Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A empreita, a corrupa e o ‘sistema’

Por Luiz Weis em 21/05/2007 | comentários

Cinco dias antes de irromper na mídia a Operação Navalha, o Estado publicou uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas com uma amostra de 244 deputados (47,6% do total) e 36 senadores (44,4%). A intenção era conhecer a opinião dos congressistas sobre “reformas e agenda política”.

O que mais chamou a atenção no levantamento é que a esmagadora maioria (73%) dos entrevistados atribui a corrupção não apenas à “postura individual”, mas também ao “sistema de barganha e negociações historicamente constituído”, nas palavras do questionário.

O “não apenas” e o “mas também” são da lavra dos pesquisadores. A julgar pelo retrospecto, os pesquisados devem se ter aferrado a essa formulação para passar a versão complacente de que a causa primeira dos desvios de conduta que possam ter tido é um ectoplasma chamado “sistema”.

Tanto que só 21% dos respondentes assinalaram que a corrupção reflete apenas a atitude “de alguns parlamentares”, ou seja, uma decisão pessoal.

Pena que nem mesmo o Estado tenha dado corda ao assunto. Se o fizesse, poderia argumentar que, de fato, o “sistema” – do processo orçamentário que faz a festa da empreita à compra de apoios com moedas metafóricas ou reais – é um incentivo à gatunagem.

Mas uma coisa é dizer que as relações entre o Executivo e o Legislativo, e as das Gautamas da vida com ambos, facilitam a corrupção. Outra é insinuar que elas obrigam os políticos a ser corruptos. Se assim fosse, como diz o samba, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. O que não é o caso nem nesse Congresso onde os justos pagam pelos pecadores.

Além disso, mesmo que se admita que o “sistema” cria as condições que tornam possíveis mensalões e sanguessugas, isso não explica a impunidade. Os deputados que, pelo voto secreto, salvaram os mandatos da quase totalidade dos mensaleiros o fizeram por livre e espontânea vontade. Idem no caso dos membros da Comissão de Ética da Câmara que se recusaram a abrir processos por quebra de decoro parlamentar contra colegas reeleitos, acusados de vampirismo na legislatura anterior.

É o sistema da cumplicidade, que a mídia – isso sim – expõe a cada escândalo.

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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/05/2007 JOSE ORAIR Silva

    A verdade é que os altos custos das campanhas eleitorais têm empurrado os senhores deputados para a corrupção e expulsado da política pessoas integras e honestas. Imaginemos dois deputados: Um absolutamente honesto (será que ainda existe…?) , que não participa de nenhum esquema e outro desonesto e que, conseqüentemente vai acumulando recursos ao longo do mandato. Chega a época da reeleição. O coitado do honesto não tem condições de fazer frente às elevadas despesas, não consegue transformar sua honestidade em votos e, conseqüentemente são muito reduzidas suas chances de reeleição, enquanto o desonesto, que jogou de acordo com as regras do sistema, tem as burras cheias e consequëntemente… Entretanto, antes que seja mal interpretado e corra o risco de linchamento pelos colegas comentaristas, esclareço que não estou advogando a vitaliciedade para os nobres deputados, tendo em vista o que o que está acontecendo no judiciário, onde a garantia constitucional da vitaliciedade não tem impedido que seus membros sejam concorrentes à altura dos ilustres do representantes do povo em sucessivos escândalos….

  2. Comentou em 23/05/2007 Etevaldo Silva

    É incrível como o tempo passa e os velhos vícios do jornalismo descompromissado continuam ditando os costumes. Fontes consideradas fidedignas têm cada vez mais espaço para utilizar a mídia e atingir seus alvos de maneira irresponsável. A imprensa precisa checar, checar e checar as informações para não continuar incorrendo em erros infantis.

  3. Comentou em 23/05/2007 Eduardo Paiva

    Na igreja que frequentei, até os 18 anos, nenhum pregador dise que desviar dinheiro público é pecado; quebra do dois mandamentos : NÃO FURTARÁS e NÃO COBIÇARAS O ALHEIO.

    Na escola básica e na Universidade, nunca, nenhum professor debateu a violação ética envolvida em obras e licitações super faturadas, que retiram o dinheiro que seria para aplicar nos sistemas publicos de saúde/educação/segurança/etc. . Dinheiro de corrupção, transferido para as contas bancárias de políticos/administradores públicos, e empreiteiros, desonestos.

    Meus pais nunca tocaram no assunto, pois gente do povo, pouca instrução, assalariados sofridos, espoliados pelo SISTEMA.

    SISTEMA em que escola e igreja são omissos, negligentes, na formação do indivíduo para o exercício da ética e da cidadania.

    Sinto-me vitima, junto com dezenas de milhões de brasileiros, dos Sistemas Educacional e Religioso, que a serviço de elite econômica corrupta, nos oferece formação de baixa qualidade técnica/ filosófica/política e ética.

  4. Comentou em 21/05/2007 Marco Costa Costa

    O sistema são os Deputados, Senadores e o pessoal do alto escalão, se a corrupa existe é porque uma parcela considerável dos parlamentares estão envolvidos diretamente em pôr a mão no bolso do povo. Temos também, aqueles que indiretamente participam do processo e outros são omissos quando a sujeira que esta ao seu lado. Portanto, todos estão dentro do mesmo balaio da corruptela. Se não houver uma mudança radical no comportamento da maioria, o circulo vicioso nunca terá fim, ou seja, ele rouba, porque deixarei de participar desse esquema, haja vista que o sistema permite todo o tipo de bandalheiras. Visto que, não existe um rigor sobre o que cada parlamentar esta fazendo de fato ou falta um processo de fiscalização das andanças de cada um dos parlamentares. Verba orçamentária é distribuída como se distribui doce para a criançada, pôr isso seria muito importante a criação de um Ministério de Distribuição de Verbas e Controles Rigorosos naquilo que cada deputado/Senador ira gastar.

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