Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A imprensa e a deterioração da imagem policial

Por Carlos Castilho em 14/07/2010 | comentários

O envolvimento de policiais e ex-policiais no noticiário sobre crimes de repercussão nacional deixou de ser uma exceção para transformar-se quase numa rotina, tal a freqüência com que ocorre. Dois casos super-badalados como o do goleiro Bruno e da advogada Mércia Nakashima têm na lista dos principais suspeitos indivíduos direta e indiretamente associados às policias militares do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.


 


E quando as policias civil e militar começam a freqüentar com preocupante assiduidade as páginas policiais dos jornais é inevitável um aumento considerável na já alta taxa de insegurança do cidadão que paga impostos para manter as instituições que, por dever constitucional, deveriam protegê-lo.


 


Os casos que ocupam no momento o topo da agenda das editorias de polícia de quase todos os veículos da imprensa não são uma exceção. Em abril, a polícia de Pernambuco expulsou de uma só vez, 42 integrantes da PM e 12 agentes da policia civil do estado, todos acusados de atuar em grupos de extermínio há pelo menos cinco anos.


 


Nestes e em vários outros casos cobertos pela imprensa, destaca-se o fato de que civis estão contratando policiais da ativa e da reserva para eliminar desafetos, concorrentes, ex-maridos e ex-mulheres. Em setembro do ano passado, na Bahia, cinco policiais foram expulsos porque se envolveram num crime onde o boxeador Popó foi mencionado como um dos possíveis mandantes.


 


Em São Paulo já são dois os casos recentes em que oficiais da Policia Militar estão envolvidos no assassinato de motoboys. Em maio, dois comandantes de batalhões da PM paulista foram demitidos por omissão no caso da execução do motoboy Alexandre Menezes dos Santos. Um mês antes, outro episódio quase idêntico também terminou com a morte de um motoboy capturado por nove PMs, depois de ser levado para um quartel da corporação.


 


A imprensa tem sido muito cautelosa até agora na cobertura do envolvimento de policiais em crimes, alguns dos quais hediondos, como aprece ser o caso da morte da ex-amante do goleiro Bruno, do Flamengo. Ela não aprofunda a análise das causas da cumplicidade de policiais com o submundo do crime. Mas já está na hora dos repórteres policiais irem mais fundo nesta questão porque ela envolve situações delicadíssimas.


 


A freqüência com que as “maçãs podres” aparecem nos quartéis e delegacias mostra que o problema já alcança a estrutura policial do país. Parece um “câncer” que já está chegando a fase da “metástase”. Reportagens investigativas podem lançar mais luz sobre este problema e dar elementos para que as pessoas possam formar opiniões sem cair em passionalismos, tanto contra como a favor.


 


Este é o tipo de assunto onde a imprensa pode assumir um papel protagônico como defensora do interesse público, já que é todos nós, cidadãos, reconhecemos a necessidade da existência de uma polícia isenta de corruptos, corruptores e matadores de aluguel. A imprensa tem uma oportunidade histórica de recompor a sua interação com os leitores, ouvintes e telespectadores oferecendo informações objetivas para que o publico possa tomar decisões numa questão tão delicada como esta.


 


Em vez de travar uma corrida absurda na exploração dos fatos mais escabrosos de crimes envolvendo policiais e ex-policiais visando pontos de audiência e de vendagem em bancas, a imprensa poderia, e deveria, ver que esta exploração só contribui para destruir ainda mais a imagem da polícia. O que é necessário agora é partir para atitudes propositivas, visando uma cirurgia radical na estrutura das instituições públicas encarregadas da segurança do cidadão.


 


Quase todos os especialistas em questões de segurança afirmam que o êxito no combate ao crime organizado passa pela recomposição da imagem e da credibilidade policial. É dinheiro posto fora quando uma polícia corrupta e criminosa caça delinqüentes. A única diferença passa a ser o uniforme pois a cultura da violência é a mesma. E a imprensa é um fator chave na criação de uma consciência nacional sobre a gravidade da crise na polícia brasileira.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/07/2010 Liga da justiça Bourne

    Eliza Samúdio: Grupo de extermínio!?
    Existe um inspetor de polícia que se prevalecendo abusivamente da condição de parentesco direto com chefe geral da instituição, se intitulava “ O PODER”. E, ainda, ocupava e dirigia de forma, no mínimo, questionável a chefia daquele grupo. Contra ele pesam graves ameaças feitas por ex-integrantes do grupo. todas encaminhadas ao MP e órgão corregedor.Em virtude do respeito a disciplina institucional, somos impedidos de responder publicamente as falsas acusações que o mesmo nos imputa. Entretanto, no foro adequado, de forma legal e legítima, estamos lenta e sofrivelmente, provando nossa inocência. De forma rigorosa e imparcial Os órgãos competentes estão sistemática e meticulosamente trazendo a verdade a tona. Porém não nos furtamos a devida e imprescindível satisfação que a sociedade tem direito. Neste sentido, caso convocados para uma audiência publica, já promovida anteriormente pelo Órgão Legislativo sem nossa convocação, seria com imensa honra e satisfação que prestaríamos, publicamente, às autoridades os esclarecimentos necessários sobre a verdade por trás dos fatos.

  2. Comentou em 19/07/2010 Odracir Silva

    Caro Castilho, ai vai um assunto ‘off topic’, mas tem a ver c/ o seu blog. Se vc nao viu, acho q vale a pena ( http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/769099-conectados-mas-fechados-em-si.shtml ). De uma certa maneira, parece q todos sabemos q isso ee o q realmente rola…

  3. Comentou em 17/07/2010 Jaime Collier Coeli

    Acabar com as atuais forças policiais seria o mesmo que engrossar s fileiras da bandidagem, porque a linha divisoria entre policial e bandido não existe. Os policiais e os bandidos são formados no mesmo estamento socio-cultural, incluindo nesse estamento suas crenças morais e religiosas. Também adiante pouco criar nucleos mais bem pagos. Os rendimentos existentes no crime são atraentes tanto para pessoas mal remuneradas quanto para as bem remuneradas. Nesse ponto entra o crime do colarinho branco. É possivel diagnosticar a existencia de verdadeiros santuarios do crime, locais onde uma ‘etica’ criminosa domina determinada região. Sem duvida esse fenomeno tem origens historicas, do tempo dos ‘capitães de mato’, que o Ribeiro lembrou muito bem.

  4. Comentou em 17/07/2010 Eder Guimarães

    O princípio não está em dar responsabilidade a imprensa de ser o protagonista de defensor público mas sim de rever todas as instituições públicas pela sua nata incompetência de promover a lei como um principio básico para a organização social. A perda de rumo se etabeleu no âmbito mais alto da instituição, o político demagogo e corrupto e a justiça submissa que não pune. Na parte mais baixa da escala temos a escola que não transfere conhecimento sobre às responsabilidades das instituições e principalmente das pessoas que a comandam. A falta de uma formação de cidadãos críticos e cientes de seus direitos abre o abismo para a imoralidade pública. Qual a serventia da lei, quando um político acusado de corrupção encontra na mais alta corte isenção para seu crime? A falta de punição, no legislativo, judiciário e executivo, é que leva o país ao caos social da violência e a perda de confiança nas instituições.

  5. Comentou em 17/07/2010 andré bruno

    Discutir a violência e falta de preparo da polícia como um todo, é
    chover no molhado. A questão é muito mais complexa, e passa em
    minha opinião, pela contratação de policiais com nível superior, com
    salários de no mínimo R$ 8.000,00, demissão sumária de todo o
    quadro policial do país, existência de academias de polícia nos
    moldes das existentes nos EUA, aparelhamento do aparato policial:
    com computadores e sistemas integrados com as policias do pais
    inteiro, viaturas que funcionem e por aí vai.

  6. Comentou em 17/07/2010 Jaime Collier Coeli

    É isso aí, Ribeiro. Acresce que a bandidagem e seu policiamento resultam em um único ‘negocio’. Está fazendo falta um levantamento estatistico dos ‘investimento’ naquilo que pode ser chamado ‘conjunto criminal’ e da relação que estabelece com o PIB. A questão escondida diz respeito à participação do crime no total das rendas nacionais. Talvez já suplante qualqer outro investimento.

  7. Comentou em 17/07/2010 Roberto Ribeiro

    Se nós lermos ‘Memórias de um Sargento de Milícias’ e assistirmos a ‘Tropa de Elite’, escluindo a diferença de gênero literário, veremos que não há grande evolução na nossa polícia. Em ambas as histórias, há uma polícia violenta e justiceira, que só se salva por causa da honestidade pessoal (e mesmo assim dúbia) de seu comandante. Quando a polícia substituiu a milícia e o ‘presídio’ (algo como a guarda municipal de hoje), em meados do século XIX, quase todos os seus homens eram mulatos. E eram mulatos pq a polícia era para tratar de assuntos de não-brancos. O que eles faziam, não interessava aos brancos, como eles faziam, também não interessava. Os crimes da elite branca entre si eram vingados por capangas e jagunços e não eram investigados. A polícia brasileira surgiu para segregar a ‘gentalha’ da ‘gente-bem’. Se a gentalha se matava, era problema deles, se a elite se matava, era um problema interno em que a polícia não se metia. A polícia era acionada quando os dois mundo se tocavam, ou melhor, quando o lado de baixo incomodava. Essa mentalidade só mudou após 1988 e, mesmo assim, parcialmente.

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