Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A imprensa americana vira laboratório de experiências

Por Carlos Castilho em 13/11/2006 | comentários


Os três dos cinco maiores jornais dos Estados Unidos intensificaram os testes com novas fórmulas de produção tanto na parte editorial como na parte comercial e gerencial, diante do contínuo deterioro das receitas publicitárias e o avanço do jornalismo através da internet.


É dificil dizer se é uma estratégia coordenada ou se o esforço é fruto da angustiante pressão que os executivos da imprensa sofrem de acionistas e anunciantes.


O certo é que há uma coincidência de iniciativas, onde a mais impactante é sem duvida a da cadeia de jornais Gannet  (uma das cinco maiores dos EUA) que optou por uma mudança radical ao reduzir drasticamente as redações dos jornais regionais e municipais, substituindo-as pelo que batizou de Centrais de Informação (Information Centers).


A Gannett, dona do USA Today (o mais vendido no país), vai reorganizar toda a sua estrutura de coleta e edição de notícias ao integrar as redações de todos os veículos (jornais, radios e TVs) para que a informação deixe de ser produzida pensando na forma como será distribuida. Isto significa que os repórteres e editores deixarão de ser vinculados a um veículo e sim a um sistema de informação.Cada redação será transformada numa Central de Informações.


Mas as novidades não param aí. A atividade jornalística deixará de ser baseada nas tradicionais editorias de economia, política, internacional, esportes, locais etc para priorizar sete áreas: serviço público, inovação tecnológica, estatísticas, diálogo com leitores, assuntos comunitários, informações personalizadas e produção multimídia.


A mudança que já está em curso provocou algumas reações hostís de jornalistas mais experientes e há uma espectativa em torno do que vai acontecer nos próximos seis meses.


É uma aposta radical, onde o tema mais polêmico é o do diálogo com os leitores, uma política editorial que altera o tradicional unilaterialismo nas relações entre a redação e o público de jornais como o USA Today.


Já o Los Angeles Times , da cadeia Tribune, resolveu experimentar por meio do controvertido Projeto Manhattan cujo principal objetivo é saber o que o futuro reserva para o maior jornal da costa oeste dos Estados Unidos. Trata-se na verdade de uma grande reportagem sobre as alternativas para a imprensa escrita num ambiente informativo onde a internet e os leitores têm uma visibilidade cada vez maior.


O Projeto Manhattan, nome dado anteriormente ao esforço norte-americano para produzir a bomba atômica, está sendo tocado por três repórteres investigativos em tempo integral e seis editores em tempo parcial. O grupo recolhe experiências em todo mundo em matéria de participação dos leitores no processo editorial de jornais, para descobrir quais os projetos que podem ser aplicados no LA Times.


A preocupação do jornal de Los Angeles com o seu futuro pode ser explicada parcialmente pela sucessão de crises internas provocadas por divergências entre os executivos da rede Tribune e os principais editores do LA Times. No início de novembro o editor responsavel e o editor chefe do jornal foram demitidos sumariamente porque se recusaram a demitir jornalistas.


Em Nova Iorque, quem deseja mudanças são os investidores na bolsa de valores que pressionam a familiar Sulzberger, que controla o The New York Times, a ceder parte do controle corporativo para os acionistas minoritários. A reação da família foi negativa e a briga pode esquentar depois que a corretora Morgan & Stanley tomou as dores dos acionistas e exige que os descendentes de Adolph Ochs, que comprou o jornal em 1896, vendam parte do capital social.


Aqui a disputa é mais financeira do que editorial. A familia Sulzberger quer impedir a repetição do episódio da venda da rede de jornais Knight & Ridder, no ano passado, sob pressão dos acionistas descontentes com a desvalorização das ações dos grandes jornais norte-americanos.


Conversa com os leitores
O tema do texto pode parecer distante da realidade brasileira mas na verdade mostra como até mesmo os grandes jornais norte-americanos estão preocupados com a temática que marcou os últimos posts do Código Aberto: a participação dos leitores no processo informativo. Lá já existe até o jargão crowdsourcing, que significa busca de informação por meio de multidões. Por isto não se trata de uma questão marginal ou alternativa. Ela está no centro da busca de novos modelos para a imprensa. Leio todos os comentários dos leitores e tenho que admitir que eles já são hoje uma das minhas principais fontes de informação. As queixas e censuras são importantes mas contribuem muito menos que a exposição de idéias e de experiências, porque estas alimentam o debate com insumos novos e diversificados.  

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/11/2006 Ivan Moraes

    ‘nada de surpreendente neste comportamento, pois a participação dos leitores está ainda na primeira infância e a maioria deles está fortemente marcada por frustrações acumuladas ao longo de anos’ O ponto eh valido, forte, e ja ofendeu alguns leitores previos. So queria salientar que ‘frustracoes acumuladas’ de unhas quebradas nao movem moinho. As frustracoes acumuladas que os jornais estao vendo nas reacoes dos leitores e comentaristas –e aas quais nao estao acostumados– tem um peso historico enorme. Por exemplo, toda vez que eu digo a brasileiros que uns 95 por cento dos casos de corte do Brasil terminam do lado dos ricos e poderosos, os ouvintes riem na minha cara: eh mais, todos garantem. Os 95% sao tirados do ar, obviamente, mas o peso historico -nao da experiencia brasileira, mas da experiencia individual do brasileiro– da completa credibilidade aa uma porcentagem admitidamente tirada do ar! Todos se reconhecem nela! Eu nao sou opinador, nao. Sou testemunha. Um abracao, C.

  2. Comentou em 20/11/2006 Marcelo Mendes

    Sugiro uma visitinha ao link http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12864

    Nossa imprensa está verdadeiramente virando uma montanha de lixo…

  3. Comentou em 19/11/2006 Antonio Valadâo

    Não assino, não compro e não leio jornais nem revistas. Minha informação busco somente nos sites e blogs. Tomei conhecimento através do blog do Zé Dirceu, de um site que achei muito interessante: http://observatoriodefavelas.org.br

  4. Comentou em 19/11/2006 Helô Carvalho

    A impresa comunitária já vem fazendo o diálago com leitores, ouvintes e telespectadores. Nestes veiculos são debatidos, políticas públicas, assuntos comunitários e ecológicos entre outros. Pena que os recursos ainda são poucos e a qualificação de colaboradores insuficiente. Percebemos a boa penetração que tem nos bairros principalmente nas cidades do interior. Creio ser uma medida que merece estudos da grande imprensa brasileira. Embora sempre haja o risco do desemprego em massa. Nas rádio comunitárias a voz do ouvinte tem prioridade e é através dele que muitos assuntos são pautados.

  5. Comentou em 18/11/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Você deveria sugerir aos seus colegas do OI que lessem, entendessem e aplicassem suas sugestões. Os três últimos textos cuidadosamente elaborados que enviei para o OI foram ignorados. São eles: resenha do livro de Barry Glassner (CULTURA DO MEDO) que enfoca o jornalismo sob a ótica sociologica e política; resenha do livro de Pierra Bourdieu (SOBRE A TELEVISÃO), em que o telejornalismo é submetido à critica sociológica; e, por fim, um artigo defendendo a publicação da relação de violadores pela OAB/SP e refutando os argumentos que foram usados na imprensa paulista para condenar a medida. Nenhum destes textos foi publicado. Em relação ao último, recebi um delicado e-mail dizendo que ‘seria considerada a possibilidade de publicação do texto nas atualizações do OI durante a semana’ (o vocabulário diplomático, mas o resultado PURA ENRROLAÇÃO). Como você já deve ter percebido, até mesmo no OI tem gente que se acha no direito de censurar e desdenhar as colaborações de pessoas que se interessam pelo fenômeno da comunicação mas não são jornalistas; até no OI, que é uma revista ‘on line’, a cultura editorial ainda está na idade da pedra. Quer saber, não vou mais perder mais meu tempo escrevendo ou comentando nada no OI. O livro de Pierre Bourdieu

  6. Comentou em 17/11/2006 Conceição Oliveira

    ‘Leio todos os comentários dos leitores e tenho que admitir que eles já são hoje uma das minhas principais fontes de informação. As queixas e censuras são importantes mas contribuem muito menos que a exposição de idéias e de experiências, porque estas alimentam o debate com insumos novos e diversificados. ‘

    Castilho muito bom ler esta tua reflexão, quem dera ela fosse representativa da categoria.

    Conto uma experiência da qual fui militante ativa e testemunha do processo pela articulação via rede: no debate sobre o Estatuto da igualdade racial e no Manifesto pró-cotas, a nossa reação e articulação com as lideranças do movimento negro e sociedade civil foi imediata, para responder ao manifesto contrário às cotas. Oupamos espaços de listas de discussão, comunidades do orkut e blogs até surgir o documento e a petição online que rapidamente ganhou milhares de assinaturas, forçando a grande mídia a dar visibilidade à questão. O que é mais interessante, não fizemos como a imprensa, que após algumas semanas caiu novamente no silêncio, nossas discussões e mobilizações continuam.
    Eu creio ser muito saudável que os jornalistas saiam das redações para ver e observar o mundo à sua volta, exercício necessário de sensibilização e de significação para as matérias produzidas.

  7. Comentou em 16/11/2006 Marcelo del Questor

    Este processo de decentralização e inexorável. Depois do advento da internet o leitor ganhou liberdade e passou atambém gerar a notícia. E muitas das vezes com mais credibilidade que os meios tradicionais. Tem-se que pensar numa forma de controle para que esta credibilidade se fortaleça. Num contexto democrático essa é uma maneira fantástica de divulgação real dos fatos. A imprensa séria tende a ganhar muito com isso. Inclusive inanceiramente falando, de uma vez que adquirir o produto dessas empresas é ter certeza da veracidade dos fatos. Além de dar ao jornalista que porventura formatará tais noticias, proteção contra manipuções dos detentores dos veículos. Volta-se ao jornalismo sem vícios. Este é uma assunto digno de debate. Buscar uma forma de implementar tal jornalismo será um salto enorme para quem conseguir fechar a equação lucro/veracidade. Bons ventos sopram o jornalismo isento e democrático. Excelente matéria. Fico por aqui ansiando um debate aberto e multilateral. Forte abraço!

  8. Comentou em 16/11/2006 Rafael Sousa

    Bom, gostaria de fazer meu comentário, pois estou um pouco preocupado com o meu futuro. Sou estudante de jornalismo, e não sei ao certo, se essas novas medidas ou soluções tomadas conseguirão ampliar o mercado, ou até mesmo dar um fôlego à mídia impressa. Porém, acho que vale a pena tentar

  9. Comentou em 16/11/2006 Luis Santos

    Já que estamos falando de idéias, poderia ser criado um site exatamente com o nome ‘LABORATÓRIO DE IMPRENSA’; um site de cunho experimental. para que fossem testadas novas formas de interação entre as partes …

  10. Comentou em 15/11/2006 Marcelo Seráfico

    Caro Sr. Castilho, novamente, venho aqui parabenizá-lo. Em sua matéria permite que nós, leitores, entendamos processos dos quais estamos participando ativamente sem, contudo, ter plena consciência – como já sugeriu abaixo outro leitor. Isso é fundamental, pois nos ajuda a entender nosso próprio papel, ajuda-nos a reconhecer o alcance político de nossa simples ação de ‘comentar’.
    Parece-me que, tardiamente, as grandes empresas de comunicação acordaram para o fenômeno das redes sociais. Claro, já estavam alertas para elas quando se tratava de reduzir custos com enviados especiais etc., mas agora se dão conta de que os meios eletrônicos que servem para lhes fornecer ‘feedbacks’, também se põem como recursos de produção da própria informação. Isso, evidentemente, provoca conflitos e impasses, pois ampliam-se os horizontes da informação. Obrigado pela excelente matéria e parabéns pelo continuado empenho em refletir sobre problema tão relevante.

  11. Comentou em 15/11/2006 Marcelo Seráfico

    Caro Sr. Castilho, novamente, venho aqui parabenizá-lo. Em sua matéria permite que nós, leitores, entendamos processos dos quais estamos participando ativamente sem, contudo, ter plena consciência – como já sugeriu abaixo outro leitor. Isso é fundamental, pois nos ajuda a entender nosso próprio papel, ajuda-nos a reconhecer o alcance político de nossa simples ação de ‘comentar’.
    Parece-me que, tardiamente, as grandes empresas de comunicação acordaram para o fenômeno das redes sociais. Claro, já estavam alertas para elas quando se tratava de reduzir custos com enviados especiais etc., mas agora se dão conta de que os meios eletrônicos que servem para lhes fornecer ‘feedbacks’, também se põem como recursos de produção da própria informação. Isso, evidentemente, provoca conflitos e impasses, pois ampliam-se os horizontes da informação. Obrigado pela excelente matéria e parabéns pelo continuado empenho em refletir sobre problema tão relevante.

  12. Comentou em 15/11/2006 Jesús Paraninfo

    Hola Carlos,

    Interesante análisis e interesante investigación de los reporteros investigadores! Lo tomaré como referencia.

    Un saludo desde Madrid

    Jesús Flores

  13. Comentou em 15/11/2006 Clovis Segundo

    Bom saber que existe um Observador que diz: ‘Leio todos os comentários dos leitores…’
    Também acredito no diálogo com leitores, às vezes leio os comentários antes do próprio texto.
    Convido o senhor, se ainda não o fez, a navegar no Orkut e ver como a informação flui de forma pulverizada e dinâmica. Eu não assino nem compro nenhum jornal, informo-me através da Internet.
    Sobre seu texto, muito bom. Acredito que este fenomeno já esteja ocorrendo no Brasil através dos Blogs e etc.

  14. Comentou em 13/11/2006 ubirajara sousa

    Como sempre, os nossos defeitos são percebidos, primeiramente, pelos nossos observadores do que por nós mesmos. Se você (permita-me assim chamá-lo) fizer um passeio pelo OI, alguns dias para trás, e decidir ler os alertas dos comentaristas (observadores), verá que a decisão tomada por esses três jornais já poderia ter sido exercitada aqui, acaso a mídia, via OI, não fizesse ouvidos moucos aos reclamos e sujestões oferecidas. Mas, quem sabe, agora com a experiência do Tio Sam e como brasileiro adora copiar o norte-americano, surgirá um projeto semelhante no Brasil. Tomara!

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