Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A cartilha é o de menos, negrada

Por Luiz Weis em 05/05/2005 | comentários


Já vimos este filme. Quando o governo mandou ao Congresso o projeto do Conselho Federal de Jornalismo, o atordoante barulho dos críticos ao autoritarismo da proposta impediu que se parasse para pensar nos problemas reais e presentes do exercício do jornalismo, que se condensam numa variedade de questões éticas para as quais o conselho ou não teria resposta a dar, ou daria uma resposta errada.


Agora, novamente a mão pesada do governo, a sua propensão para orientar, fiscalizar e disciplinar a sociedade, gerou reações estridentes de escárnio e irritação que acabam removendo do debate público o problema substantivo com o qual a Autoridade se pôs a lidar metendo os pés pelas mãos.


Trata-se do index de 96 palavras e expressões que algum bem-intencionado gênio planaltino achou que era o caso de tentar banir da linguagem corrente, a partir de sua inclusão numa cartilha intitulada, sem aparente intenção de ironia, ‘Politicamente Correto & Direitos Humanos’, preparada pelo jornalista Antonio Carlos Queiroz, incumbido do trabalho por uma fundação ligada à Universidade de Brasília que para isso tinha sido contratada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos.


Ao custo de R$ 30 mil por 5 mil exemplares impressos, a obra ficou pronta há cerca de um ano, quando foi distribuída numa conferência sobre direitos humanos, no Congresso. Até a semana passada sua existência tinha passado praticamente em branca nuvem, mas no sábado a coisa ficou preta quando a barbeiragem foi parar no jornal O Globo, com direito a título de fora a fora na página.


A partir daí — e de um furibundo e-mail do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que logo bateu em tudo quanto é caixa de correio eletrônico —, a mídia se fartou de reproduzir o que a cartilha tem de mais idiota, ao considerar inconvenientes termos como aidético, anão, barbeiro, beata, comunista, farinha do mesmo saco, funcionário público, louco, peão, xiita.


Cada expressão tem uma justificativa para ser evitada e, eventualmente, a versão certa. Mas a cartilha não ensina, por exemplo, o que usar no lugar de anão, palavra que designa as ‘vítimas de um preconceito peculiar: o de sempre serem considerados engraçados’. Será, como alguém zoou, ‘verticalmente prejudicado’?


No caso de homossexualismo — impróprio por ter ‘carga pejorativa ligada à crença de que a orientação homossexual seria uma doença, uma ideologia ou movimento político’ — mandam as boas maneiras usar homossexualidade.


O manual traz também os pejorativos convencionais: baianada, baitola, cabeça-chata, gilete, ladrão, palhaço, sapatão, veado…


Para fugir da tentação de ficar tirando sarro do besteirol — nada mais fácil, dada a quantidade e a natureza dos verbetes oferecidos à chacota pública —, vamos logo ao essencial: palavras ofendem, mesmo quando usadas ‘sem intenção’ ou ‘sem pensar’.


Não é preciso ser americano liberal para achar que certos termos devem ser evitados. Não só pelo seu potencial ofensivo — que sabidamente destrói a auto-estima dos ofendidos, a ponto de fazê-los sentir que não prestam mesmo e, portanto, a se considerarem merecedores do desdém ou da hostilidade com que são tratados.


Devem ser evitados sobretudo pela sua capacidade de perpetuar o preconceito, o desprezo, ou o ódio pelo ‘outro’ — abrindo caminho, no limite, para a sua degradação e desumanização.


Escreveu-se outro dia que ‘não são as expressões que criam o preconceito, mas o contrário’. E mais complicado do que isso: crenças, emoções, palavras e atos se reforçam reciprocamente, formando um círculo que tanto pode ser virtuoso como vicioso.


Designações depreciativas ou agressivas também ‘educam’ para a rejeição do diferente, desde logo transformado ao mesmo tempo em inferior e ameaçador. É pela boca que o preconceito pega aqueles que ainda não o têm — as crianças.


Nem se diga que é tudo macaqueação da nova sintaxe americana. Lá pelo fim dos anos 40, começo dos anos 50, portanto décadas antes que alguém, nos Estados Unidos, cunhasse o orwelliano termo ‘politicamente incorreto’, no Brasil um advogado chamado Fernando Lewinsky se notabilizou por sua quixotesca campanha para expurgar dos dicionários as palavras judiar, judiação e judiaria.


E o que dizer da brasileiríssima expressão ‘negro de alma branca’? Talvez a única passagem elogiável da desastrada cartilha é a que define o que é tido por elogio como ‘um dos slogans mais terríveis da ideologia do branqueamento no país, que atribui valor máximo à raça branca e mínimo aos negros’.


Não serão cartilhas como esta — cujo zelo puritano as faz confundir o jacu com as garças e que acabam gerando, pelo seu ridículo atroz, o efeito perverso de desmoralizar um problema verdadeiro — que contribuirão para educar as pessoas para o respeito aos direitos humanos.


Mas o policiamento, ou melhor o autopoliciamento da linguagem faz parte da vida em sociedade, assim como toda uma pá de controles sociais, sem os quais estaríamos mergulhados na proverbial guerra de todos contra todos.


Certas coisas simplesmente não se dizem porque, embora cada qual seja livre para pensar o que bem entender, ninguém tem o direito de usar a singular característica da espécie humana — a palavra — para oprimir (e é disso afinal que se trata) quem quer que seja.


Um pouco de auto-censura é um preço legítimo a pagar por uma sociedade minimamente decente.

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