Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A futilidade do mal

Por Luiz Weis em 05/01/2009 | comentários

Revelou-se um tiro na água o esforço israelense de controlar a informação sobre a ofensiva na Faixa de Gaza. Nem o uso intensivo da blogosfera e das novas mídias – comparadas a um “campo de batalha” por um porta-voz do exército de Israel – para justificar a guerra ao Hamas parecem ter dado ao país o apoio da opinião pública internacional, nem o bloqueio do acesso da imprensa ao território atacado a impediu de relatar a destruição e o sofrimento infligidos ao seu 1,5 milhão de habitantes.


Para o leitor brasileiro, isso há de ter ficado claro a partir de duas substanciosas matérias da Folha sobre a guerra e a comunicação (“Israel veta jornalistas e propaga sua versão sobre ação em Gaza”, no sábado, 3, e “Veto israelense motivo apelos de jornalistas à criatividade”, na segunda-feira, 5).


A primeira, produzida na redação com despachos de agências e textos de jornais estrangeiros, dá uma idéia do aparato montado por Israel para ocupar os espaços na internet, entre outros materiais, com vídeos sobre os ataques dos mísseis do Hamas a cidades do sul do país, violando o cessar-fogo em vigor desde junho – o motivo declarado para a ofensiva desencadeada em 27 de dezembro.


Israel criou um Diretório Nacional de Informações que se transformou numa “plataforma de cooperação de todas as entidades que lidam com relações públicas”, nas palavras do seu chefe ao diário britânico Guardian.


Essas agências alimentam o YouTube com cenas não só de alvos israelenses do Hamas, mas também de ações, presumivelmente escolhidas sob medida, em Gaza.


A propaganda parece ter esquecido, no entanto, de que a imprensa em Israel é livre. O jornal Haaretz, considerado o melhor do país, tirou o gás das imagens difundidas pelo governo de um caminhão atingido pela aviação israelense, que estaria transportando foguetes do Hamas. Eram tanques de oxigênio usados numa fundição.


No domingo, Israel levou jornalistas estrangeiros a “um tour pelas áreas atingidas” na cidade de Sderot, conta o enviado especial do Estado Gustavo Chacra. “Mas quem circula de forma independente tem dificuldades para ver sinais de destruição causada pelo Hamas”, escreveu. “Sderot parece estar intacta”.


O importante, de qualquer modo, é que a propaganda já não afeta as cristalizadas percepções sobre o conflito israelense-palestino. Salvo entre os americanos, inabalavelmente alinhados com Israel, a devastação e as mortes em Gaza só deram mais argumentos aos críticos do país que de há muito já não consegue que o vejam como vítima do fanatismo e do terror islâmico.


O Haaretz noticiou outro dia que o Exército israelense destacou oficiais fluentes em árabe para dar entrevistas à Al-Jazeera e outras emissoras da região. Não será por isso que a chamada “rua árabe” se mostrará receptiva à versão do inimigo. Já os governos árabes não precisam disso para desejar o pior para o Hamas – cujo único aliado no mundo muçulmano é o Irã – enquanto, com a costumeira hipocrisia, condenam em termos duros o novo ultraje israelense.


A segunda das mencionadas matérias da Folha, esta do enviado especial Marcelo Ninio, descreve a exasperação dos jornalistas “espremidos em uma pequena colina”, do outro lado da Faixa de Gaza, à espera da autorização de Israel para entrar no território invadido. “É absurdo”, protesta o veterano Ben Wederman, da CNN. “Não dá para acreditar no argumento israelense de que a proibição é por motivos de segurança. Me parece óbvio que o objetivo é limitar a cobertura.”


Parece óbvio também que a restrição é inócua. Não só porque ela não atinge a Al-Jazeera, que tinha já uma equipe em Gaza, mas principalmente porque a censura não pega no celular – e todo repórter que se preza tem alguém no território que lhe conte a quantas anda a tragédia.


Sem falar que os movimentos pacifistas israelenses e as organizações estrangeiras de direitos humanos têm eles próprios os seus contatos entre a população palestina sitiada e repassam os fatos que lhes são narrados. (Se divulgam exageros, quem sabe no número de civis mortos, especialmente crianças, Israel só tem a culpar a si mesmo pela propaganda adversa.)


Se é que a expressão tem lugar em mais esse quadro de horrores, a boa notícia vinda de Gaza é a de que, graças à tecnologia da informação, a mordaça está perdendo outra batalha.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/01/2009 Wendel Anastácio Anastácio

    Shalon;
    Uma pergunta, se possível!
    Será que a limpeza étnica do povo palestino, ora iniciada e/ou a ser concluída por Israel, não representa o medo da ‘bomba demográfica’ daquele povo?

  2. Comentou em 08/01/2009 Wendel Anastácio

    Olá amigos, transcrevo para reflexão;
    Sangue em nossas mãos

    As pessoas que jogam nossas bombas não ficam manchadas com sangue. Nosso sistema é simples: não há necessidade de evidência para um julgamento. Uma vez decidamos que alguém é alvo, jogamos uma bomba e ele se foi. Recentemente, o exército adquiriu permissão para matar civis que estejam próximos de um alvo. Isso foi publicado na imprensa, junto à foto de uma sorridente comandante do exército. O artigo é de Shulamit Aloni, ex-ministra da Educação de Israel.

    Shulamit Aloni*

    Os homens do Hamas e seus líderes pertencem ao lado do mal, e seu ódio por nós faz com que eles afastem para longe as inibições racionais de uma liderança consternada com o bem-estar de seus cidadãos. De fato, a conduta do Hamas desde o seu surgimento e de sua eleição vitoriosa subsequente não merece qualquer elogio. Contudo, os residentes da Faixa de Gaza cativos da liderança do Hamas – mulheres, idosos, crianças, estudantes, professores, hospitais, médicos e pacientes – não têm de ser punidos com destruição, morte e privações por causa dos atos desprezíveis de seus líderes.

    É questionável se o método de punição adotado pelo Estado de Israel já há alguns anos, alvejando áreas populosas, jogando bombas de uma tonelada em bairros civis, e usando bombas de fragmentação tem algum efeito ou sabedoria.
    Vide o restante em Carta Capital.

  3. Comentou em 08/01/2009 Célio Adriano Satler

    O comentário do Sr. Kaestner nos mostra o quanto somos cegos em relação às tantas carnificinas estabelecidas pelo (sem querer parecer piegas) establishment. Que os menos favorecidos brasileiros não possuem o mínimo de assistência de órgãos públicos e muito menos da mídia, isso já sabemos, notoriamente. Todavia, comparar as incursões sangrentas do sionismo com acidentes de trânsito é demasiadamente superficial, cara-pálida.

  4. Comentou em 07/01/2009 Wendel Anastácio

    Será que vale a pena comentar esta carnificina?
    Com a palavra os governos e a mídia subservientes!
    O verdadeiro e justo povo judeu, e principalmente por serem o povo escolhido, deveria se livrar de seus governantes sionistas/nazistas que tanto mal causam a grande nação que Oswaldo Aranha, tão corajosamente ajudou a criar.

  5. Comentou em 07/01/2009 marina chaves

    a explicaçao de israel para atacar uma escola da ONU em gaza com refugiados foi melhor do que a minha: da escola sairam tiros, ou escopetas, ou algo assim… e israel atacou….. nao sei se é pra rir ou pra chorar…. nao dá para acreditar nisso…

  6. Comentou em 07/01/2009 Victor Barone

    Estou me informando pelos blogs de Gaza.

  7. Comentou em 07/01/2009 Angelo Frizzo

    Não dá para acreditar que tem gente que acredita que sómente 600 ou 700 Palestinos foram mortos até agora.
    Há um ditado antigo sobre isso; Na guerra a primeira coisa ser eliminada é a VERDADE.
    Cada míssil que é lançado em um campo de concentração de 300 km2. com 1,5 milhão de pessoas, mata centenas delas.
    Com as armas que os americanos(SIM) estão usando, dezenas de milhares de seres humanos já foram assassinados.
    O terrorismo de Estado contra um povo desarmado é um VERDADEIRO MASSACRE.
    Vamos rezar para que os assassinos parem.

  8. Comentou em 07/01/2009 Maíra Soares

    Um verdadeiro massacre promovido pelo governo israelense. Só espero que o corte de energia
    na Faixa de Gaza, outra estratégia vergonhosa de isolar e eliminar o povo palestino, não impeça
    que essa comunicação por celular e outras alternativas tecnológicas nos mantenha a par do que
    acontece na região.

  9. Comentou em 06/01/2009 Lamarca Carlos

    Como este sítio é um observatório da imprensa que tal uma opinião sobre a recente vinda do Ministro das Comunicações de Israel para dar ‘aulas’ para jornalistas brasileiros ‘escolhidos a dedo’.
    Como prêmio aos bons alunos levou 60 destes jornalistas para um ´fun tour´ nas margens do rio Jordão. Ocasião em que o premiadíssimo jornalista Héródoto Barbero mandou para o éter sua famosa reportagem sobre as vaquinhas judias (o bicho).
    Mas pera aí!!!!
    Não foi o professor Heródoto que esvreveu um polpudo livro sobre ética no jornalismo.
    Êpa!!!! Têm mais, o patrocinador da viagem não foi o açougueiro de Sabra e Shatilla, o temível Ariel Sharon!!????
    E aí como ficamos, Srs. jornalistas????

  10. Comentou em 06/01/2009 marina chaves

    como lideranças politicas sao esquisitas…. acham que podem bloquear o trabalho da midia com a força dos tanques de guerra…. israel bombardeia uma escola da ONU em gaza cheia de refugiados e diz que foram tuneis , ou sei lá…

  11. Comentou em 06/01/2009 Guilherme Cruz

    Nem parece que os judeus sofreram o que sofreram diante dos nazistas. Esqueceram muito rápido o que é sofrer, sentir na pele. Como não são cristãos ignoram a máxima de Jesus: ‘Não faça aos outros aquilo que não quer para si’. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Quem viver, verá!

  12. Comentou em 06/01/2009 Carlos N Mendes

    O drama israelense-palestino pode sim ensinar os brasileiros : como existe imprensa e imprensa, como muitas vezes apoiamos atos criminosos apenas porque quem os cometeu tem laços conosco (EUA e Israel), como julgamos o todo por pedaço de história mal contada (Hamas atacando Israel ? Quantos de nós sabemos o que os sionistas e Israel fizeram aos palestinos entre 1920 e 1970 ?), como podemos passar de vítimas a criminosos (judeus que escaparam do Holocausto achando ótimo o Holocausto palestino), enfim, é drama humano e como tal podemos aprender muito com ele. O Lotar tem razão em achar que vemos a Lua mas não olhamos o próprio umbigo, mas há necessidade de mudar o foco do conflito do Oriente Médio, esse assunto de forma nenhuma deve ser posto de lado. E cá entre nós, não existe NENHUMA solução fácil para aquele embróglio.

  13. Comentou em 06/01/2009 Flávia Fridman

    O que Lotar quis dizer, Larry, é que nós estamos demasiadamente preocupados com Gaza, lá do outro lado do mundo, mas nem sequer discutimos os nossos próprios problemas…e a crise humanitária brasileira na Região Nordeste? E na África, que atingem um número muito maior que na Faixa de Gaza?

  14. Comentou em 06/01/2009 Edgar da Silva Pontes

    Prezado Weiss, acho que está na hora do Ocidente parar de expiar a culpa pelo holocausto. A única política que Israel conhece é a guerra. Acredito que lá existam pacifistas. Mas o governo é dominado por extreminstas que nada diferem dos nazistas. Enquanto houver o tabu do anti-semitismo, a crise do Oriente Médio nunca será tratada como se deve. Por que os judeus ricos que dominam a indústria cinematográfica e outras´áreas não moram em Israel? Por que ficam nos Estados Unidos, comandando a guerra à distância? Vamos parar de hipocrisia.Aliás, o filme Munique de Spielberg mostra bem como é a política de Israel.

  15. Comentou em 06/01/2009 Alexandre Carlos Aguiar

    A respeito do que foi levantado aí abaixo, toda a vida deve ser preservada, seja ela brasileira, israelense, palestina, marciana ou vulcaniana. Discutir número de tragédias e atestando qual tem mais valor é, no mínimo, imbecilidade (patologicamente falando). Quanto ao tema em si, tudo aquilo que é tratado com subterfúgios, evasivas, que é escondido e manuseado com mistérios tem mal cheiro. Se o governo de Israel quisesse mesmo fazer uma guerra para ‘livrar o mundo do Hamas’, que o fizesse às claras, com a permissão da ONU, mostrado na imprensa e deixando os organimso internacionais acompanharem. Fazendo-se de vítima, alegando que passaram anos ‘apanhando’ dos terroristas e justificando sua invasão assassina, conquistaram o repúdio do mundo. Que os judeus retirem estes homens do governo, eles nãos os representam.

  16. Comentou em 06/01/2009 dante caleffi

    Lotar, não é o assistente do Mandrake?
    Provavelmente,vai precisar ,mais do que mágica literário-jornalística,para estabelecer conexão,entre o tradicional massacre na ‘terra santa’ou terras bíblicas, e as estatísticas da violência urbana , que assola as grandes metrópoles,incluindo a mãe gentil.
    ‘Sem olhos em Gaza’,pode ser, cem olhos em Gaza…

  17. Comentou em 06/01/2009 larry wilcox

    lotar, uma coisa são acidentes. outra bem diferente é o assassinato promovido por um Estado. fazer comparações corretas ajuda bastante

  18. Comentou em 06/01/2009 Lotar Kaestner

    O mundo olha estarrecido os cerca de 500 a 600 palestinos mortos no conflito. O mesmo tanto, ou o dobro, morreu nas estradas no Brasil neste feriadão em acidentes. E quantos morreram vítimas de assaltos e tiroteios nas favelas do Rio? O pior é que são muito mais….talvez 2.000 mortos…mas por quê no Brasil as vítimas não têm o mesmo valor que no Oriente Médio?
    Por exemplo, um israelense morto tem mais valor do que 1.000 brasileiros? Então, por quê não se debate estes tantos mortos aqui no Brasil também? Penso que seja porque o cidadão brasileiro não tem valor algum….Será que dá para pensar diferente? E se tem medo de abordar este assunto, porque no Brasil as pessoas tem um respeito divino, sobrenatural, uma submissão incrível diante das autoridades displicentes e indiferentes…mesmo que elas sejam pagas com o dinheiro do contribuinte….são funcionários do povo apenas…

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