Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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A ‘heterarquia” , a nova palavra da moda na transição da imprensa para a era digital

Por Carlos Castilho em 24/08/2008 | comentários

Não digitei errado não, é heterarquia mesmo, uma expressão que significa organização social descentralizada entre iguais. É o oposto da nossa conhecida hierarquia, um sistema centralizado e vertical, como nas redações jornalísticas convencionais em todo o mundo.


 


Pois bem, a heterarquia tornou-se a palavra da moda entre os pesquisadores e praticantes das novas modalidades de produção de notícias com a participação de leitores, ouvintes e espectadores.


 


Ela procura definir uma forma de trabalho coletivo onde não há um superior e nem uma agenda ou método imposto de cima para baixo, por meio de chefias hierarquizadas. No sistema heterárquico existe uma ordem, decidida pela maioria, ao contrário da anarquia, onde não existe ordem alguma.


 


Um exemplo clássico de heterarquia no jornalismo é o noticiário produzido de forma colaborativa na revista online de tecnologia Slashdot. Outro exemplo é a enciclopédia virtual Wikipédia. O mesmo padrão está sendo usado, em maior ou menor escala, por outras iniciativas na Web como o jornal sul-coreano Ohmy News e as noticias produzidas por usuários de sistemas de weblogs instantâneos, como o Twitter.


 


O debate entre os adeptos da heterarquia — que tem origem na expressão grega heteros (diferença e diversidade) — e da hierarquia nas redações começa a esquentar porque são duas concepções diametralmente opostas de produzir informação. Na heterarquia, a primazia da diversidade e descentralização faz com que o sistema se apresente como confuso, instável e fluido, enquanto a hierarquia é estável, sólida e com regras bem definidas.


 


Mas a diversidade tem algumas vantagens já reconhecidas e estudadas por especialistas como David Stark, professor da Universidade Columbia e diretor do Centro de Inovação Organizacional da mesma  instituição. Segundo Stark, as principais vantagens dos sistemas descentralizados podem ser constatadas em situações complexas ao facilitar a adaptação, contextualização e exploração de alternativas.


 


O autor do texto Distributing Intelligence and Organizing Diversity in New Media Projects (Distribuindo Inteligência e Organizando a Diversidade em Projetos de Novas Midias) estuda a aplicação da heterarquia como alternativa para a imprensa convencional e as empresas lidarem com a transição para a era digital.


 


Idéias como esta ainda provocam arrepios em muitos profissionais ao imaginar um ambiente sem chefes, onde a confusão é permanente, os consensos demoram a ser alcançados e onde há uma permanente relativização na aplicação dos conceitos de certo e errado. É o que a doutora Anita Chan, do MIT, classificou de “polifonia” no processo de produção da informação.


 


Na revista Slashdot ou na Wikipédia, uma notícia e um verbete chegam a demorar semanas ou meses até lograrem um mínimo de consenso, porque o processo envolve uma complicada negociação entre os colaboradores. E o acordo está sempre sujeito a contestações e retificações.


 


É bem diferente das redações convencionais, onde os editores decidem o que vai ou não ser publicado e todos os seus subordinados obedecem sem contestação. Enquanto num sistema a discordância é a alma do negócio, noutro ela é um obstáculo indesejável.


 


A outrora sólida e inexpugnável hierarquia começa a mostrar fissuras consideráveis a partir da constatação de que ela tem cada vez mais dificuldades para lidar com a complexidade dos processo envolvidos na transição da imprensa para um ambiente multimídia — e com o caos informativo gerado pela avalancha de dados, fatos e notícias publicados diariamente na internet.


 


A exploração de sistemas descentralizados também está sendo feita no ambiente corporativo, em especial na Europa do Leste, onde o fim do socialismo desarticulou a produção econômica e o capitalismo não conseguiu até agora recuperar a sucata industrial, especialmente na ex-Alemanha Oriental. Curiosidade: quem está impulsionando a heterarquia no Leste europeu são os norte-americanos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/08/2008 Marcos Alexandre Vicente

    Olá Castilho,
    Sou aluno de comunicação social da UNIPAC aqui em Minas. Estamos tomando contato com esse embrólio que é a heterarquia. Pra mim foi um achado seu texto sobre o assunto, diria didático. Aí fiquei pensando, será que com um pouco de pretenção e ousadia, poderia pedir-lhe que produzisse um texto (até mais aprofundado sobre o assunto) e me enviasse por e-mail?? Já pensou na satisfação da turma toda e no moral que isso provocaria, na busca de cada um de nós, no aprofundamento do assunto? Sei que é um pedido assim meio fora dos padrões, mas vá lá, quem nao chora não mama, nesse mundo cão. (Todo dia aqui)
    Abraços.

  2. Comentou em 27/08/2008 Luiz Navarro

    Eu nem sabia que esse estilo de produção tem até nome, mas já experimentei trabalhar assim, principalmente em eventos culturais. Relamente, há vantagens e desvantagens na heterarquia. Chegar a uma decisão final pode ser um processo doloroso, demorado, cheio de indas e vindas, dependendo da opinião e do senso crítico de quem está participando. Mas acredito que o resultado final acaba ganhando.

  3. Comentou em 25/08/2008 Ivan Moraes

    ‘Curiosidade: quem está impulsionando a heterarquia no leste europeu são os norte-americanos’: mais de curiosidade ainda: quantos desses paises a anja da morte Condoleeza visitou ultimamente?

  4. Comentou em 24/08/2008 Orlando G. da Silva

    Olá Castilho. Você tem tempo de interagir com os comentários?!!

    Bem. De qualquer forma. Seu artigo foi uma grande dica para um ponto do meu projeto de doutorado. Obrigado.

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