedades sobre a “ciência” de suas ações: quanto maior a ignorância alheia, maior a capacidade dos eleitos (com ou sem aspas) de decidir solitariamente o melhor para o bem comum.


Daí que a imprensa livre e com acesso aos centros de decisão sempre foi uma dor de cabeça para os modernos feiticeiros na sua pretensão de resolver a portas fechadas como, quando e no que gastar o dinheiro do contribuinte – afinal, é disso que se trata, em última análise.


O governo, em suma, tinha de ser percebido pelos leigos como uma caixa-preta para que os sábios que conhecem os seus mecanismos mais íntimos pudessem manipulá-los, prestando apenas um mínimo de contas de seus atos à plebe ignara. Quando a imprensa começou a melar esse arranjo tão confortável para os confortados, eles recorriam ao chicote e ao afago para manter os intrometidos da mídia à distância dos seus gabinetes.


Não se está falando de um passado remoto ou de alguma paragem remota deste vasto mundo. Nos últimos oito anos, a maior potência do globo, os Estados Unidos da América, foram dominados por um complexo militar-industrial-ideológico cujos agentes ou cúmplices no interior do governo fizeram do segredo, da dissimulação e da mentira escrachada os seus instrumentos de controle do Estado – boa parte do tempo com a complacência do grosso da mídia.


Os portavozes do bushismo recorriam a uma variante da secular patranha de que governar, sendo uma arte tão difícil e delicada, evidentemente não é para qualquer um. A variante foi a seguinte: garantir a segurança nacional em meio à guerra ao terror é um desafio tão imensamente complexo e arriscado que só pode ser enfrentado pelo trabalho sigiloso de equipes abnegadas que sabem o que fazem e cuja lealdade ao país os autorizada a transgredir a lei.


Pois bem. Barack Obama levou menos de um dia na Casa Branca para começar a implodir as estruturas antidemocráticas do mais nefasto governo que os americanos já experimentaram.


Com uma ideia na cabeça – “fazer a administração mais aberta e transparente da história”, segundo o diretor de novas mídias da Casa Branca, Macon Philips – e um computador na mão, o site do novo governo (www.whitehouse.gov) é uma promessa de mudança na filosofia de comunicação pública, ao que tudo indica sem precedentes em qualquer dos países mais importantes do mundo.


Entre outras inovações, que incluem a publicação de um blog e alertas a serem enviados por e-mail, o site divulgará antecipadamente os projetos de leis não-emergenciais em preparo na administração para que, durante cinco dias, os interessados os comentem e sugiram eventuais mudanças. Serão verdadeiras audiências públicas pela internet.


Rigorosamente o oposto do que fizeram ao longo do tempo todos quantos queriam negar aos povos assento à mesa das decisões, estendendo-a, no máximo, às oligarquias políticas dos Legislativos.


Trata-se, diz Philips, de “estimular a participação popular”.


”Será fascinante observar nos próximos meses”, escreve na Folha o historiador britânico Kenneth Maxwell, “como o presidente enfrentará esse dilema de comunicação à medida que a crise econômica se aguça, já que ele precisará de algum meio para explicar a seus eleitores como e por que as políticas que adotou estão funcionando.”

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2009 marina chaves

    tá vendo, quem me dera…. tamos fashion…. o ideal dos terraqueos já anda aparecendo em comentarios de gente importante…shalon! merhaba!

  2. Comentou em 27/01/2009 Lílian Azevedo

    Se o governo é uma caixa preta, corre-se o risco de, ao abri-la, encontrar-se entre outros apetrechos, um falso brilhante. Hollywood já está em ação, ou dá pra negar que Obama é um fenômeno midiático? Claro que quero crer que ele representa a esperança, blá,blá,blá. Mas, ao mesmo tempo em que aparece como um cidadão mais próximo do povo, belo produto de ‘marketing’, ou o sujeito é o que aparenta ser?, fala de Guantanamo aqui e manda bomba ali. Ali é mais difícil negociar e, principalmente, fechar as portas da indústria bélica que sustentou os EUA nesses oito anos, em época de desemprego, não creio ser uma boa. Acalmar os ânimos – dos não-aliados- é salutar.
    Estimular a participação popular é uma coisa; participação de fato e intervenção popular com resultados concretos, é outra. Deixar canais abertos para o contato povo-presidente, é uma coisa; atuar e decidir como chefe de Estado e de governo, outra. E também, acreditar que o último governo estadunidense foi o mais nefasto… me parece uma simplificação histórica ou reducionismo.

  3. Comentou em 26/01/2009 Ibsen Marques

    A definição de um ato como democrático não se fia numa autorização congressual para ele. A questão é de ordem jurídica e, tolher a possibilidade de defesa e autorizar a tortura em quaisquer circunstâcias e de posse de qualquer aval ou autorização, ainda assim, é anti democrático e fere as liberdades de um indivídio, mas o principal é que atenta contra a liberdade de qualquer um sob um mínimo de alegações.

  4. Comentou em 24/01/2009 Pedro Pereira pereira

    Concordo…. o Obama deveria destruir a CIA, alias, todo o exercito americano junto com a CIA. Fechar as bases americanas inclusive as internas.destruir seu sistema de mísseis e abdicar de seu programa nuclear a aeroespacial… e tornar-se totalmente vulnerável aos seus inimigos que diga-se de passagem , não são poucos ….Principalmente para agradar os adoradores de totem e os que entendem de tudo de politica externa e direto intenacional.
    Um dia ainda vou processar certos sites por criar e alimentar uma raça de anencefalos batedores de palminha..
    Que falta faz a leitura com um pouquinho de senso critico….
    O sr luis não diz quais estruturas antidemocráticas criadas por Busch..
    Se for a base de guantanamo e as prisoes de terroristas ele deveria ler um pouco mais sobre a aprovação dada pelo senado, embasado nas leis existente por lá.. não vou indicar o site porque isto é trabalho para jornalista… me diga outra estrutura antidemocratica SR LUIZ.!!!!.
    Bastaria que relatasse que a politica externa da aguia não teve sucesso nos ultimos anos não por ser antidemocratica mas por ser equivocada, mas se é para agradar os politicamentes corretos e dar peixe pras foquinhas é muito bom alimentar o antiamericanismo meter o pau no governo BUsch….

  5. Comentou em 24/01/2009 Levi Bronzeado dos Santos Bronzeado

    Esse termo ‘caixa preta’ significa que sempre existe algo escondido dentro de nossas instituições, dentro do poder, e porque não dizer : dentro de nós mesmos. Por mais que se queira tornar transparente o que move nossas ações, lá no fundo de todos nós (pergunte ao Freud?) temos um porão que guardamos a sete chaves, segredos inconfessáveis e crimes não ditos.
    Todos nós do menor ao maior (Obama), representamos nesse grande teatro que é a nossa vida de relação.
    Triste de quem não acredita em máscaras. A nossa eterna angústia é não poder arrancá-la. Ela é como um espinho invisível em nossa carne, parafraseando o Apóstolo Paulo.

    Clinton, Bush, Obama. Não há nada de novo debaixo do sol (Eclesiastes)

  6. Comentou em 24/01/2009 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Discordo, Weis. As caixas pretas dos EUA não estão na Casa Branca, mas em Langley e no Pentagono.

    Em Langley fica a sede da Agência Central de Terrorismo Americana que eufemisticdamente eles chamam de Central de Inteligência. É lá que são planejados, fomentados e financiados atentados terroristas, campanhas de desestabilização de governos, assassinatos seletivos e guerras por procuração no terceiro mundo (além do tráfico de drogas internacional, segundo alguns).

    O Pentagono sedia a vasta, corrupta, ineficiente e caríssima burocracia socialista/militar americana que administra 600 e tantas bases militares ao redor do mundo onde milhões de soldados são a face externa, rude e violenta do Império de Bases Americano. O custo total de manutenção destas bases militares, que é pago e ignorado pelos contribuintes, está arruinando as finanças públicas americanas (exatamente como ocorreu com a URSS) e dificilmente será reduzido. Você sabia que entre as despesas correntes destas bases estão jatos, barcos e carros de luxo usados pelos comandantes das mesmas?

    Obama tem uma tarefa impossível de realizar. Para dar credibilidade a política externa dos EUA Obama teria que extinguir a Agência Central de Terrorismo Americana (mas isto certamente não será feito). Para sanear as contas públicas seria obrigado a fechar centenas de Bases Militares (o que provocaria uma revolta militar).

  7. Comentou em 24/01/2009 Pedro Pereira pereria

    Vou salvar o texto. Ainda, com certeza, vou dar boas risadas com tamanhas besteiras.principalmente do antidemocrátismo do Busch.
    O jornalismo se esmera a cada dia em pensar com os calcaneos e movimentar-se com o cerebro………que pena.

  8. Comentou em 23/01/2009 Ibsen Marques

    Já perceberam como os jornalistas externos são bons humoristas em suas referências? Quando eles estão cobrindo acidentes, evento de celebridades ou crimes eles são repórteres de campo. Quando as pessoas comuns vão verificar o que está ocorrendo nas mesmas situações são por eles chamados de ‘curiosos’.

  9. Comentou em 23/01/2009 Ibsen Marques

    Acho que a atitude de Obama foi visionária. Primeiro porque se abre à opinião pública. Segundo porque a abertura é direta e elimina a intermediação da própria mídia no sentido da informação que se dá e se obtém através do jornalismo independente ou pseudo independente. Isso é muito interessante porque reabre uma discussão que foi proposta, se não me engano, por Foucalt sobre a intermediação. Os jornalistas, diante de uma situação qualquer, nunca vão diretamente colher a opinião das partes interessadas, quero dizer, estão sempre se utilizando das opiniões ‘abalizadas e competentes’ de psicólogos, pesquisadores, analistas de mercado, advogados, juízes, outros jornalistas, economistas etc. como se as pessoas comuns e que enfrentam diretamente as situações e suas consequências fossem incapazes de expressar suas opiniões, propor novas idéias e soluções ou simplesmente dizer como vêm e reagem a determinadas situações. Nesse sentido, a mídia parece caminhar de mãos dadas com certas teorias políticas paternalistas onde o cidadão não consegue caminhar pelas próprias pernas. É uma nova etapa que minimiza a mídia tanto como porta voz da opinião pública como informante desta mesma opinião. A relação entre governante e governados passa a ser mais direta na medida em que, em última instância, é o próprio presidente que controla os blogs e o site institucional da Casa Branca. (continua)

  10. Comentou em 23/01/2009 marina chaves

    estou com tanta esperança nesse moço obama…. que chegue o tempo em que nós terraqueos paremos de ser julgados por alguns possam ser mais bonitos do que outros e que o unico criterio possa ser o carater, a dignidade humana….

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem