Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A futilidade do mal

Por Luiz Weis em 05/01/2009 | comentários

Revelou-se um tiro na água o esforço israelense de controlar a informação sobre a ofensiva na Faixa de Gaza. Nem o uso intensivo da blogosfera e das novas mídias – comparadas a um “campo de batalha” por um porta-voz do exército de Israel – para justificar a guerra ao Hamas parecem ter dado ao país o apoio da opinião pública internacional, nem o bloqueio do acesso da imprensa ao território atacado a impediu de relatar a destruição e o sofrimento infligidos ao seu 1,5 milhão de habitantes.


Para o leitor brasileiro, isso há de ter ficado claro a partir de duas substanciosas matérias da Folha sobre a guerra e a comunicação (“Israel veta jornalistas e propaga sua versão sobre ação em Gaza”, no sábado, 3, e “Veto israelense motivo apelos de jornalistas à criatividade”, na segunda-feira, 5).


A primeira, produzida na redação com despachos de agências e textos de jornais estrangeiros, dá uma idéia do aparato montado por Israel para ocupar os espaços na internet, entre outros materiais, com vídeos sobre os ataques dos mísseis do Hamas a cidades do sul do país, violando o cessar-fogo em vigor desde junho – o motivo declarado para a ofensiva desencadeada em 27 de dezembro.


Israel criou um Diretório Nacional de Informações que se transformou numa “plataforma de cooperação de todas as entidades que lidam com relações públicas”, nas palavras do seu chefe ao diário britânico Guardian.


Essas agências alimentam o YouTube com cenas não só de alvos israelenses do Hamas, mas também de ações, presumivelmente escolhidas sob medida, em Gaza.


A propaganda parece ter esquecido, no entanto, de que a imprensa em Israel é livre. O jornal Haaretz, considerado o melhor do país, tirou o gás das imagens difundidas pelo governo de um caminhão atingido pela aviação israelense, que estaria transportando foguetes do Hamas. Eram tanques de oxigênio usados numa fundição.


No domingo, Israel levou jornalistas estrangeiros a “um tour pelas áreas atingidas” na cidade de Sderot, conta o enviado especial do Estado Gustavo Chacra. “Mas quem circula de forma independente tem dificuldades para ver sinais de destruição causada pelo Hamas”, escreveu. “Sderot parece estar intacta”.


O importante, de qualquer modo, é que a propaganda já não afeta as cristalizadas percepções sobre o conflito israelense-palestino. Salvo entre os americanos, inabalavelmente alinhados com Israel, a devastação e as mortes em Gaza só deram mais argumentos aos críticos do país que de há muito já não consegue que o vejam como vítima do fanatismo e do terror islâmico.


O Haaretz noticiou outro dia que o Exército israelense destacou oficiais fluentes em árabe para dar entrevistas à Al-Jazeera e outras emissoras da região. Não será por isso que a chamada “rua árabe” se mostrará receptiva à versão do inimigo. Já os governos árabes não precisam disso para desejar o pior para o Hamas – cujo único aliado no mundo muçulmano é o Irã – enquanto, com a costumeira hipocrisia, condenam em termos duros o novo ultraje israelense.


A segunda das mencionadas matérias da Folha, esta do enviado especial Marcelo Ninio, descreve a exasperação dos jornalistas “espremidos em uma pequena colina”, do outro lado da Faixa de Gaza, à espera da autorização de Israel para entrar no território invadido. “É absurdo”, protesta o veterano Ben Wederman, da CNN. “Não dá para acreditar no argumento israelense de que a proibição é por motivos de segurança. Me parece óbvio que o objetivo é limitar a cobertura.”


Parece óbvio também que a restrição é inócua. Não só porque ela não atinge a Al-Jazeera, que tinha já uma equipe em Gaza, mas principalmente porque a censura não pega no celular – e todo repórter que se preza tem alguém no território que lhe conte a quantas anda a tragédia.


Sem falar que os movimentos pacifistas israelenses e as organizações estrangeiras de direitos humanos têm eles próprios os seus contatos entre a população palestina sitiada e repassam os fatos que lhes são narrados. (Se divulgam exageros, quem sabe no número de civis mortos, especialmente crianças, Israel só tem a culpar a si mesmo pela propaganda adversa.)


Se é que a expressão tem lugar em mais esse quadro de horrores, a boa notícia vinda de Gaza é a de que, graças à tecnologia da informação, a mordaça está perdendo outra batalha.

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