Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A estatística não mente: quanto maior a fama, maiores são os erros dos especialistas

Por Alceu Nader em 07/02/2006 | comentários

Deve ter sido um trabalho insano, que requereu paciência chinesa, mas o sacrifício valeu a pena. Seu resumo está na edição da revista norte-americana Fortune, edição de 14 de fevereiro, p 24, na página que fala do livro Expert Political Judgment: How Good Is It? How Can We Know?, que pode ser livremente traduzido para Julgamento Político do Especialista. Ele É Bom Mesmo? Como Nós Podemos Saber?.
O artigo da revista apresenta a obra do professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Philip E. Tetlock, que colheu vaticínios dos chamados especialistas publicados na imprensa, e deu-se ao trabalho, posteriormente, de conferir se as projeções corresponderam aos fatos. No total, foram esquadrinhadas 82.361 opiniões que continham números ou quantias, que, passado o tempo hábil, foram comparadas com as estatísticas reais. A conclusão do estudo do professor Tetlock é fantasmagórica: os especialistas, na realidade, não existem.

Em resumo, o estudo revela que os especialistas são tão aptos para prever o futuro quanto os leigos na matéria. ‘Isso não quer dizer que os especialistas não sejam diferentes de você e eu’, escreve o jornalista da Fortune, Geoffrey Colvin. ‘Eles são diferentes. Eles são, por exemplo, muito mais confiáveis do que os que não são especialistas, embora não haja alguma razão de ser’.

Mas se eles são absolutamente normais e com a mesma capacidade de antever o futuro dos seres humanos normais, por que eles existem?, pergunta a Fortune. A revista responde que essa crença deve-se à própria natureza humana. ‘Nós precisamos acreditar desesperadamente que o mundo não se resume a um grande jogo de dados, que todo fato tem sua razão de ser e que, portanto, pessoas mais esclarecidas podem apontar o que irá acontecer’.

A segunda resposta à pergunta, continua a Fortune, afeta principalmente os meios de comunicação. ‘A desgraça que cai sobre os experts analisados por Tetlock é mais ou menos a mesma, sejam eles doutores ou bacharéis, não importando se têm pouca ou muita experiência ou acesso a informações privilegiadas. Há apenas uma visível diferença entre eles – a fama. Quanto mais eles são conhecidos, mais furadas são as suas previsões. E, naturalmente’, reconhece o autor do artigo, ‘somos nós da TV, rádio, jornais, revistas e da internet que lhes concedemos a fama’.

Transportando o estudo do professor Philip Tetlock para a realidade brasileira, o fantasma é ainda mais assustador. Na falta de notícias, como ocorreu nos primeiros dias deste ano, a mídia recorre às previsões de videntes de todos os tipos, com estranha predileção pelos do mercado financeiro – os mesmos que, com freqüência e desinteressadamente, anunciam suas expectativas sobre os juros a cada véspera de reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária.

O que se encontra nos jornais e revistas brasileiros em nada se compara com o cuidado com que jornais mundialmente respeitáveis, como o The Wall Street Journal, têm com a divulgação de previsões econômicas de ‘especialistas’. Nosso desvio de conduta é ainda mais devastador, na medida em que basta a reunião de meia-dúzia de opiniões – todas, naturalmente, desinteressadas – para que se transforme em ‘tendência’.

O citado The Wall Street Journal é muito mais escrupuloso. Primeiro, por qualificar os entrevistados pelo que realmente eles são – e não especialistas, analistas, consultores ou qualquer outra palavra que esconda a profissão e postos reais dos senhores da opinião. Outra notável diferença é que o Wall Street informa, logo nas primeiras linhas da reportagem, quantas pessoas foram entrevistadas para sustentar ou não a ‘tendência’ por eles indicada.

No Brasil, não é bem assim. Os erros constantes dos nossos analistas – que nem por isso deixam de ser ouvidos – são motivo de piada, como a contada por Bussunda, do Casseta & Planeta, em homenagem ao seu irmão, Sérgio Besserman, ex-diretor do IBGE.

A anedota começa com uma pergunta de fundo capilar:

‘Sabe por que a maioria dos economistas brasileiros famosos é careca ou tem pouco cabelo?’

‘De tanto passar a mão na cabeça, dizendo: Caramba, errei de novo!´

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/02/2006 Sérgio Piccinato

    Prezado Alceu Nader,
    Curiosa pesquisa,não? Ainda bem que existe
    gente que se preocupa com os mais espantosos
    temas e nos ensinam/mostram novas maneiras de
    ver o Mundo.Ao contrário da maioria,acredito
    ser possível uma certa precisão num julgamento futuro,sendo especialista ou não.
    Basta o entendimento e o respeito pela História,sem maniqueismo e preconceito,que
    todas as respostas podem ser encontradas hoje.Einstein já dizia,’Deus não joga dados’.
    Belo tema.Cordialmente,Ségio.

  2. Comentou em 09/02/2006 sergio glicerio de almeida

    Tenho dificuldades em redigir textos, pois parei de estudar a vinte e seis anos. Gostaria de exprimir minha opinião sobre os ‘ especialistas ‘. Estou morando em copacabana e ontem à noite presenciei uma cena que não é rara, mas fiquei muito chocado. Um grupo de meninos ‘de rua’ entre dez e catorze anos cheirando thiner – agora não é mais cola – é mais volátil mas tem o mesmo efeito. Comentei com algumas pessoas, uns disseram: deixa só assim eles apagam mais rápido. Outros disseram eles não tem culpa, o culpado é o LULA. Então os especialistas dizem: eles não são culpados, culpado é o sistema. Em resumo até quando os meninos ‘de rua’ serão inocentes, até quando vão só passar a mão na cabeça deles, e dizer ‘vocês não tem culpa de nada’ , será que até eles completarem dezessete anos, onze meses e vinte nove dias ? Vamos dizer o quê para eles ? vocês agora atingiram a maioridade, agora não é mais com a vara da infancia e juventude, agora e com o juiz e um bom advogado. Queria que algum ‘especialista’ me explicasse como fica a cabeça de um jovem, que cometeu infrações a vida toda até completar a maioridade e da noite para o dia tudo muda. Quanto à pesquisa do professor Philip E. Tetlock, há algum tempo não ouvia algo tão autêntico e sábio. Eu tenho só o segundo grau completo e tento acompanhar as noticias principalmente pelo Observátorio .

  3. Comentou em 08/02/2006 Jose de Almeida Bispo

    Sobre o trabalho do Sr.Philip E. Tetlock, nunca concordei com o caráter de divino dado a certos indivíduos bem posicionados pela mídia. Concordo, portanto e aplaudo seu trabalho. Mas o que mais me preocupa é o perigo clerical. De repente me vejo envolto num mundo onde supostamente a ideologia política morreu para dar lugar à sempre ensandecida ideologia do fanatismo religioso. E não me atenho apenas a muçulmanos irados a berrarem palavras de ordem nas urbes do Oriente Médio. A minha preocupação reside no fato de que a polarização religiosa tende a se fortalecer e criar o caldo apropriado para que também concedamos – já estamos fazendo isso – mais e mais poderes aos clérigos ocidentais que poderiam fazer renascer um novo Santo Oficio. Alguém duvida? Basta lembrar o que era a efervescência intelectual e humanista da Alemanha pré-Grande Guerra e observar seu eclipse no entre guerras.
    No momento o clima tá como o diabo gosta: praticamente toda a intelectualidade dedicada à política do sucesso pessoal pelo acúmulo de bens; socialismo na sarjeta; sindicalismo acabando e toda a sorte de coletivismo ladeira abaixo. Do outro lado o messianismo dos movimentos pentecostais; a intolerância muçulmana… e uma Ordem católica conservadoríssima – Opus Dei – que já entronizou 2 papas e promete ‘por ordem na casa’. Aguardemos, pois, as ‘fogueiras purificadoras’.

  4. Comentou em 08/02/2006 Bruno Silveira

    “A prevista (revista?) responde que essa crença deve-se à própria natureza humana. ‘Nós precisamos acreditar desesperadamente que o mundo não se resume a um grande jogo de dados, que todo fato tem sua razão de ser e que, portanto, pessoas mais esclarecidas podem apontar o que irá acontecer”.”. Muito interessante. E o pedaço aí acima indica, apesar do assunto não ter nada a ver, porque a religião sempre terá espaço. Sempre. O raciocínio é o mesmo.

  5. Comentou em 08/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    A imprensa tem pressa de produzir reportágens bombásticas e fia-se nos supostos especialistas para dar autoridade às bobagens que escreve. Isto só não me preocupa porque acredito que os leitores em geral dão menos atenção às bobagens que os jornais publicam do que os jornalistas. A metalinguagem é uma prisão jornalistica por excelência. Felizmente.

  6. Comentou em 08/02/2006 José Carlos dos Santos

    Lá como cá, há uma mania de endeusar o Doutor, como se ele fosse depositário de todas as respostas, e isso se faz sem utilizar o mínimo bom-senso

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