Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A caixa-preta e a Casa Branca

Por Luiz Weis em 22/01/2009 | comentários

No princípio, a fonte primária da autoridade e do poder era a força bruta. Depois, outro fator entrou em cena – sem que, naturalmente, a violência saísse. Esse outro fator, que foi mudando de fisionomia ao longo dos milênios, mas sem perder a essência jamais, era o saber exclusivo, o conhecimento privilegiado.


As primeiras castas sacerdotais se constituíram com base no princípio de que a divindade compartilhara com os seus membros as chaves dos mistérios da vida e da morte, as respostas para os enigmas do universo, os meios de aplacar o sobrenatural – que se confundia com a própria natureza – e a prerrogativa de premiar ou punir os aterrorizados homens comuns.


O alegado domínio da dimensão secreta da existência era, portanto, essencial para a perpetuação dos iniciados no comando das populações submissas. Levou uma eternidade, mas não é difícil entender como isso migrou da esfera sagrada para o mundo laico, quando ambos começaram a se separar. A partir de então, o poder passou a se fundamentar no poder de exercê-lo.


As elites dirigentes se legitimavam pela sua presumível maestria em governar – uma atividade tão arcana que exigia dos seus praticantes, à maneira dos oficiantes dos ritos religiosos, atributos inacessíveis aos governados. Estes, na melhor das hipóteses, teriam o direito de escolher periodicamente os detentores do monopólio da gestão dos “negócios do Estado” – a aristocracia (depois burocracia e por fim tecnoburocracia) que fazia andar a “máquina pública” enquanto os políticos politicavam nos parlamentos.


Em ampla medida, os seus poderes variavam – ou variam, porque a história não acabou – na razão inversa do grau de informação ao alcance das sociedades sobre a “ciência” de suas ações: quanto maior a ignorância alheia, maior a capacidade dos eleitos (com ou sem aspas) de decidir solitariamente o melhor para o bem comum.


Daí que a imprensa livre e com acesso aos centros de decisão sempre foi uma dor de cabeça para os modernos feiticeiros na sua pretensão de resolver a portas fechadas como, quando e no que gastar o dinheiro do contribuinte – afinal, é disso que se trata, em última análise.


O governo, em suma, tinha de ser percebido pelos leigos como uma caixa-preta para que os sábios que conhecem os seus mecanismos mais íntimos pudessem manipulá-los, prestando apenas um mínimo de contas de seus atos à plebe ignara. Quando a imprensa começou a melar esse arranjo tão confortável para os confortados, eles recorriam ao chicote e ao afago para manter os intrometidos da mídia à distância dos seus gabinetes.


Não se está falando de um passado remoto ou de alguma paragem remota deste vasto mundo. Nos últimos oito anos, a maior potência do globo, os Estados Unidos da América, foram dominados por um complexo militar-industrial-ideológico cujos agentes ou cúmplices no interior do governo fizeram do segredo, da dissimulação e da mentira escrachada os seus instrumentos de controle do Estado – boa parte do tempo com a complacência do grosso da mídia.


Os portavozes do bushismo recorriam a uma variante da secular patranha de que governar, sendo uma arte tão difícil e delicada, evidentemente não é para qualquer um. A variante foi a seguinte: garantir a segurança nacional em meio à guerra ao terror é um desafio tão imensamente complexo e arriscado que só pode ser enfrentado pelo trabalho sigiloso de equipes abnegadas que sabem o que fazem e cuja lealdade ao país os autorizada a transgredir a lei.


Pois bem. Barack Obama levou menos de um dia na Casa Branca para começar a implodir as estruturas antidemocráticas do mais nefasto governo que os americanos já experimentaram.


Com uma ideia na cabeça – “fazer a administração mais aberta e transparente da história”, segundo o diretor de novas mídias da Casa Branca, Macon Philips – e um computador na mão, o site do novo governo (www.whitehouse.gov) é uma promessa de mudança na filosofia de comunicação pública, ao que tudo indica sem precedentes em qualquer dos países mais importantes do mundo.


Entre outras inovações, que incluem a publicação de um blog e alertas a serem enviados por e-mail, o site divulgará antecipadamente os projetos de leis não-emergenciais em preparo na administração para que, durante cinco dias, os interessados os comentem e sugiram eventuais mudanças. Serão verdadeiras audiências públicas pela internet.


Rigorosamente o oposto do que fizeram ao longo do tempo todos quantos queriam negar aos povos assento à mesa das decisões, estendendo-a, no máximo, às oligarquias políticas dos Legislativos.


Trata-se, diz Philips, de “estimular a participação popular”.


”Será fascinante observar nos próximos meses”, escreve na Folha o historiador britânico Kenneth Maxwell, “como o presidente enfrentará esse dilema de comunicação à medida que a crise econômica se aguça, já que ele precisará de algum meio para explicar a seus eleitores como e por que as políticas que adotou estão funcionando.”

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