Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A guerra fria em torno do aquecimento global

Por Carlos Castilho em 12/03/2010 | comentários

O que parecia inicialmente um bate boca entre eco-chatos e adeptos do progresso economico ganha agora cada vez mais ares de uma batalha onde os argumentos de alguma forma lembram os da falecida guerra fria.


 


Os que acreditam no aquecimento global propõem medidas coletivas visando o bem comum, enquanto os críticos alegam que isto vai contra a liberdade individual e passam a incluir o combate a iniciativas conservacionistas no rol dos inimigos públicos.


 


A colocação do tema aquecimento global na agenda contemporânea é uma vitória inegável dos ambientalistas que há anos vem batendo nesta tecla. Inicialmente a oposição era de caráter moral e econômico, mas agora tornou-se claramente política e cada vez mais ideológica.


 


É uma batalha para tentar fazer o que os anglo saxões chamam de framing the issues, ou seja  enquadrar os temas. Enquadrar significa aqui ver o tema a partir de um determinado ângulo ou ponto de vista. Em lugar de ver o todo, leva-se o público a ver uma parte do tema, aquela mais favorável a quem promove a ação.


 


Você pode ver a campanha contra o aquecimento global como um esforço para conservar a vida na terra ou como uma iniciativa de limitar a liberdade individual a partir de uma ação coletiva. E é claro, isto tudo está enfocado a partir de uma opção ideológica.


 


É uma disputa por corações e mentes, por simpatias e adesões, onde a imprensa ocupa um lugar chave porque ela ainda é uma dos principais ferramentas para framing the issues. O enquadramento é hoje o ponto crítico no jogo do poder mundial porque é nele que se define como as pessoas pensarão ou discutirão os temas da agenda pública.


 


Quando o trabalho é bem feito no campo do enfoque dos temas, a força bruta torna-se supérflua, o que nos tempos atuais é uma grande vantagem dada a crescente antipatia pelas soluções de força e pelo alto custo financeiros e humano das mesmas.


 


É por esta razão que comunicação e poder são hoje quase sinônimos e o público precisa ver esta equação em termos bem objetivos. O problema é que os grandes conglomerados da indústria da comunicação são parte interessada nesta guerra fria entre ambientalistas (no sentido mais genérico) e conservadores (idem).


 


A estratégia de alguns conglomerados é apropriar-se do tema aquecimento para depois tentar higienizá-lo de influencias coletivistas enquanto outros já partem decididamente para o ataque. E o principal foco são as falhas e erros cometidos por cientistas vinculados à campanha contra o aquecimento.


 


Falhas inevitáveis porque se trata de um tema onde ainda falta muita pesquisa mas que, quando são levadas para a arena do debate público pela imprensa, tornam-se armas letais na mão de quem consegue inseri-las no seu enfoque.


 


Estou mencionando tudo isto porque a confusão em torno do problema deve aumentar e o público tende a ficar desorientado diante do bombardeio informativo. O novo nisto tudo é que ao contrário do que acontecia até agora, os jornais já não tem mais o monopólio do enfoque e do framing. Agora o cidadão é quem escolhe como ver um problema.



A guerra da informação está agora em nossos corações e mentes.


P.S. Se você deseja mais informações sobre a polêmica em torno do aquecimento global pode consultar o boletim Mudanças Climáticas, editado pela ANDI. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/03/2010 Rodrigo Dias

    Odracir, realmente a questão passa pela superpopulação (e pra isso precisamos combater as igrejas, liberar o aborto, deixar de obrigar as pessoas a serem heterossexuais, etc) e pela densidade elevada dos aglomerados urbanos (que aliena totalmente as pessoas sobre a ecologia global). Acredito que seja, sim, possível retornarmos ao campo, por que não? Ainda mais hoje, com essa tecnologia da informação, onde podemos ver filmes mesmo em uma vila de 500 habitantes (claro, pela velocidade atual da rede não dá, mas é uma questão de pouco tempo). Quanto à perda da biodiversidade, se formos depender da maneira como as massas vêm os problemas, estaremos sempre presos à desinformação generalizada espalhada pelas igrejas e aglomerados da mídia, então acho que a saída definitivamente não está pra este lado. Ou educamos as pessoas primeiro (quanto tempo isso levaria? Se nem um ensino fundamental decente conseguimos ter!), ou agimos mesmo contra a sua vontade. Gostei da idéia do Roberto – proibição de pet, sacolas plásticas, imposto altíssimo para carros, e assim por diante.

  2. Comentou em 15/03/2010 Marcelo Idiarte

    É por aí, João Leonel. Só que não é correto usar o termo ‘aquecimento global’ justamente porque é um ciclo. Ou seja: quando este ciclo – que tem associação lunar e se não me engano se alterna a cada 18,6 anos – entra na fase de esfriamento, como agora, não pode ser chamado de ‘aquecimento’. O professor Luiz Carlos Molion tem uma explicação convincente, e bem mais lógica do que a tese usual, aqui: http://ul.to/4fjs0p/MolionClima.pdf

  3. Comentou em 15/03/2010 João Leonel

    Desculpem, mas pelo que sei, a questão do aquecimento global já é consenso. A polêmica está na causa. A explicação dominante é de que o CO2 produzido pelo homem é o vilão. A outra é de que o aquecimento global é um fenomeno natural dentro de uma escala de tempo geológica, e que o viés do CO2 como causa é na verdade um grande négocio que movimenta bilhões de U$.
    A degradação ambiental e perda da biodiveridade provocadas pelo homem são outros 500, que a continuar assim vai acabar mesmo com a humanidade. Mas não por provocar o aquecimento global.

  4. Comentou em 15/03/2010 Odracir Silva

    Entendo o q os caros Roberto Ribeiro/Rodrigo Dias estao a querer. Porem, resolver a equacao da expansao da humanidade vs. o meio ambiente nao me parece ser assim ter uma solucao tao facil. O problema ee complexo pq o sistema q vivemos nos daa a escolha de decidir. Ee fato de q haa uma menor biodiversidade agora do q no passado, mas isso nao ee fundamental p/ a maioria das pessoas pq eles nao veem isso como uma ameaca direta p/ a propia existencia. Jaa cenarios do problema do aquecimento global ee. Qto a voltar a uma vida mais simples, na minha opiniao, acho isto muito complicado tb. Entendo q uma questao de conscientizacao, e vejo q ee meio dificil dizer ao pessoal q voltem a usar produtos mais caros (jaa q mais dificil de produzir), ou entao voltar a ter uma vida mais rustica. Lembro-me de um comentario de alguem, q dizia q deveriamos voltar a ter uma vida mais rural… a ideia ee bonita, porem temo q seja impraticavel. Qto a ciencia, ainda haa muito debate sobre as consequencias do aquecimento global (jaa dito isso antes), porem o q politicos querem sao cenarios (isto ee ‘chutes educados’) p/ q possam fazer a decisao de risco.

  5. Comentou em 15/03/2010 Roberto Ribeiro

    A arqueologia dá uma visão sobre os séculos. E numa escala de séculos, não há problema. Para a escala dos milênios dos colegas paleontólogos há ainda menos. Se a discussão fosse meramente científica, não teria graça. Entretanto, sobre a ação do homem eu pergunto: não seria mais fácil proibir a fabricação de copos e sacos de plástico que convenser as pessoas a reciclá-los? Lembro do tempo em que copos e sacos eram de papel e funcionavam bem. Proibam-se as garrafas pet e voltemos às garrafas de vidro. Muito melhor que fazer esforços hercúleos e inúteis para sua reciclagem. Isso seria simples, rápido, eficiente, mas atingiria muitos interesses. Então é melhor FINGIR que se tomam medidas separando o lixinho. A classe média é incapaz de se rebelar contra a indústria pq querem carros e não andar de ônibus com os pobres. Para diminuir a dor na consciência, um carrinho com catalizador… A seleção natural dará um jeito, do ponto de vista científico é simples.

  6. Comentou em 15/03/2010 Rodrigo Dias

    É impressionante como um argumento questionável (aquecimento global) pode prevalecer sobre um argumento óbvio (perda da biodiversidade). Até quando? E principalmente por quê?

  7. Comentou em 13/03/2010 Marcelo Idiarte

    Castilho, não sou defensor contumaz do progresso econômico, não estou preocupado com defesa de liberdades individuais e não tenho pretensões político-ideológicas, apenas estou convencido – pelos elementos disponíveis de parte a parte – que o homem não interfere no clima do planeta. Que o homem polui, desmata, modifica ecossistemas não resta dúvida, isso é passível de aferição em termos absolutos. Mas os fundamentos que vinham sendo utilizados para embasar a interferência humana no CLIMA são altamente questionáveis. Isso é mais ou menos como a bíblia cristã: se o parâmetro inicial (Deus) for tomado como certo, não há muita surpresa que o resto da estória acabe tendo relativo sentido; mas se o parâmetro inicial estiver errado, é evidente que o resto não pode ser transformado em verdade. Eu só acho uma pena que se acuse a visão contrária (que é contrária à analogia com o CLIMA, e não contrária às ações de preservação ecológica) de interesse econômico, individualismo, política etc., pois eu só estou preocupado com a verdade. Mesmo que esta verdade recoloque as coisas onde estavam. Neste imbróglio a imprensa tem contrariado quase em uníssono a premissa da neutralidade e está tomando partido de uma das óticas científicas – a que até hoje pautou o entendimento geral. Ouso dizer que esse negócio do ‘aquecimento global’ vai entrar para a História como a maior barriga coletiva já vista.

  8. Comentou em 13/03/2010 Yawara Nanbiquara

    Já um fui eco-chato, agora depois de enxergar, digo enxergar, ver além, esperarei se estiver vivo para ver o que vai acontecer, vai ser duro amanhecer e não ver mais sol. Isto é só para ficar registrado. Aí aqueles conservadores, a favor da liberdade individual de consumo, pensaram, o que foi que fizemos! Há, continuarei com meu trabalho a favor do meio ambiente e ajudando aqueles que não entendem que já passamos da hora de um consumo sustentável. Estamos na reta final, alguém quer apostar, isso não é uma despirocação apocalíptica!

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