Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A era da notícia em estado bruto

Por Carlos Castilho em 07/01/2007 | comentários


A divulgação viral das imagens do enforcamento de Saddam Hussein deu dimensões planetarias ao fenômeno da notícia transmitida em estado bruto, sem nenhuma edição, contextualização ou avaliação por parte de jornalistas.


As grandes redes de televisão do mundo decidiram não mostrar as cenas chocantes dos últimos minutos de Saddam já no patíbulo, mas isto serviu mais para marcar uma posição ética das emissoras do que para condicionar a formação de percepções do público. Quem procurou pode ver as imagens da agonia do ex-homem forte do Iraque no site You Tube, sem nenhum tipo de tratamento jornalístico ou editorial.


A diminuição do papel intermediador do jornalismo na divulgação das notícias é um fenômeno cada vez mais intenso na medida em que se multiplicam as ferramentas para captação e distribuição de informações como câmeras em telefones celulares, gravadores de MP3, torpedos via celular e weblogs.


O fenômeno provoca dois tipos de reflexão: uma é sobre o papel dos jornalistas nesta nova era onde eles se tornam cada vez mais impotentes para moldar a apresentação dos fatos que serão levados ao conhecimento do público; e a segunda é a forma como as pessoas vão lidar com esta informação em estado bruto, capaz de induzir a grandes equívocos, alguns potencialmente irremediáveis.


Ao perder o papel de intermediário entre o fato e o público, o jornalista começa a ter que rever o seu papel no processo da informação. Ele já não pode mais sanitizar a informação como era comum na imprensa porque o público pode ver a realidade nua a crua através da internet. A consequência é a perda de credibilidade em jornais, revistas, emissoras de TV e rádio.


O fenômeno da notícia em estado bruto não vai acabar com o jornalismo mas certamente acelerará o processo de revisão do papel dos editores, repórteres, produtores, fotógrafos, cinegrafistas e comentaristas. Não será um processo fácil e nem rápido, e nem poderá ser feito à portas fechadas.


Por seu lado, o público pode agora ir direto aos fatos, sem a intermediação dos jornalistas, mas perde os referenciais de credibilidade. O acesso a notícia em estado bruto facilita o voyeurismo e a morbidez, como provam a disseminação exaustiva, via internet, das imagens dos corpos de passageiros do avião da Gol que se chocou com o Legacy.


A grande maioria das pessoas atraídas pela curiosidade mórbida não se deu conta de que muitas das fotografias veiculadas pela internet eram de outros desastres aéreos. Obviamente quem viu não tinha condições de julgar se eram falsas ou não e acabou acreditando, na falta de uma referência de credibilidade, que antes era dada pela imprensa convencional.


A multiplicação de notícias em estado bruto veiculadas através da internet vai gerar uma grande confusão no público consumidor de informações, que num primeiro momento pode descrer em tudo o que sair na rede, tanto quanto desconfia da imprensa.


Em determinados segmentos do público está situação já é real, especialmente no setor com maior acesso aos meios de comunicação e maior intimidade com as novas tecnologias de informação. A solução está sendo o desenvolvimento de comunidades de informação, onde as pessoas se consultam umas às outras para obter uma minima confiança no que estão lendo, vendo ou ouvindo.

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