Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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A curta memória da mídia

Por Luiz Weis em 01/10/2007 | comentários

A Folha desta segunda-feira traz uma daquelas raras matérias na imprensa brasileira que tratam de jornalismo.

Mais especificamente, do que acontece com as pessoas comuns que tinham virado notícia – no Brasil de hoje, quase sempre em razão de uma tragédia – depois que deixaram de ser notícia.

A excelente reportagem de Paulo Sampaio, “Vítimas se dizem abandonadas após a mídia virar a página”, examina um problema aparentemente insolúvel, mas nem por isso menos angustiante para aqueles que ainda não permitiram que o ofício os privasse do sentimento de compaixão e que consideram a ética profissional parte de uma ética de vida.

“Cerca de 43 mil pessoas por ano são vítimas de crimes violentos intencionais no Brasil”, lembra a matéria. Mas “apenas alguns episódios de violência recebem atenção extra da mídia”.

Isso acontece, nota Sampaio com agudo senso de realismo, “ou por causa do grau inédito de barbaridade, ou pela falta de concorrente à altura no noticiário, ou, ainda, dependendo da classe social dos envolvidos (quanto mais ricos, mais chocante parece ser) e do local que ocorrem”.

Naturalmente, depois da superexposição, “apagam-se os holofotes, recolhem-se os microfones, boa parte da atenção dispensada aos familiares se desvanece”.

Curta é a memória da mídia.

Entre outros, o repórter conta o caso exemplar de Rosa Vieitas. Eu – e decerto a torcida do Flamengo – não saberia hoje de quem se trata, se o seu nome não viesse acompanhado da informação de que “seu filho, João Hélio, 6, foi brutalmente arrastado pelas ruas do Rio em um assalto ao carro da família”.

O pai do menino conta que o casal tomou o cuidado de evitar os “programas sensacionalistas da tarde”, para aparecer só naqueles nos quais pudesse “transmitir nossos apelos de paz”.

Ainda assim, o casal precisou pedir à Telemar que não divulgasse mais o seu telefone.

Segue-se a pancada:

“Passados quatro meses, em junho, o casal não conseguiu reunir dez pessoas em uma manifestação do movimento Rio Unido contra a Violência, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ninguém da imprensa.”

A vida é assim. Federico García Lorca, no seu poema “Pranto por Ignácio Sanchez Mejías”, sobre a morte do célebre toureiro de quem era amigo próximo, registra que logo ele fará parte do “montão de cães esquecidos / como todos os mortos desta terra”.

Mas é o caso de perguntar se a imprensa faz tudo o que está ao seu alcance em relação às pessoas que ontem assediava sem cessar por terem sobrevivido a uma violência excepcional ou por serem pais, mães, maridos, mulheres, irmãos, irmãs dos que a ela sucumbiram.

Claro que não cabe à mídia dar assistência psicológica aos traumatizados por um horror indizivel – embora lhe caiba denunciar o abandono a que eventualmente estejam relegados.

Claro também que nessa fábrica de emoções enlatadas chamada cultura de massa tudo é efêmero: os 15 minutos de fama contam para todos quantos saem da obscuridade rumo à glória ou à tragédia.

Claro, por fim, que a mídia às vezes não dá conta nem do fato novo, que dirá do fato amanhecido.

Pois bem. Levando tudo isso em conta, é da agenda do jornalismo de qualidade manter vivas amanhã as histórias com não-celebridades que foram manchete semana passada. Por uma questão de decência humana comum.

Depõe contra a imprensa que nenhum repórter tenha ido cobrir a manifestação de que falam os pais de João Hélio. De resto, se algum tivesse estado lá, voltaria com uma história que um editor sensível perceberia de imediato que merecia ser contada – e explicada: por que tão poucos se associaram a eles, logo a eles, num ato de civismo, numa das mais violentas cidades fluminenses.

Para a saúde moral de uma sociedade, certos acontecimentos não devem ser lembrados apenas “aniversariamente”, como escreveu outro poeta, Fernando Pessoa, dirigindo-se a um suicida relutante: “No dia em que nasceste / E no dia em que morreste”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/10/2007 Paulo Bandarra

    Luiz Weis levanta a ponta de um iceberg. Podemos assim ver a força díspar com que as coisas são tratadas pela mídia e a importância que a opinião pública dá as questões. Assunto que modestamente abordei no OI em “
    MÍDIA E SAÚDE Informação salva vidas e obriga governos a agirem”. Na matéria abordei a questão não intencional das mortes dos acidentes automobilísticos milhares de vezes mais mortais do que os aéreos. Assim como a epidemia de hepatite, maior do que a de AIDS. Nossos homens errados mortos pela repressão não aparecem na mídia como do brasileiro morto em Londres! A falta de grooving nas estradas e os milhares de buracos da mesma não aparecem na mesma proporção com as mortes. Ministros não são trocados pelo apagão rodoviário, apenas pelas trocas de “favores” partidários!

  2. Comentou em 02/10/2007 Marco Antônio Leite

    Você não esta cumprindo com que escreveu, ou seja, cessam os comentários. Vale informá-lo, homem que é homem nasce em Pompeia e não bobeia, bem como mora em Pau Grande que é vizinho da Paulicéia desvairada?

  3. Comentou em 02/10/2007 Giovanni Giocondo

    Depois de acompanhar a matéria publicada na Folha de São Paulo ontem, confesso que já esperava uma reflexão acerca da mesma por parte do Observatório.
    Registrar, com bastante clareza, a importância de reportagens que abordam o tratamento do jornalismo em relação às mazelas da sociedade brasileira, além de mostrar um senso crítico que considero essencial à posição de qualquer jornalista, busca um entendimento da situação vigente e colabora para o contínuo questionamento da atividade jornalística, a qual sempre defende a própria independência editorial, mas finge esquecer da dependência que ainda tem em relação às técnicas tão cultuadas e aprendidas na escolas de Comunicação, revertidas para a atuação profissional, e que não apóiam o questionamento à rotina diária do jornalista, regada de superficialidade nas formas como tabalha e prisão quanto aos interesses do veículo em que atua.

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