Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A imprensa e a onda mundial de protestos de rua

Por Carlos Castilho em 04/10/2011 | comentários

Os protestos de rua estão deixando de ser atos isolados de insatisfação para configurarem um novo fenômeno politico a desafiar a cobertura da imprensa. Até Wall Street entrou na moda, depois que manifestantes norte-americanos decidiram acampar nas proximidades da mais importante bolsa de valores do planeta para protestar contra o que classificam de lucros exagerados do sistema bancário da terra do Tio Sam.

 

Os protestos se tornaram rotineiros na Europa por conta da crise grega e das medidas de austeridade impostas por governos como os de Portugal, Espanha e Itália. A França e a Inglaterra também viveram dias difíceis recentemente por conta de manifestações que convulsionaram vários bairros de Paris e Londres.

 

Na América Latina, os estudantes chilenos passaram várias semanas em pé de guerra com a polícia até que o governo conservador do presidente Sebastian Piñera recuou e liberou verbas para a educação. No Brasil, os protestos de rua contra a corrupção começaram insignificantes mas vêm crescendo a cada nova edição, no Rio, São Paulo e Brasília. Até Israel entrou na onda de manifestações para protestar contra a obsessão dos governantes com a segurança nacional e a falta de empenho nas negociações de paz com os países árabes.

 

Tudo isto acontece depois das rebeliões no Egito, Tunísia, Síria e Líbia, no que foi rotulado como "primavera árabe", promovida por jovens que, tanto quanto seus congêneres da Europa e América Latina, dão sinais de que chegaram ao limite da paciência em matéria de busca de emprego e de oportunidades de trabalho.

 

O fator em comum a todos esses protestos, e que não está sendo tratado pela imprensa mundial, é a participação dos jovens em todas as manifestações. A mídia quase sempre contextualiza os protestos no clima político partidário dos respectivos países, mas os depoimentos de estudantes, adolescentes e recém-formados minimizam o fator partidário e ideológico. Para eles, a política é vista como algo negativo.

 

Há uma explicação comum para esses vários protestos: a combinação de desemprego e mesmice politica despertou a impaciência juvenil e, apoiada pela internet, viabilizou um fenômeno que pode estar mudando a conjuntura de muitos países. O desemprego não matou apenas a esperança de independência econômica entre os jovens. Enterrou principalmente a esperança e o futuro. Isso criou a rota mais curta para as ruas e praças, até mesmo em Wall Street.

 

O repórter norte-americano Nicholas Kristoff é uma exceção na imprensa mundial, pois expressou apoio aos responsáveis pela campanha de rua “Ocupem Wall Street”, no seu blog pessoal, no jornal The New York Times. Kristoff é um respeitado correspondente do NYT na África e tem uma coluna permanente no jornal , além do blog sobre países do Terceiro Mundo.

 

O que se nota é que enquanto os grande jornais se mostram perplexos sobre o que está acontecendo nas ruas, os repórteres assumem posições mais independentes — como aconteceu também no caso do jornal inglês The Guardian , quando vários repórteres defenderam posições divergentes nos protestos em Londres, em agosto.

 

O que a imprensa não está vendo é que as ferramentas de comunicação interpessoal na web criram uma espécie de subcultura jovem que não aparece na grande mídia mas se manifesta no Facebook, Twitter, MSN, torpedos e correio eletronico. É essa cultura que permitiu aos jovens árabes atropelar governos estabelecidos há décadas e que eram considerados invulneráveis a protestos populares.
 

O uso das ferramentas de comunicação da web está sendo coberto mais como uma novidade tecnológica do que como um fenômeno politico. Com isso a imprensa perde a perspectiva do fator mais dinâmico nas manifestações, formado pelo pessimsimo e pela falta de perspectivas entre os jovens de culturas muito diferentes como árabes, judeus e gregos, por exemplo. Valores como o voto e a democracia estão perdendo adeptos na geração com menos de 35 anos porque ela acredita mais na participação direta, descentralização e autonomia, diz Yochai Benkler, diretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade, na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

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