Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A crise egípcia abre o debate sobre o “botão vermelho” na internet

Por Carlos Castilho em 31/01/2011 | comentários

No dia 28 de janeiro, uma sexta-feira, o governo egípcio cortou o acesso de 80 milhões de pessoas à internet numa tentativa de sufocar a reprodução viral de mensagens de apoio à rebelião popular contra o presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.


Foi um novo caso de bloqueio da internet por motivos políticos. O primeiro foi em 2009, quando a China proibiu o acesso à internet e à telefonia móvel na província de Xinjiang, no noroeste do país, durante protestos antigovernamentais.


Também em 2009, o governo do Irã bloqueou o acesso à internet em determinadas regiões do país para conter protestos populares. Mas a medida não chegou a afetar as comunicações telefônicas e nem o funcionamento do sistema bancário e financeiro.


O caso egípcio é muito mais grave do que o chinês e o iraniano porque teve alcance nacional e coloca uma inquietante dúvida para os dois bilhões de usuários da internet no mundo inteiro: até que ponto governos ameaçados pelo descontentamento popular podem recorrer ao mesmo expediente do presidente Mubarak?


A resposta é, infelizmente, podem sim. Os governos podem usar a força para impedir que as pessoas usem a internet e a telefonia móvel para divulgar mensagens políticas ou convocar manifestações por meio de mensagens instantâneas. As autoridades podem cortar as linhas mestras (backbones) impedindo o contato internacional e regional, mas a comunicação local, por meio de intranets, continua possível.


A internet e a telefonia móvel se tornaram ferramentas políticas altamente eficientes e estão viabilizando um novo fenômeno político: o das explosões de descontentamento popular, como acaba de acontecer também na Tunísia, onde um regime do presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado em dezembro passado após uma onda de protestos populares contra a falta de democracia no país.


A facilidade de comunicação interpessoal, por meio de dispositivos eletrônicos leva as pessoas a compartilhar cada vez mais as suas frustrações políticas, criando condições para o surgimento de explosões de descontentamento que fogem inteiramente aos padrões políticos convencionais, o que tem deixado as autoridades desnorteadas.


Em janeiro de 2001, milhares de filipinos protagonizaram o primeiro grande protesto político viabilizado pelas novas tecnologias. Eles usaram torpedos, via celular, para convocar um protesto numa avenida central da capital Manila usando a frase ‘GO 2EDSA. Wear Black (traduzindo: ‘Vá para a Avenida Epifanio de los Santos. Vista-se de preto’). O presidente Joseph Estrada renunciou e inaugurou a lista de governantes vitimados pela telefonia celular e pela internet.


Tanto no caso da Tunísia como no do Egito, a imprensa local acabou atropelada pelos acontecimentos porque não descobriu a tempo como as pessoas estavam se comunicando e nem prestou atenção ao crescimento do descontentamento popular, alimentado pela troca de informações via web e torpedos.


O bloqueio da internet e da telefonia celular são medidas de alcance parcial porque não podem ser mantidas durante muito tempo. Sem acesso à rede mundial de computadores e sem poder usar os telefones móveis, a economia acaba sofrendo as conseqüências e o isolamento internacional do país afeta também áreas vitais, como comércio exterior e segurança.


É possível bloquear apenas o acesso à redes sociais como Facebook ou Twitter, como aconteceu nos primeiros dias da revolta egípcia e no caso iraniano. Mas nesse caso os usuários podem recorrer a servidores internacionais ou à ajuda de hackers para violar as proibições de acesso.


Apesar de tudo isso, em países como Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética, China e Alemanha discutem-se as iniciativas para implantar o chamado botão vermelho, por meio do qual os respectivos governantes podem com uma única ação derrubar toda a rede nacional de internet. Esta ação é mais fácil em países com uma estrutura centralizada e onde o governo tem o monopólio dos backbones.


Nos Estados Unidos, o senador Joe Lieberman, independente, está promovendo um projeto chamado ‘Protecting Cyberspace as a National Asset Act’ (Lei de Proteção do Espaço Cibernético como um Bem Nacional) que prevê, entre outras medidas, a implantação de um sistema similar ao do botão vermelho.  


A magnitude dos problemas envolvidos em crises como a do Egito mostra que a internet passou a ocupar o papel estratégico que antes era exercido pelos jornais, rádio e televisão quando o descontentamento popular torna-se incontrolável. A grande diferença é que a imprensa apenas publica os fatos, enquanto a internet, além de divulgá-los, também os organiza e promove.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/02/2011 fábio de oliveira ribeiro

    Eu prefiro chamar o tal BOTÃO VERMELHO de BOTÃO DO SUICÍDIO.
    Derrubando a Internet e a telefonia celular as autoridades nacionais só
    conseguirão uma coisa: obrigar os cidadãos a gastar nas ruas a energia
    que gastavam na Internet e nos celulares.

    A democratização do Ocidente e do Oriente é um caminho sem volta.

    Gostem ou não os ditadores, gostem ou não políticos regularmente
    eleitos. Em breve até políticos eleitos começarão a ter seus mandatos
    revogados não por militares (como ocorria no passado) mas pelo próprio
    povo.

    É a civilização em movimento. A evolução política às vezes ocorre
    lentamente. As vezes dá um salto. Nós estamos vendo um imenso salto
    ser dado.

  2. Comentou em 03/02/2011 Ney José Pereira

    E aqui no Brasil a companheirada não vê a hora de ‘apertar’ o tal botão ‘vermelho’!. Observação: Levando em conta que cada ‘preso’ (nas masmorras medievais) no Brasil tem uma mãe e duas avós, então, a querida brasileira dona companheira Dilma tem a obrigação de ‘abraçar’ aproximadamente 1.500.000 (um milhão e quinhentas mil) mães e avós da praça… Brasil. Não só em maio, mas, de janeiro a dezembro. De cada ano!. PS. Que o norte-africano país o tal Egito dê a sua solução ao seu déspota Hosni Mubarak. E quando o sul-americano país o tal Brasil dará a sua solução aos seus déspotas?!.

  3. Comentou em 02/02/2011 Pedro Carvalho Neto

    Muito pior que o botao vermelho ´e o uso da internet como Big Brother, para controlar a oposição e as redes sociais. Isto não é ficção científica, é fato e documentado. Ocorre em países como a Russia e a China e é de fácil implementação pelos governos. Eles podem espionar sem sair de casa, é só acompanhar o que os ‘os suspeitos’ dizem no Facebook. É mais simples que escuta telefônica

  4. Comentou em 02/02/2011 Marcelo Breyner

    Bom artigo. Só que a União Soviética não discute mais nada. O tema do botão vermelho as vezes induziu ao deslize.

  5. Comentou em 02/02/2011 EDSON VIEIRA DA SILVA

    SE MURABACK continuar assim … ele pode virar defunto.

  6. Comentou em 02/02/2011 José Carlos Campos

    Preservar a Internet longe das mãos do governo é garantir a liberdade e
    a democracia. Não se trata apenas de controle sobre as redes sociais,
    hoje já existem centenas de rádios e tvs funcionando on-line. Quando se
    popularizarem (e se profissionalizarem) serão sérias ameaças aos grupos
    tradicionais de mídia (e seus aliados políticos). Preparem-se para os
    rugidos.

  7. Comentou em 02/02/2011 José Carlos Cavalheiro

    Ótimo artigo. Parabéns.

  8. Comentou em 02/02/2011 Jaime Collier Coeli

    A operacionalidade da santa banalidade, aliada à santa ingenuidadifee! O exercito mandou os manifestantes botarem a viola no saco e eles não saem das ruas. As conquistas tecnicas não correspondem a um aprimoramento das instituições. Há enorme defasagem entre o que o ser humano sabe e pode e os ‘sistemas’ que controlam a vida social. Perguntem a qualquer jurista: como se faz uma constituição originária? O pior é que o ‘sistema’ caduco pode ser substituido por um ‘sistema’ idem ibidem. Seja com que instrumento for.

  9. Comentou em 02/02/2011 fábio de oliveira ribeiro

    LIÇÕES DO EGITO Se não quer o povo na rua pedindo sua cabeça
    mantenha a Internet ativa. Navegando dentro de casa o povo é
    inofensivo!

    Mubarak é um idiota. Fez tudo errado. Subestimou a capacidade de
    organização do povo sem Internet e mandou o povo para rua ao desligá-
    la.

    Na rua ele já perdeu a disputa. Os militares egípcios se recusam a
    molestar seu povo – um exemplo para os militares latino-americanos,
    sempre tão covardes, sempre tão prontos a maltratar seus povos,
    sempre tão submissos aos gringos.

  10. Comentou em 02/02/2011 Oclides Rodrigues

    É incrível você ler um artigo dessa envergadura, e não ficar imaginando o papel estratégico que a internet tem sobre as pessoas e conseqüentemente para o mundo. Por isso, estou cada vez mais convicto que precisamos investir mais em Software Livre. A revolução democrática passa por ter um povo bem esclarecido e entendido que o poder está em suas mãos, basta conhecer os problemas, e as possíveis soluções é só ouvir no seu bairro na sua cidade, ou principalmente nas redes sociais…

  11. Comentou em 02/02/2011 Jaime collier coeli

    Quanto mais muda mais fica a mesma coisa. O velho Mark Twain tinha razão, o ancestral remedio do INTERDITO, providencia abençoada pelo divino poder, pode garantir a ignorancia, chave da ciencia exata que mantem as populações anestesiadas. Primeiro um comprimido de optimol; depois uma dose de borracha no lombo; por fim, os bonzinhos aparecem, com a comunicação desligada, para ganhar a eleição. Quanta banalidade!

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