Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A imprensa e a despolitização do debate eleitoral

Por Carlos Castilho em 25/08/2010 | comentários

Até parece conversa de avô para neto, mas definitivamente não se fazem mais campanhas eleitorais como antes. O que mais surpreende na atual campanha é a ausência de conflito, é como se o eleitor fosse escolher entre seis e meia dúzia porque esta é a mensagem embutida na agenda que a mídia está levando para a opinião publica.


 


Até agora a imprensa tem se preocupado mais em mostrar o seu aparato tecnológico para cobrir um evento, o que para a população ainda não parece significar grande coisa. A competição real não parece ser entre os candidatos mas entre a TV Globo e suas concorrentes, da mesma forma que os jornais tratam de achar temas eleitorais que possam justificar aumento nas tiragens.


 


A imprensa parece adotar este comportamento porque sente que o eleitor está cada vez mais descrente na política convencional, ao mesmo tempo em que sabe que convém ficar bem com o próximo/a eleito/a ou pelo menos ampliar o seu cacife para futuras negociações com o/a novo/a presidente.


 


Os candidatos, pelo menos até agora, deixaram de lado a politização ou ideologização da campanha por dois motivos:


a)     O grupo liderado pelo PT não quer dar elementos para ser chamado de esquerdista, chavista ou filo-comunista e por isto recorre à mesma estratégia “paz e amor”  que lhe garantiu vitórias nas eleições de 2002 e 2006;


b)     A coligação PSDB/DEM também evita o rótulo de conservador porque sabe que o eleitorado moveu-se para uma posição de centro-esquerda durante o governo Lula, por conta da política de distribuição de renda que favoreceu as classes C e D.


 


É importante fazer a ressalva do tempo, ou seja, o ‘até agora’, porque o espectro de uma derrota pode levar candidatos a uma radicalização desesperada e provavelmente também inútil. Mesmo se isto ocorrer, o fenômeno básico continua, isto é, a despolitização como um processo em marcha e aparentemente irreversível na campanha eleitoral.


 


Ele é a conseqüência de um desgarramento entre a máquina político-partidária do país e os eleitores. As siglas criaram um mundo próprio no qual o importante é agarrar-se ao poder como estrutura de perpetuação de interesses, fenômeno que contaminou o processo eleitoral transformando-o numa verdadeira dança de cadeiras.


 


Enquanto isto, o eleitor começou a dar-se conta que seus interesses reais se distanciaram cada vez mais da elite político-partidária e também da imprensa. A perda de interesse na campanha é uma conseqüência direta deste processo, que não é novo e já foi cantado em prosa e verso por inúmeros pesquisadores acadêmicos brasileiros.


 


Todo mundo sabe que numa eleição o grande protagonista é o eleitor, pois é ele que vai decidir, pelo menos é isto o que dizem os manuais da democracia. Mas o que prevalece de fato, há décadas, são o jogo dos políticos e a preocupação da mídia em transformar a disputa eleitoral numa corrida de cavalos.


 


Agora a grande atração é o jatinho da Globo e sua troupe de repórteres-celebridades. Causa embaraço ver William Bonner apresentar o Jornal Nacional de Macapá, tendo ao fundo uma multidão ululante, dando ao telejornal um ar de programa do Faustão ou um show de Roberto Carlos.


 


O fenômeno novo em tudo isto é o surgimento da internet como fator capaz de reverter este quadro. Capaz, porque ainda é tão somente uma alternativa, já que apenas 30% da população brasileira têm acesso ao ciberespaço e a cultura digital ainda está no jardim da infância. Mas o que a web já começa a mostrar é a emergência de dezenas de blogs, twitters, fóruns e comunidades sociais onde a presença da política é clara.


 


Se na mídia convencional acontece uma despolitização, na mídia alternativa digital ocorre o contrário. São os eleitores expressando os seus pontos de vista, geralmente de forma crua, passional e, às vezes, até agressiva. Quem for navegar, sem preconceitos, pela web vai verificar que não são poucos os blogueiros que se irritam contra o uso de ferramentas digitais por candidatos e partidos. É como se os blogueiros fossem donos da internet.


 


A mídia tem opções ao seu dispor para reencontrar a ligação com o público. A proposta do jornalismo cívico, desenvolvida nos Estados Unidos nos anos 1980 e 90, é uma ferramenta testada e capaz de ser adaptada a um contexto brasileiro. Ela é de uma simplicidade franciscana: em vez de promover shows para os marqueteiros de candidatos mostrarem as suas habilidades, bastaria convocar assembléias de bairros para que os moradores possam debater com os candidatos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/09/2010 Emerson Mathias

    Sobre a simplicidade da ideia contida em ‘bastaria convocar assembléias de bairros para que os moradores possam debater com os candidatos’, nada tão simples, nada tão facil. É frequente ver a tentação de importar soluções ‘testadas e aprovadas’ em outros países. Essa ideia ‘desenvolvida nos Estados Unidos nos anos 1980 e 90’ me parece fora de contexto. Nossa realidade é outra. A época é outra. As mesmas assembleias de bairros estão se desarticulando nos EUA – um dos efeitos colaterais da crise financeira que ainda assola aquele país. Falta amadurecer uma visão critica que permita olhar o cenario eleitoral como mero reflexo do que somos como cidadaos – é triste o cenario – mas a imagem não nos deixa outra alternativa a não ser constatar que ainda temos um longo caminho pela frente para consolidar a nossa democracia que nada mais é do que um conjunto de leis e normas a disposição de consumidores. Não ha cidadania no Brasil. Talvez esse seja o mote que falta ser observado neste observatorio. No mais, ficamos no inferno das boas intenções enquanto nos deslocamos entre a laptop, a geladeira e o controle remoto na sala de estar.

  2. Comentou em 31/08/2010 Jaime Collier Coeli

    Ignoro o que possa vir a ser ‘voto mal dado’. Sejam quais forem as consequencias, qualquer voto é interessado na politica de uma sociedade e indubitavelmente a representa. Volto a lembrar uma definição elementar de Foucault do que denominou ‘sociedade total’, em que basta o iniciado aravessar os portões para perder a individualidade. São exemplos os hospicios para alienados, as prisões, os mosteiros e os quarteis. Não há voto válido numa ‘sociedade total’. A questão, portanto, não é saber se é de ‘boa qualidade’.

  3. Comentou em 31/08/2010 marcelo muniz

    o que me preocupa nisso tudo é que o voto mal dado representa uma perda substancial de dinheiro no nosso bolso.essadeveria ser a nosa maior preocupação, a midia não ta nem ai para o brasil a máquina publica absorve rios de dinheiro que saõ retirados do bolso do trabalhador do empresario ao favelado..o sr. carlos castilho mencionou os estados unidos.. eu moprro de inveja da sociedade americana e como é feita a harmonização de leis por lá..para se ter uma ideia não existe funcionario estatutário por lá e sim celetista..é essa a pergunta que sempre faço e não obtenho resposta..porque a imprensa não da uma olhadinha na sociedade americana e porque ela é objeto de desejo de todos? será que não existe nada de bom que que possa ser copiado de lá?

  4. Comentou em 30/08/2010 Herman Fulfaro

    Coincidentemente ou não até hoje só ouvi gente de direita, que por sinal se envergonha de admitir que é de direita, dizer que não existe essa coisa de esquerda e direita, que não há diferença de idéias, de postura, de ideologia, nada que permita identificar uma coisa e outra. Pois acho a diferença gritante e não imagino ninguém do PT numa conferência no Clube de Oficiais, dizendo para eles o que o José Serra disse dias atrás. Não mesmo! De qualquer forma, o que isso tem a ver com o que se diz ou se deixa de dizer durante uma campanha eleitoral, ainda mais num país onde a imprensa e a direita não disfarçam a preferência pelo referenciado, não faço idéia de onde se quer chegar. Afinal, politik ist die Kunst des Möglichen, a arte do possível e não da insanidade de dar murro em ponta de faca pra ver o sangue correr, de modo que imaginar o PT, em pleno horário político eleitoral, ou a Dilma no debate da Globo, defendendo a reforma agrária, o controle social da mídia, mercosul, o isolamento de Honduras, as relações diplomáticas com Cuba, Irã, Venezuela, reestatização da Petrobrás, etc, tudo isso com a serenidade e descomprometimento de um Plínio A. Sampaio, que não tem sequer 1% de intenção de votos para perder, enfim, esperar isso na atual conjuntura ou é ingenuidade para Candide de Voltaire nenhuma botar defeito, ou, então é má-fe, mera provocação inconseqüente…

  5. Comentou em 30/08/2010 Jaime Collier Coeli

    Se faltar capital para os investimentos em infra-estrutura e no pre-sal haverá uma boa possibilidade do acirramento do debate ideologico ser instaurado. Do ponto de vista de manter a opinião publica ocupada tanto pode ser pelo choque entre teocracias quanto pela atuação de plutocracias. Lembro-me de que 64 começou com um movimento de rearmamento moral e, no final do processo, o ministro Simonsen, perguntado, numa entrevista, sobre até quando o País persistiria na tomada de emprestimos no exterior, respondeu: ‘Até que exista alguém disposto a fornece-los’. As opções governamentais estão sempre dependendo da conjuntura internacional, pois os recursos sao sempre escassos, tanto o capital propriamente dito quanto o chamado ‘capital humano’. Não é possivel deixar de considerar que o choque entre partidarios da realpolitik e os fundamentalistas (religiosos ou não) sempre correu na direção da resolução de problemas financeiros, com maior ou menos influência de problemas ‘eticos’.

  6. Comentou em 30/08/2010 Igor M. Rodrigues

    É, Wallace, isto é uma coisa que não posso confirmar nem negar! Posso somente suspeitar, assim como você! Vamos esperar as cenas dos próximos capítulos…

  7. Comentou em 30/08/2010 Wallace Lima

    Muito bom, muito bom artigo! Igor, e quem disse que essa aliança entre esses dois pólos não já está fechada? Se não está formalizada, dando demais na vista dos eleitores, isso é outra coisa.

  8. Comentou em 30/08/2010 Marco Cardoso

    ‘Quem for navegar, sem preconceitos, pela web vai verificar que não são poucos os blogueiros que se irritam contra o uso de ferramentas digitais por candidatos e partidos.’

    Pode dar um exemplo concreto dessa afirmação? Porque eu costumo ler alguns blogs e nunca vi uma coisa dessas.

  9. Comentou em 30/08/2010 Igor M. Rodrigues

    É certo que cada vez mais o debate meramente ideológico, além de ser boicotado pela imprensa, também já não interessa mais a população. O povo quer saber de melhorar sua qualidade de vida, do político que vai lhe dar acesso aos serviços essenciais, lhe reduzir a carga tributária e trazer benefícios gerais ou particulares. Quem convencer o povo disso (o que não significa fazer) ganhará voto independente de ser do DEM, do PSDB, do PT, ou ser liberal, socialista, comunista ou social-democrata. O pragmatismo é a realidade, e quase todos partidos se tornaram fisiológicos (incluindo os “pólos” PSDB e PT) justamente porque sabem que suas pregações ideológicas fracassaram! O debate político não interessa a nenhum deles, mas sim o discurso superficial e ambíguo que esconde uma transição rápida, porém, despercebida, do pluripartidarismo e da alternância de poder para uma plutocracia e um oligopólio de poder. Quem não se deu conta que, muito em breve, os pólos PT e PSBD, e seus partidos de apoio, não podem fechar uma grande e quase imbatível aliança? E quem disse que isso não interessa aos seus grandes apoiadores e a imprensa? Porque será que grandes empresários, como Eike Batista, fazem doação para os dois com mais chances segundo pesquisas?

  10. Comentou em 29/08/2010 eduardo sobreira muniz

    Esta campanha me assombra pela ‘mesmisse’do nada. Esquerda, direita, centro se existirem ainda, falam da mesma coisa. Não há propostas novas, não há encatamento. O brasileiro está preocupado com o bolso, não com questões de saúde, segurança e educação. O brasileiro está preocupado que a economia vá bem. Quem vai estar lá pouco interessa. Os partidos lutam pelol poder. O poder é o foco. Tomar conta das riquezas nacionais, afinal de contas quase todos os políticos acabam enriquecendo rápido, só com a possibilidade de obter empréstimos a juros baixos nos bancos do governo, a família empregada nos cargos públicos sem concurso, etc.
    O jornalismo cívico é uma esperança, mas o nome já diz: esperança.

  11. Comentou em 29/08/2010 Márcia Coelho

    Como politizar uma campanha, onde o candidato que poderia polarizar com Dilma só sobrevive à base de escândalos em torno de um grande picadeiro midiático? Depois da palhaçada da eleição passada, em que os corruptos históricos faziam de conta que eram cordeirinhos ilibados e atuavam em comum acordo com as mídias aliadas… ah, me poupem, eu mesma não estou nem um pouco interessada nessas eleições, quero que passe rápido, porque lembrar daquelas cenas de moralismo lacerdita me dá engulhos. Não quero ver aquilo de novo. Espero que a campanha do Serra – que está tentando armar novo escândalo – nos poupe do papel de idiotas. A oposição não soube e não sabe fazer oposição benéfica. Se no episódio do mensalão tivessem pensado no país, teriam feito uma baita pressão por reforma eleitoral e não teriam conduzido tudo para aquelas cenas de picadeiro eleitoreiro. Se tivessem sido sérios, e não meramente atores, estariam provavelmente em situação melhor, hoje. No momento, tudo o que quero é ver o mínimo possível a cara do Serra e dessa gente lacerdista, cara de pau e cínica. Espero que nos poupem dos espetáculos de mesmo tipo e não transformem as eleições em factóides denuncistas. Tomara que a eleição passe rápido, pois não há como politizar campanha com quem só sabe fazer cena de moralismo, sem que enxergue que não tem a menor moral para fazê-la.

  12. Comentou em 28/08/2010 Alexandre Pastre

    O debate não precisa de espetáculo. Isso fica mais adequado para o JN. Há uma convergência de ideias, não de despolitização.

  13. Comentou em 28/08/2010 Marcos Faé

    Pelo visto a rede globo é mais competente e audaz do que seus detratores possam imaginar que, pelo andar do enterro ainda sofrerão muito, enquanto não puderem pagar uma assinatura de TV que custa no Brasil no mínimo o dobro de seu preço no resto do mundo, assim como a gasolina, o carro, o vestuário, etc.etc.etc.etc. e outras coisinhas consideradas luxo por aqui. Parando de sofrer e tentando se politizar vemos um Zé com medo de ser liberal, porque nasceu social-democrata, e como disse acertadamente o Castilho teme a ira dos ascendentes da indigência, novos ricos segundo os assombrados mídia-fóbicos neo-conformados.

  14. Comentou em 28/08/2010 Luis Felipe Cesar

    Prezado,
    Interessante, mas você esqueceu dos outros candidados. Fortalecer a elementar polarização enfraquece o debate.
    Saudações,

  15. Comentou em 28/08/2010 Rodrigo Cardozo

    Uma das medidas adotadas pela mídia para despolitizar o debate
    eleitoral tem sido a marginalização de candidatos que adotem um
    discurso ideológico,ou seja,que tragam a disputa para o campo da
    discussão franca de idéias e visões de mundo.Isso é considerado
    inconveniente pelos donos das empresas de comunicação.O ideal para
    eles são os discursos superficiais e anódinos.

  16. Comentou em 28/08/2010 Jaime Collier Coeli

    Os maqueteiros politicos podem perder a remuneração referente ao segundo turno. O sistema vigente trata apenas de cooptação, tratando de transformar em ‘in’ os que estavam ‘out’. Considerando os investimentos que podem ser feitos no proximo governo, ligados à infra-estrutura e ao pre-sal, será necessario uma maioria parlamentar forte, aliada a uma propaganda poderosa, para a dinheirama que se espera não corra pelo ralo. Se ocorrer, será ma maneira ‘etica’ de ganhar muito dinheiro.

  17. Comentou em 28/08/2010 Rogério Ferraz Alencar

    Sem me referir ao assunto da coluna,rResolvi escrever aqui, pois fui censurado no OI: eu disse que Alberto Dines estava amargurado com as pesquisas eleitorais e que eu temia que ele entrasse em depressão, caso as pesquisas se confirmassem. Não publicaram meu comentário. Voltei à carga duas vezes, e nada. Quem censura: ou OI ou Alberto Dines?

  18. Comentou em 26/08/2010 Juliana Ribas

    É bem verdade, Carlos.
    E acredito que não existem mais dois lados da moeda, esquerda e direta. Hoje, a discusão é: mais Estado ou menos Estado, somente.

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