Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A grande riqueza de um jornal está fora das redações

Por Carlos Castilho em 01/09/2009 | comentários

Esta é uma idéia que está provocando muita polêmica entre os responsáveis por algumas das publicações mais respeitáveis na imprensa mundial, desde que o jornal The Washington Post resolveu apostar a sua sobrevivência, como empresa, na valorização dos leitores.


 


Enquanto a maioria dos jornais encara a questão dos comentários de leitores como uma dor de cabeça permanente, o Post decidiu transformar a participação do público no seu objetivo estratégico na guerra por audiência no disputadíssimo mercado de oferta de informações na internet.


 


O novo modelo de publicação de comentários de leitores na página Web do jornal é inédito na internet, custou vários milhares de dólares e cria um padrão novo em matéria de relacionamento entre jornalistas e o público.


 


As duas principais novidades são a visualização fácil da relevância relativa de cada comentário em função das referencias recebidas de outros comentarias; e a preocupação em incentivar o relacionamento entre leitores, mais do que entre estes e a redação.


 


Ao lado está o formato visual na página do Post. Os quadrados maiores são dos textos mais comentados e citados por leitores. Os quadros mais próximos do centro pertencem a temas mais lidos, mas não necessariamente os mais comentados.


 


A organização visual constitui um enorme avanço em relação ao sistema usual onde as participações de leitores são publicadas em ordem cronológica e sem uma segmentação por tema. Isto confunde e cria obstáculos para quem deseja saber quem está discutindo o quê e com quem, na área de comentários.


 


A horizontalização do debate entre os leitores rompe a tradição de que o autor do texto é o centro e a referência na troca de informações. Na verdade esta centralização já é ignorada pelos comentaristas quando o debate se intensifica. Aqui no Código e noutros blogs do Observatório isto já é comum.


 


Analisada em perspectiva, esta tendência mostra que os autores de textos ou responsáveis por blogs deixarão de ter o controle sobre seus espaços informativos para se transformarem em provocadores e mediadores. Eles alimentam a agenda publica de debates mas depois se tornam espectadores da discussão. 


 


Embora ainda seja cedo para dizer se o novo sistema do The Washington Post dará certo, não há muitas dúvidas sobre as vantagens que ele oferece e sobre o seu potencial para atrair novos leitores, o que inevitavelmente levará outros jornais a imitá-lo. Mas a opção estratégica do Post tem implicações ainda mais amplas.


 


Ela fortalece os indícios de que o jornalismo está começando a preocupar-se mais com o público comum do que com especialistas e personalidades do mundo político, diplomático e empresarial. Durante mais de cem anos, a grande imprensa mundial dedicou uma atenção quase exclusiva ao poder enquanto o leitor era visto como um mero consumidor passivo das informações que os especialistas e dirigentes acham relevante.


 


A relação com os leitores ganhou importância depois que a internet quebrou o monopólio da imprensa na produção e distribuição de notícias, criando uma forte concorrência entre os diversos provedores de informações.


 


Isto obrigou a imprensa a prestar mais atenção a um fenômeno que os estudiosos da comunicação vinham alertando há tempos: O fortalecimento da preocupação relacional no desenvolvimento do jornalismo depois de décadas de hegemonia absoluta da ideologia institucionalista na imprensa. Relacional e institucional são dois jargões acadêmicos para expressar duas preocupações diferentes: a relação com o publico e o culto da instituição


 

O institucionalismo ganhou importância a partir do século XIX com o sociólogo alemão Max Weber, que estudou a forma como as instituições (empresas, governo e associações) influenciam e até determinam o comportamento de funcionários e do próprio publico. No caso da imprensa, isto desembocou na teoria do quarto poder, que consolidou a tendência dos jornais a abandonar a função de prestador de serviços de interesse público para concentrar suas atenções no jogo do poder.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/09/2009 Rodrigo Rosa

    Uma grande mudança de mentalidade está em curso, e com certeza
    um novo papel do leitor estará no centro daquele que será o ambiente
    da informação. Aliás, a própria palavra leitor não cabe muito bem a
    era da Internet. Mais que conteúdo, os ‘leitores’ estão em busca de
    um espaço de interação, de discussão, de debate, querem participar
    deles de forma ativa, contribuindo efetivamente. A mídia não
    controla mais a opinião pública, não mais emissor-receptor. Qualquer
    tentativa de manipulação é rapidamente apontada em sites como OI
    e demais blogs.

  2. Comentou em 04/09/2009 Thogo Lemos

    A idéia realmente é boa e não se trata de mera concessão à sociedade, mas o espernear necessário à sobrevivência. Acreditar que tal fato resulte de boa vontade ou de preocupação com os apelos da cidadania não condiz com a postura demonstrada pelos representantes da mídia até este momento. A história dos diplomas mostrou isso. A ausência de investigação de suas entranhas, como se faz com os outros ‘poderes’, denuncia a mesma posição. Agora, resta-nos usar o novo espaço com responsabilidade e amadurecimento. Infelizmente, não é o que se tem visto em muitas discussões delirantes em que até problemas da culinária descambam para a guerra PT-PSDB. Mas, para aprender, só treinando.

  3. Comentou em 02/09/2009 Thales Rafael

    A idéia é boa. Acho que segue o rumo que a comunicação deveria tomar. Durante muito tempo, a academia limitou-se a observar a comunicação social através de dois prismas complementares e opostos: o leitor e o jornalista. Entretanto, como já assinalou Martin-Barbero, precisamos perceber que mediações estão sendo postas. É preciso olhar para o processo de comunicação como um todo, não só privilegiando este ou aquele lado da cadeia da informação. É lógico que esse tipo de estudo requer muito mais empenho, contudo, a prática recorrente na internet já nos desvela um universo empírico quase interminável para ser observado. Só que eu acredito ainda faltarem alguns passos nessa caminhada. É preciso quebrar o monopólio das notícias. Sabemos que a internet tenta fazer esse papel mas ainda é incipiente frente à grande capacidade que a grande corrente de jornalismo tem de agendar temas no debate e distorcer informações. Serei utópico agora, mas para poder dar a direção do que seria – a meu ver – uma mudança benéfica nos dogmas da comunicação social: acabar com a distinção entre leitor e jornalista. Não no sentido da atividade, mas a partir da percepção de que todos somos atores políticos e detentores de informação. Deveríamos privilegiar mais ainda a troca e a construção social do saber do qual a iniciativa do Washington Post é apenas um pontapé inicial.

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