Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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A grande imprensa mundial começa a encontrar um novo modelo de negócios

Por Carlos Castilho em 29/07/2007 | comentários

Os grandes impérios jornalísticos da Europa e Estados Unidos começam a mostrar a cara do seu novo modelo de negócios, que marca uma mudança radical em relação ao vigente até agora.


 


O sintoma definitivo da mudança surgiu há pouco mais de 10 dias quando o Audit Bureau of Circulations (ABC – Burô de Auditoria de Circulação) anunciou a centralização das medições tanto do público da versão online como da versão impressa de jornais e revistas nos Estados Unidos.


 


A medida é uma vitória dos jornais no esforço para recuperar receitas publicitárias através da redistribuição de anúncios entre suas versões online e offline. Mas a decisão do ABC foi também uma resposta aos indícios cada vez mais fortes de que os grandes conglomerados da imprensa mundial estão conseguindo avançar na definição de um novo modelo de negócios, capaz de garantir a sua sobrevivência num ambiente informativo marcado pela presença crescente da internet. 


 


O processo, ainda em desenvolvimento, está obrigando as empresas a passar por momentos muito delicados. O The New York Times, por exemplo, apostou na convergência multimídia e depois teve que se desfazer de investimentos na área de televisão. A família Sulzberger, dona do jornal, também teve que abrir mão de parte do seu poder estatutário, por pressão dos acionistas.


 


Já o poderoso Wall Street Journal, da família Bancroft, apesar de um invejável banco de dados de informações financeiras, não conseguiu avançar na busca de um novo modelo de negócios e está a ponto de ser vendido para o conglomerado News Corporation, do arqui-milionário australiano Rupert Murdoch.


 


Há várias décadas os grandes jornais, revistas, redes de televisão e de rádio vêm investindo mais em equipamentos de impressão, de transmissão de imagens e sons, de distribuição de material impresso e em pontos de venda do que na produção jornalística. Segundo a American Journalism Review, as redações absorvem menos do que 40% do orçamento das empresas, desde os anos 1960.


 


O advento da internet provocou uma crise no modelo de negócios da imprensa convencional porque aumentou extraordinariamente a oferta de informações jornalísticas na rede, o que baixou o preço da notícia e conseqüentemente a receita dos jornais.


 


A crise do modelo convencional teve também outras causas como a queda da credibilidade, a fuga de leitores mais jovens e a resistência à mudança por parte de executivos e editores mais conservadores.


 


Os grandes conglomerados da mídia mundial estão desmobilizando ativos fixos voltados para a produção de notícias impressas e distribuição massiva de material informativo — como grandes impressoras, edifícios e sistemas de transporte — para investir na captura e gerenciamento social da informação.


 


Isto implica admitir uma participação crescente do público como provedor de material bruto porque as redes de correspondentes e de repórteres se tornaram muito caras. Os jornais e revistas, por seu lado, não têm muitas alternativas fora da concentração em produção de material qualificado e no desenvolvimento de sistemas, cada vez mais sofisticados e rápidos, de busca do material arquivado.


 


A adesão a este modelo confirma que os grandes títulos e marcas da imprensa mundial não desaparecerão, como previram alguns futurólogos mais apressados. O The New York Times deve continuar uma grande empresa, mas o seu forte não será mais a publicação de um jornal diário mas, sim, o seu sistema de produção de informações a partir de um arquivo digital de notícias, de analistas de informações capazes de antecipar tendências e identificar processos em curso, e de uma equipe de repórteres investigativos.


 


Isto significa uma maior qualificação dos jornalistas profissionais, tanto na área técnica (manuseio de equipamentos) como principalmente na sua capacidade de relacionamento com leitores e de análise do material indexado nos bancos de dados.


 


O retorno da imprensa à sua missão original de produzir notícias para o público obriga as redações a revisar condutas viciadas pela longa convivência com as exigências do mercado publicitário. Os conflitos culturais dentro das redações ainda continuam fortes e retardam a implantação do novo modelo de negócios.


 


Outra área muito sensível é a da publicidade, tradicionalmente, a grande responsável pela sobrevivência de toda a imprensa mundial. No novo modelo, a publicidade terá que ser repensada de forma radical, mas esta revisão de rotinas e valores ainda está muito atrasada.


 


A gerência e controle corporativo também devem passar por algumas mudanças traumáticas. Primeiro porque é inevitável uma enorme redução do número de empregados fixos, o que implica a perda de poder da burocracia corporativa. Segundo, porque as famílias, que controlam a maior parte dos grandes jornais mundiais terão que aprender a conviver com pressão dos acionistas por mais descentralização e mais transparência.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/08/2007 Ivan Moraes

    ‘Faleceu hoje, dia 30/07/2007, aos 77 anos de idade, o vespertino ‘Diário da Tarde’, deixando órfãos e demitidos cerca de 58 jornalistas’: nenhum dos quais jamais ouviu falar, ou sabe algo a respeito, ou tem qualquer coisa pra falar a respeito de possivel existencia -ou nao- de censura paga em Minas Gerais…

  2. Comentou em 31/07/2007 Ramon Gusmão

    Prezado Castilho,

    O seguinte parágrafo merece reflexão: ‘Isto significa uma maior qualificação dos jornalistas profissionais, tanto na área técnica (manuseio de equipamentos) como principalmente na sua capacidade de relacionamento com leitores e de análise do material indexado nos bancos de dados’. Para aqueles que pensam que o jornalismo colaborativo vai acabar com a profissão, não é nada disso. Nós teremos é que ser cada vez mais rigorosos na apuração, conhecer os processos de edição, ter os colaboradores como fontes, aliados, facilitadores de informações. Os que não acreditam nisso querem fazer crer que o jornalista é dispensável, ‘qualquer um pode fazer esse trabalho’. Não se pode cair nesse conto do vigário. É verdade que todos podem produzir e publicar nessa era da internet, mas credibilidade, história, capacidade crítica não se consegue na esquina e nem com a publicação de uma foto montada!!! Blogs são blogs; jornalismo é outra coisa.
    Parabéns por este post!!!

  3. Comentou em 30/07/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Novo modelo de negócio? Sei não. O negócio da mídia tem sido: a) vender produtos de qualidade e gosto duvidosos; b) empurrar goela abaixo dos leitores informações superficiais sobre assuntos relevantes e informações profundas sobre amenidades. Quando a mídia deixar de ser mídia… conversaremos. Antes disto, espero o momento de celebrar algumas falências (como a da Globo, por exemplo). Afinal, a cada década a Rede Globo está ficando mais parecida com as redes de TV da antiga URSS que também criavam uma auto-imagem esquemática e simplificada da realidade e alimentavam a superestima imotivada da população.

  4. Comentou em 30/07/2007 JOSE ORAIR Silva

    Faleceu hoje, dia 30/07/2007, aos 77 anos de idade, o vespertino ‘Diário da Tarde’, deixando órfãos e demitidos cerca de 58 jornalistas. O motivo seria esclerose múltipla da administraçao que nada conseguiu inovar desde os tempos do velho Assis Chateaubriand…

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