Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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A empreita, a corrupa e o ‘sistema’

Por Luiz Weis em 21/05/2007 | comentários

Cinco dias antes de irromper na mídia a Operação Navalha, o Estado publicou uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas com uma amostra de 244 deputados (47,6% do total) e 36 senadores (44,4%). A intenção era conhecer a opinião dos congressistas sobre “reformas e agenda política”.

O que mais chamou a atenção no levantamento é que a esmagadora maioria (73%) dos entrevistados atribui a corrupção não apenas à “postura individual”, mas também ao “sistema de barganha e negociações historicamente constituído”, nas palavras do questionário.

O “não apenas” e o “mas também” são da lavra dos pesquisadores. A julgar pelo retrospecto, os pesquisados devem se ter aferrado a essa formulação para passar a versão complacente de que a causa primeira dos desvios de conduta que possam ter tido é um ectoplasma chamado “sistema”.

Tanto que só 21% dos respondentes assinalaram que a corrupção reflete apenas a atitude “de alguns parlamentares”, ou seja, uma decisão pessoal.

Pena que nem mesmo o Estado tenha dado corda ao assunto. Se o fizesse, poderia argumentar que, de fato, o “sistema” – do processo orçamentário que faz a festa da empreita à compra de apoios com moedas metafóricas ou reais – é um incentivo à gatunagem.

Mas uma coisa é dizer que as relações entre o Executivo e o Legislativo, e as das Gautamas da vida com ambos, facilitam a corrupção. Outra é insinuar que elas obrigam os políticos a ser corruptos. Se assim fosse, como diz o samba, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. O que não é o caso nem nesse Congresso onde os justos pagam pelos pecadores.

Além disso, mesmo que se admita que o “sistema” cria as condições que tornam possíveis mensalões e sanguessugas, isso não explica a impunidade. Os deputados que, pelo voto secreto, salvaram os mandatos da quase totalidade dos mensaleiros o fizeram por livre e espontânea vontade. Idem no caso dos membros da Comissão de Ética da Câmara que se recusaram a abrir processos por quebra de decoro parlamentar contra colegas reeleitos, acusados de vampirismo na legislatura anterior.

É o sistema da cumplicidade, que a mídia – isso sim – expõe a cada escândalo.

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