Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A corrida mundial para o treinamento de jornalistas

Por Carlos Castilho em 25/09/2007 | comentários

A reforma da mídia começa a delinear-se como uma preocupação mundial, se depender dos principais centros de estudos sobre jornalismo e comunicação. Um dos principais sintomas desta preocupação é a multiplicação dos cursos e projetos sobre treinamento de jornalistas.


 


Agora também as empresas entram nessa atividade porque finalmente estão descobrindo que o profissional convencional não consegue dar conta das novas tarefas jornalísticas criadas pela era digital.


 


Não se trata mais apenas de aprender a usar computador, novos programas de edição e publicação, nem muito menos de oferecer dicas sobre como chegar rapidamente à tão badalada convergência multimídia.


 


O que começa a ganhar corpo na reforma da imprensa contemporânea é a discussão sobre o desenvolvimento de novos valores profissionais diante de realidades também novas — como a emergência do leitor como co-produtor de noticias, da autoria coletiva, do novo conceito de notícia e dos novos parâmetros éticos da atividade jornalística.


 


A Fundação Knight (http://www.knightfdn.org/) , dos Estados Unidos, acaba de criar um fundo de 1,6 milhões de dólares para pesquisa e treinamento de jornalistas em atividades profissionais ligadas à Web. A mesma fundação tem outro projeto, chamado Challange (http://www.newschallenge.org/_po/main_e.html) com US$ 25 milhões para financiamento de projetos com custo variável entre 10 mil a 400 mil dólares.


 


A revista inglesa The Economist (http://www.economist.com/world/international/displaystory.cfm?story_id=9804315) listou cerca de 3.000 projetos e cursos em andamento, especialmente na América Latina, África, Oriente Médio, Leste Europeu e Ásia.


 


O fenômeno coincide com o agravamento da crise na mídia européia e norte-americana enquanto que no resto do mundo, segundo The Economist, os jornais, rádios e emissoras de TV mostram um comportamento saudável, mesmo em tempos considerados duros e difíceis na área da comunicação.


 


A preocupação dos financiadores de projetos parece estar ligada à idéia de que a mídia tende a jogar um papel cada vez mais importante na modelagem dos processos sociais nesta era de transição para um sistema econômico ancorado na digitalização.


 


Alguns projetos estão ligados diretamente ao desempenho de empresas, como é o caso da recém-criada Fundação AFP que vai treinar jornalistas, especialmente no mundo árabe, que já são, ou podem vir a ser, colaboradores da agência de notícias francesa.


 


Outras instituições, como a rede britânica de televisão BBC, pretendem treinar jornalistas visando melhorar o sistema democrático nos países alcançados pelo projeto. Na África isto funcionou, mas no Oriente Médio foi um fracasso por conta de visões diferentes sobre o processo democrático.


 


Este esforço concentrado de treinamento de jornalistas precisa, no entanto, ser visto num contexto mais amplo. O modelo de negócios da imprensa mundial está baseado no sistema criado por norte-americanos e europeus, justamente onde a tendência à mudança é mais forte e mais necessária, por conta da expansão do uso da web.


 


Esta crise deve ser exportada para os países pobres, à medida em que eles ingressarem na era digital, especialmente no setor da mídia. Com isto o modelo de negócios da grande imprensa latino-americana, africana e asiática tende também a enfrentar um período crítico de transformações.


 


Treinar profissionais para executar tarefas que devem perder a importância atual dentro do exercício do jornalismo pode não ser uma ajuda essencial no momento, mesmo levando em conta que o atraso tecnológico de muitos países pobres prolongará a sobrevida de formas convencionais na imprensa.


 


O projeto Challange está mais antenado com as tendências futuras na medida em que aposta boa parte de suas fichas na parceria entre profissionais e não-profissionais na produção de notícias, especialmente nas pequenas comunidades do entorno urbano.


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/10/2007 Marco Antônio Leite

    Caro Oliveira, não se embaie, o computador(micro) nada mais é que uma máquina de escrever antiga. Os funcionários públicos não necessitam ter conhecimento profundo de informática, pois hoje esse pessoal é treinado para trabalhar com programas especifico. Não pense que o senhor tem tanto conhecimento assim!

  2. Comentou em 26/09/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Brilhante, como sempre. Entretanto, você nem se deu conta do tamanho real do problema. Se os mídia (que são obrigados a estudas diversos assuntos) estão defasados em razão das idiosincrasias das novas tecnologias, o que dizer dos legisladores, administradores públicos, juizes, desembargadores, promotores, procuradores, etc… que foram formados numa realidade autoritária (ou seja, durante o regime militar) e sob o signo da máquina de escrever. Dentro de um Estado carcomido pela corrupção em todos os níveis, existem milhares de servidores que são analfabetos digitais e que já passaram da idade de ser alfabetizados. E o pior é que pagaremos as aposentadorias deles no futuro, muito embora no presente eles sejam ineficientes em razão de sua inaptidão para compreender as melhorias que podem ser introduzidas em razão dos computadores em rede. Talvez uma ou duas gerações adiante as coisas melhores. Por enquanto seremos obrigados a conviver com estas contradições. É por isto que não devemos crucificar só os mídia.

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