Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A imprensa diante dos complexos dilemas da reconstrução após as tragédias de verão

Por Carlos Castilho em 19/01/2011 | comentários

A imprensa e as tragédias acabaram envolvidas numa espécie de relação perversa. Um evento dramático, como o ocorrido na região serrana do Rio de Janeiro, na segunda semana de janeiro, atrai a curiosidade pública e consequentemente aguça a preocupação com o faturamento por parte das empresas jornalisticas.


Nada contra o aumento da receita. O problema é que o clima de comoção que acompanha os grandes desastres tende a embaralhar preocupações e emoções, criando um ambiente em que fica muito difícil distinguir uma iniciativa marqueteira de uma ação voltada para a solidariedade e para a busca de soluções.


O caso da tragédia na região serrana do Rio de Janeiro adquiriu uma tal proporção que o atendimento das vítimas perdeu espaço para a perplexidade gerada por uma desafiadora pergunta: o que fazer para evitar que os desastres se tornem rotina, em cada verão?


Esta dúvida tira o sono de milhões de pessoas que moram em áreas de risco no Brasil, porque não há resposta consensual. E mais do que isto, quando alguém se aprofunda na análise da questão esbarra num mar de complexidades que desorienta todo mundo.


Não há mais dúvidas de que o processo de aglomeração urbana em encostas localizadas dentro — ou na periferia — de cidades médias e grandes é simplesmente suicida. Mas tirar as pessoas de favelas em bairros situados em terrenos inclinados, ou de construções feitas em áreas impróprias, equivale a redesenhar o mapa socioeconômico de cidades inteiras.


Uma operação de tal magnitude não pode ser executada sem a participação direta dos veículos de comunicação. São eles que permitem a mediação entre as autoridades encarregadas do remanejamento urbano e as comunidades de pessoas afetadas pela mudança. Mas para que a imprensa desempenhe essa função, ela deve colocar de lado seus interesses políticos ou econômicos para assumir o papel de mediadora ou de tutora.


A grande pergunta é: estão os jornais e os jornalistas conscientes e preparados para essa missão? Vejamos o caso dos repórteres das redes de televisão que patinaram na lama dos bairros atingidos pelas avalanchas de barro e água nas cidades de Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo, Sumidouro e Areal, na região serrana do Rio.


O trabalho de campo de todos eles estava orientado no sentido de buscar impacto dramático e mostrar ousadia individual nas reportagens produzidas. A valorização das lágrimas, atitudes heróicas e dos gestos solidários era onipresente. Nada de errado nisso e nem se pode atribuir culpa a fulano ou beltrano. A questão é que as populações afetadas pelas enchentes foram relegadas à condição de coadjuvantes na produção informativa, quando na verdade elas era os atores principais.


O discurso formal dos jornalistas era o de ajuda às vitimas e desabrigados. As imagens, informações e depoimentos transmitidos por repórteres, cinegrafistas e fotógrafos estavam orientadas no sentido de provocar impacto emocional para gerar solidariedade. É evidente que num primeiro momento o apoio solidário é essencial, mas após o segundo ou terceiro dia da tragédia, quem está sem casa ou perdeu parentes tem necessidades muito concretas que superam o alcance dos donativos.


É neste momento que o papel mediador da imprensa assume toda sua relevância. Pois é nesse contexto que a relação da mídia com a população cria as condições para que os afetados possam cobrar seus direitos e sejam ouvidos na busca se soluções. Dar voz à população no meio de uma tragédia significa incluir os atingidos na reconstrução do que foi destruído.


Encarar o problema da inevitabilidade da remoção de pessoas residentes em áreas de risco é uma tarefa extremamente complexa para a qual não existem soluções simples e imediatas ao gosto da maioria dos governantes. Pedir que populações carentes abandonem o pouco que têm para ir morar em regiões afastadas, onde o transporte é caro e deficiente, não é uma missão simpática nem fácil. É pouco provável que políticos queiram arriscar votos e simpatias num trabalho como este.


Limitar o papel da imprensa a criar impacto emocional apenas assegura a reprodução de politicas estatais assistencialistas, impostas de cima para baixo, cujos resultados são geralmente previsíveis e em geral decepcionantes.


Essa estratégia informativa da imprensa já se mostrou incapaz de mudar o comportamento das autoridades de turno. Pode ter chegado a hora de testar outra alternativa, para tentar fugir da incômoda posição de cúmplice da mesmice governamental na busca de soluções para o problema das populações em áreas de risco.

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/01/2011 Natali Alinskaya

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  2. Comentou em 20/01/2011 Mauro Malin

    Crítica muito pertinente à cobertura jornalística da televisão. Além de passar ao largo das questões estruturais, de fundo, a cobertura não teve também o benefício de alguma reflexão madura sobre a catástrofe, as vítimas, todo o contexto. Mesmo repórteres jovens podem fazer reflexões maduras. Não é problema de idade, mas de cultura, no sentido amplo da palavra.

  3. Comentou em 20/01/2011 Jaime Kollier Koeli

    Lamento, mas tenho idade para lembrar-se da implantação da Vila Kennedy, RJ, no tempo do Karlos Lacerda, cognominado ‘o matador de mendigos’. A miséria é terreno fértil para ideologias, religiões, pregações administrativas e – por que não? – policiais. Diz-se até que não existe disputa eleitoral que não seja decidida na favela. Conheci, há tempos, uma passista de escola de samba moradora de Ipanema e que era a ‘regra três’ de um secretario de Estado. Uma noite o predio acordou com a discussão, no apartamento dela. O pessoal da escola de samba cobrava da ilustre dama a militancia na favela, ou seja, morar em terreno sagrado. A miséria é, também, um investimento economico e social, um dos pilares eleitorais da democracia praticada. Julgo que seu custo é demasiado, mas devo reconhecer que sua sustentação é fortissima. Ouvi na TV que os programas (sempre adiados, afinal) devem ser geridos por ‘lideres comuniarios’, ou seja, pelos sacerdotes da miseria.

  4. Comentou em 20/01/2011 Doroti Costa

    Concordo ampla e irrestritamente com a análise. No entanto, acontecimentos como este também tendem a imobilizar as pessoas, que, atingidas pela desgraça, precisam de mão equilibrada para reconduzí-las à dignidade e normalidade.
    Recuperadas, resta saber onde está a iniciativa das pessoas, do POVO, que se contenta em aparecer nos jronais mostrando sua condição de vitimas. Brasileiro não tem demosntrado atitude na solução de todo o nível e tipo de problema. Voto de protesto que elege Tiririca é tiro no próprio pé.

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