Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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A Google quer salvar os jornais. Cuidado….

Por Carlos Castilho em 16/09/2009 | comentários

A mais valorizada empresa da internet, a Google, anunciou que está desenvolvendo em seus laboratórios um projeto de cobrança de conteúdos informativos publicados na rede. A informação pode se transformar em colírio nos olhos da traumatizada indústria de jornais, no mundo inteiro.


 


A dona do mais usado mecanismo de buscas da Web  acha que o sistema estará pronto até janeiro e permitirá que os jornais possam cobrar por artigos ou pelo acesso à sua página online de notícias.  Isto é música aos ouvidos dos donos de jornais que procuram desesperadamente uma fórmula salvadora para obter faturamento com a venda de noticias na internet.


 


A Google está fazendo uma adaptação do seu software CheckOut por meio do qual o usuário abre uma conta no sistema e a utiliza para compras, pagando com seu cartão de crédito. Na verdade é uma centralização de contas online, num único lugar.


 


A iniciativa da Google foi comunicada à Newspaper Association of America (NAA), a versão americana da nossa ANJ (Associação Nacional de Jornais) num documento de resposta a outro onde os donos de jornais dos Estados Unidos acusavam o mecanismo de buscas de apropriação indevida de informações publicadas na imprensa.


 


A resposta da Google tanto pode ser uma jogada política, na medida em que procura neutralizar as críticas de violação de direitos autorais para publicação de noticias no site Google News, como pode ser uma manobra mais ampla, cujo objetivo estratégico seria colocar um pé dentro da outrora lucrativa indústria de produção de notícias.


 


Os jornais estão numa situação delicada nesta queda de braço com a Google. Se por um lado não escondem a sua irritação com o fato de ela capturar informações publicadas na imprensa para inserí-las em seu jornal automático Google News, sem pagar nada à fonte, por outro, quase a metade dos acessos às páginas dos jornais na Web é feito por meio do sistema de buscas.


 


Há uma dependência mútua, o que complica a situação e evita que os jornais adotem posições mais radicais como a da agência de notícias Associated Press, que partiu para uma batalha política e jurídica visando cobrar da Google as notícias publicadas no Google News.


 


Mas a médio e longo prazos, os jornais não devem ter muitas ilusões com a estratégia da empresa criada há uma década por dois estudantes da  Universidade Stanford e que hoje é vista por muitos como o grande Big Brother da era digital.


 


A Google está avançando seus peões em todas as áreas do conhecimento. Há pouco falei aqui na ofensiva pelo controle do mercado mundial de livros digitalizados.  A Google está também desbancando a outrora toda poderosa Microsoft e não há a menor dúvida de que está de olho na indústria dos jornais, seguindo a máxima corporativa de procurar “organizar a informação existente no mundo e torná-la universalmente útil e disponível”.


 


Não é uma frase de efeito. Ela está na página, em inglês, de apresentação da empresa na internet. A Google já é hoje um complexo de 150 domínios na Web, e cada um deles pode ser considerado uma subsidiária em termos corporativos.  É a empresa que mais cresce no mundo digital e seu valor de mercado já superou a General Electric, um ícone da economia industrial, em matéria de capitalização na bolsa de Nova Iorque.


 


Se os jornais aceitarem o esquema da Google, eles estarão repetindo a velha história da raposa cuidando do galinheiro. Ou seja, seu faturamento ficará nas mãos de um concorrente conhecido por seu ímpeto predatório, já que a Google compra tudo o que pode dar lucro no futuro (ver caso YouTube e os projetos de energia solar). Mas se resistirem à oferta, terão provavelmente que enfrentar uma longa batalha que pode exaurir suas forças antes de um desfecho amigável.


 

Por isto a indústria dos jornais investe na área política, procurando explorar mais uma vez seus laços com a elite partidária e governamental, bem como apelando para a solidariedade do setor corporativo. É uma estratégia suicida porque mina a credibilidade da imprensa. O que os empresários da indústria de jornais teimam em não ver é que sua salvação não está em decretos ou leis, mas nos leitores.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/09/2009 Leonidas Souza

    Que as empresas de comunicações vão tentar cobrar pelas notícias na Internet, já não resta a menor dúvida.
    O problema é quem colocará o guizo no pescoço do gato.
    Será que a primeira não vai quebrar antes de começar a ter retorno?
    A debandada deverá ser geral, a não ser que entrem em bloco, o que deverá ser o mais provável.
    Desafiar a Internet geralmente não dá bons resultados e o tiro poderá sair pela culatra.
    A Mídia cada vez mais de afasta de seus leitores, mas as notícias tem mil formas de circular, pelo menos as mais importantes. Quem vai sentir falta da pirotecnia dominante.
    Um abraço!

  2. Comentou em 18/09/2009 Roberto Ribeiro

    Ah, tudo morre um dia, há coisas que morrem de repente, como a União Soviética, há coisas que morrem aos poucos, mas dignamente, como a televisão analógica, há coisas que não querem morrer e esperneiam. Assim como o monopólio do sal na Índia se desfez apesar do apoio do exército britânico, assim como o escravagismo se desfez, apesar do apoio da elite econômica nacional, assim como tudo o que não tem mais vida própria.

  3. Comentou em 17/09/2009 José de Souza Castro

    A indústria de jornais não vai poder contar com o presidente Obama nessa briga contra o Google, a julgar pelo modo como ele trata a empresa em seu livro ‘The Audacity of Hope’. No capítulo 5, sobre Oportunidade, ele gasta quase quatro páginas descrevendo sua visita à sede do Google, durante a viagem que fez à Califórnia para levantar fundos para sua campanha eleitoral, em meados de 2004, quando a principal empresa de Mountain View já gozava do status de ícone, ‘um símbolo não apenas do poder crescente da Internet mas da rápida transformação da economia global’. Obama diz que durante sua viagem de ida, fez uma revisão da história do Google, iniciada em 1998 por dois estudantes da Universidade de Stanford, Larry Page e Sergey Brin. Ambos o recepcionaram no quartel-geral da empresa, conversaram com o então senador Obama, que não hesita em escrever sobre seu deslumbramento ao falar do Google. Diz que foi apresentado a meia centena de novos empregados e que pelo menos metade do grupo parecia asiático e uma ampla percentagem dos brancos tinha nomes do Leste Europeu. ‘Tanto quanto eu poderia dizer, nenhum era negro ou latino’. E até onde posso dizer, negros e latinos terão pouco espaço nesse novo e admirável mundo ‘presidido’ hoje por Barack Obama, o mesmo que, na sede do Google, sentiu-se como a vislumbrar os estágios iniciais de algum processo evolucionário em rápida aceleração.

  4. Comentou em 17/09/2009 Luciano Prado

    Sou contra qualquer artifício que impeça a morte natural dos grandes jornais. Todos devem ter o direito de morrer com dignidade.

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