Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A imprensa e a naturalidade do mal

Por Luiz Weis em 12/04/2008 | comentários

Dois senhores conversam civilizadamente no balcão do cafezinho. Falam da crise na reserva indígena Raposa Serra do Sol.


 


Às tantas, um deles, sem nem sequer alçar a voz, diz que os americanos é que fizeram a coisa certa.


 


“Mataram todos eles”, explica.


 


“É, sim”, responde o outro. “Mas não pode deixar nem um, porque se não eles voltam a brotar”, adverte, como se falasse de uma erva daninha.


 


O primeiro faz que sim com a cabeça.


 


Despedem-se e cada um toma o seu rumo.


 


Aterrador não foi o fato de duas pessoas bem-educadas, trocando idéias numa manhã de sábado, defenderem a limpeza étnica das Américas, com o genocídio dos povos indígenas do continente.


 


Aterradora foi a naturalidade com que falavam do desejável extermínio.


 


É dessa naturalidade que se fazem os holocaustos: se não os seus perpetradores diretos, os demais que os consideram devidos e necessários são quase sempre “gente como a gente”, levando o que se costuma chamar vida normal, crença em deus incluída.


 


Para além do horror diante da enormidade entreouvida, fica a fascinante questão de como se formam as mentalidades – e como, ao mesmo tempo em que se constituem e consolidam, elas filtram as informações que a mídia transmite sobre os fatos da vida.


 


Às vezes, nem precisa: as informações já chegam filtradas pela própria mídia. É de se perguntar se, no caso da Raposa Serra do Sol, para o qual os cavalheiros do cafezinho já tem a solução final na ponta da língua, a imprensa cobre e comenta com equanimidade as razões e as ações das partes em confronto.


 


Nos conflitos que envolvem grupos com os quais a maioria do público se identifica, por motivos, digamos, naturais, em detrimento dos seus antagonistas, todo o cuidado haverá de ser pouco para que o jornalismo não apresente as posições da outra parte – outra em múltiplos sentidos – de modo a despertar o que a gente como a gente, de tudo quanto é gente, tem de pior.


 


Se a naturalidade do mal já está aí 24 horas por dia, à espera de qualquer pretexto para se externar, que dizer quando, mesmo não se dando conta, muito menos de caso pensado, a imprensa lhe dá alento.


 


Está para nascer o jornalismo capaz de domar os demônios da natureza humana – nem essa é a sua ambição. Mas poucas coisas hão de ser tão fáceis como abrir-lhes a jaula.

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