Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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A cobertura comunitária desafia imobilismo nas redações e abre perspectivas para jornalistas online

Por Carlos Castilho em 14/05/2008 | comentários

Várias experiências em diversos países do mundo estão convergindo para um único ponto: o jornalismo comunitário pode ser a nova estratégia editorial capaz de garantir o sustento de free lancers bem como o aumento de circulação de grandes jornais.


 


Dito assim pode parecer uma fórmula mágica, mas na verdade é uma opção que ainda enfrenta fortes resistências, porque contraria rotinas, valores e comportamentos muito entranhados no dia dia dos jornalistas.


 


No início de abril, na Califórnia, os 180 participantes do encontro New Tools 2008 , quase todos novos empreendedores do jornalismo pela internet, protagonizaram um raro momento de otimismo num ambiente profissional marcado pelo pessimismo nas redações dos grandes jornais norte-americanos e pela incerteza reinante entre os  free lancers online.


 


Aqui no Brasil, o jornal O Globo começa a investir firme na cobertura regional e comunitária a partir de um projeto que prevê um monitoramento das câmaras de vereadores nos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro, a partir de denúncias de moradores e fatos levantados por repórteres especiais.


 


O editor do projeto, o repórter Chico Otávio, está recebendo uma avalancha de denúncias que materializa a colaboração dos leitores e alimenta um banco de dados, a partir do qual já dá para fazer uma devastadora radiografia da política municipal no estado.


 


Este sopro de otimismo surge de experiências que desafiam a rotina predominante na maioria das redações, transformadas em verdadeiras linhas de montagem de notícias, onde a resistência às mudanças é tão forte a ponto de transformar iniciativas quase óbvias em verdadeiras odisséias.


 


Na Califórnia, foram apresentadas algumas iniciativas surpreendentes tanto pela inovação tecnológica como pela recuperação de velhos princípios como o trabalho solidário e a redistribuição de lucros.


 


Foi possível, por exemplo, descobrir que existe uma experiência (Representative Journalism) onde os moradores de uma comunidade financiam jornalistas para que eles produzam noticiário local; outra chamada Reel Changes, que paga a produção de documentários sobre temas regionais, e ainda o site Reporterist, que se especializou em conectar free lancers com financiadores.


 


A opção pela cobertura comunitária é uma unanimidade em qualquer conversa nas redações, mas quando alguém decide torna-la uma política editoria, as resistências crescem porque ela contraria a agenda predominante nas primeiras páginas dos jornais, marcada pela preocupação com a política nacional e os interesses econômicos das grandes corporações.


 


No caso brasileiro, o fato dos jornais estarem enfrentado um período de vacas gordas por conta do aumento do poder de compra da população, a filosofia predominante é a de que “não se mexe em time que está ganhando”. Os departamentos financeiros podem ter razão, mas os estrategistas da mídia sabem que o momento de mudar é quando tudo vai bem.


 


Quando este momento passa e a situação piora, todos passam imediatamente a propor novas estratégias. Mas aí as condições são outras. Mudanças sob pressão geralmente dão errado. A experiência do O Globo ainda merece ser estudada porque é uma rara iniciativa anti-rotina.


 


Nos Estados Unidos, a opção pelo noticiário local já é majoritária entre os jornalistas free lancers, especialmente os que apostaram na internet. O problema é que eles vivem lá uma situação inversa. A grande imprensa passa por um momento muito difícil, sem opções a vista e com uma forte contribuição ao desemprego entre os jornalistas.


 


Pressionados pela necessidade de sobreviver, eles estão experimentando tudo o que podem e neste afã começam a surgir resultados que podem não pagar as contas no fim do mês, mas servem de embrião de projetos futuros.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2008 Rogério Kreidlow

    Muito inteligente a idéia de O Globo, em relação às Câmaras de Vereadores. Nas redações tradicionais (e trabalho em uma) não há mais essa margem para assuntos ‘pequenos’, locais, bairristas. Não há autonomia aos repórteres. Todos trabalhabam sobrecarregados com assuntos prontos (mortos). Aquelas ‘sacadas’ de jornalista só significam mais trabalho e ninguém nem quer sugerir nada, preocupado que está em dar conta das demandas. O resultado são páginas e páginas que vão para o lixo e ficam jogadas nos quintais de casas no dia seguinte, quando os assuntos mais quentes já foram discutidos, fofocados, comentados, etc. e tal, no dia anterior (durante o fato). O difícil é jornalistas aqui no Brasil encontrarem maneiras de financiar atividades freelancer que não seja mera assessoria. Alguém vai pagar um repórter que incomoda todo mundo, sabendo que o próprio cidadão que reclama é cheio de rabos presos com políticos (ganhou areia, tijolos, cesta básica)? Fica a dúvida. A maioria, para ganhar mais (e não ser tão sugado) vira é publicitário disfarçado de assessor, que é o que muita assessoria faz. E no fim de semana ri de quem está se danando no plantão da redação, sem peso na consciência. Abraços

  2. Comentou em 15/05/2008 acreucho nascimento

    A idéia seria ótima se pegasse aqui no Brasil, traria trabalho pra muita gente inteligente que tem por aí, precisando trabalhar e as notícias deixariam de ser sempre as mesmas em todos os jornais.
    A idéia de uma espécie de fiscalização por parte da população seria excelente e uma pedra no sapato das autoridades do legislativo e executivo

  3. Comentou em 15/05/2008 Ricardo Sturk

    Carlos, parabéns pelo excelente texto.
    Gostei da comparação das redações com linhas de montagem, o mais triste de tudo isso é ver essa resistência em mudanças.
    A dúvida que me surgiu agora é se aqui no Brasil e na América Latina temos algum evento com o foco semelhante ao do New Tools. Será que conseguiremos implantar idéias como essas em nosso contexto nacional atual?

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