Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A crise na imprensa transforma os EUA num laboratório da mídia

Por Carlos Castilho em 26/11/2008 | comentários

Enquanto a imprensa convencional enfrenta um fluxo contínuo de más notícias sobre o seu futuro nos Estados Unidos, por outro lado cresce no país uma frenética atividade de jornalistas, estudantes de jornalismo, pesquisadores, ativistas e até homens de negócio, todos procurando testar novas fórmulas de jornalismo, quase sempre na internet.


 


Não há nenhum país onde os dois extremos da transição de modelo na mídia sejam tão nítidos e tão discutidos. A grande imprensa norte-americana, que já foi um modelo para os jornalistas de todo mundo, hoje protagoniza um melancólico fim de festa. No outro extremo, há uma mobilização inédita entre os adeptos da inovação numa busca caótica e incerta novos modelos jornalísticos.


 


Começam agora a surgir informações sobre uma verdadeira febre de jornais comunitários online criados por jornalistas, ativistas e empreendedores locais, interessados em explorar os nichos de atividade informativa, vagos depois do processo de fusão e concentração de empresas de comunicação nos anos 1980 e 90, e abandonados agora com o enxugamento radical das redações desses mesmos conglomerados jornalísticos.


 


O que essas experiências têm em comum é o caráter não lucrativo, contrariando uma velha tradição norte-americana de jornais voltados para a geração de altíssimos dividendos para seus acionistas. A tendência marca uma tentativa de acabar com a era da imprensa como um negócio e implantar o caráter público e não-governamental como matriz para novas iniciativas de jornalismo na Web.


 


O jornal Voice of San Diego, no estado da Califórnia, foi criado há três anos por um grupo de 10 jornalistas egressos da imprensa convencional e jovens recém-formados, apoiados por quatro empresários da cidade de San Diego. A produção do jornal online, atualizado diariamente, custa aproximadamente 800 mil dólares anuais (cerca de 1,7 milhão de reais), incluindo salários e custos operacionais.


 


O orçamento é coberto por 14 grandes financiadores (contribuições de 15 mil dólares) e quase 200 doadores cujas contribuições anuais variam de 35 dólares a 10 mil dólares. Todas as contribuições são dedutíveis do imposto de renda e os nomes dos doadores estão publicados no site do jornal.


 


O MinnPost, de Minnesota, é de todas as experiências locais nos Estados Unidos a que conseguiu maiores taxas de visitação por usuários (200 mil visitantes únicos mensais). O jornal online é atualizado de segunda a sexta-feira, tem um orçamento de 1,3 milhão de dólares anuais, financiados por quatro grandes fundações e pouco mais de 900 doares regulares.


 


Além desses há também experiências como as do Crosscut, em Seattle, e do Independent, da cidade de New Heaven, todos organizações não-lucrativas apoiadas por doações e financiamentos, tendo como marca registrada comum a cobertura local e hiper-local (rua, bairro ou condomínio), e a transparência total em suas finanças, tanto nas receitas como nas despesas.


 


São todas experiências que tentam encontrar soluções para o dilema de como sobreviver economicamente na Web sem contar com generosas receitas publicitárias. Além disso, procuram desenvolver um novo estilo, novas rotinas e valores para o jornalismo baseado numa parceria com os leitores. É impossível prever se essas tentativas darão certo ou não. Provavelmente muitas não sobreviverão porque as incógnitas são tão grandes quanto o entusiasmo dos seus protagonistas.


 


O obituário de projetos de jornalismo na Web já contabiliza quase 70 registros ao longo dos 10 últimos anos, só nos Estados Unidos. Mas cada insucesso deixou uma lição para o próximo aventureiro digital da informação. De lição em lição, a experiência ensina que acabarão surgindo várias soluções.


 


Outra característica marcante no laboratório midiático norte-americano é o debate público em torno da crise e das experiências em curso na imprensa do país. Um debate que também não tem paralelo no mundo e curiosamente não tem participação do governo. Toda a revolução na imprensa norte-americana está acontecendo à margem dos circuitos tradicionais de poder político e econômico.


 


Os sindicatos, organizações patronais e grupos de lobby passaram a um segundo plano, enquanto os principais protagonistas do debate passaram a ser grupos de jornalistas profissionais, ativistas da informação, empresas e empresários da informática, telemática e internet, universidades, associações comunitárias e até mesmo alguns jornais como o The New York Times, The Guardian, The Washington Post e Le Monde.


 


Pode-se dar os mais variados adjetivos ao processo em curso nos Estados Unidos. Pode-se até usar rótulos maniqueístas como burla e ilegalidade para experiências com jornalismo participativo. O que não se pode negar é que lá eles estão tentando achar saídas para a crise na imprensa por meio de um debate horizontal e transparente, enquanto aqui nós jornalistas, leitores e empresários da comunicação continuamos ignorando o público e esperando soluções milagrosas que venham de Brasília.

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