Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A imprensa siderada

Por Luiz Weis em 20/01/2009 | comentários

No seu histórico discurso do “Eu tenho um sonho”, de 1963, Martin Luther King falava do dia em que os seus filhos não seriam julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.


A partir de hoje, 20 de janeiro de 2009, a mídia precisa julgar Barack Hussein Obama não mais pela singularidade de sua trajetória, nem tampouco pelos notáveis atributos de sua personalidade pública, mas pelo conteúdo de suas decisões como o governante mais poderoso do mundo.


É improvável que o faça. Decerto não já.


Durante sabe-se lá quanto tempo, uma cordilheira de obstáculos estará no caminho de qualquer projeto sério de cobrir criticamente o presidente Obama. Os motivos são gritantes, a começar da cor de sua pele.


É da tradição americana a imprensa conceder um crédito inicial de confiança aos novos ocupantes da Casa Branca, sob a forma de reportagens e editoriais “corajosamente a favor”, como reza a ironia. São os tais 100 dias de graça – embora, conforme o presidente e as circunstâncias, possam se estender por mais tempo. Foi o que aconteceu com John Kennedy e Ronald Reagan, por exemplo.


Imagine-se então a amplitude do crédito e a relutância da mídia em contabilizar débitos do primeiro presidente negro de um país em que o preconceito, embora não mais a discriminação legal, é uma fratura ainda exposta – como lembrou o próprio Obama no seu superlativo pronunciamento de março passado sobre a questão racial nos Estados Unidos. E como sacou brilhantemente o jornal satírico The Onion (a cebola) ao soltar a seguinte a manchete quando ele se elegeu, em 4 de novembro: “Negro recebe o pior emprego da América”.


A cor é essencial, no caso, mas não é tudo, algo que jornalistas, leitores e tutti quanti estão fartos de saber. O resto – e ponha-se resto nisso – é a pessoa: sua história, suas visões, suas palavras, sua figura pública, sua família, sua cultura… é tudo um deslumbre.

Desde que irrompeu na cena mundial, a imprensa, siderada, esgotou, como diz o lugar-comum, o seu estoque de adjetivos e advérbios para descrever o líder político mais fascinante desde, quem sabe, o jovem Fidel Castro (juízos de valor à parte) e mobilizou pencas de estudiosos das ciências do comportamento e da indústria da comunicação para explicar as razões desse fascínio sem fronteiras.


E se isso ainda fosse pouco, a crise econômica e a tragédia do Oriente Médio fecham o círculo. Até parece que a deterioração da conjuntura internacional fez aumentar as esperanças na capacidade de Obama de transformar o seu país, se não o mundo, colocando a sua liderança carismática a serviço de propostas racionais de reforma econômica e social. E também parece que essas esperanças crescem à medida que ele, antimessias por convicção ou por cálculo diz que as coisas ainda vão piorar antes de melhorar.


Guardadas as enormes diferenças entre as duas situações, a confiança de 79% dos americanos em Obama – o mais alto índice com que um presidente americano assumiu, pelo menos nos últimos 30 anos – lembra o nível da confiança alcançado por George W. Bush quando, depois do 11 de Setembro, ele declarou “guerra ao terror” e mandou invadir o Afeganistão, antes de lançar o seu país no inferno iraquiano e erigir a tortura em política legítima de segurança.


Parte do júbilo em torno de Obama vem de ele ter a sorte monumental de assumir o lugar do mais odioso presidente que os Estados Unidos já tiveram até onde chega a memória.


A torcida mundial por Obama arregimenta uma imensa legião da boa vontade, formando um clima de opinião que inibe o jornalismo crítico. Só faltam dizer que Obama fará o dia nascer.


“A obsessão das pessoas com Obama sempre disse mais delas do que dele”, observa um dos poucos céticos circulando pelas tribunas da imprensa, o correspondente em Nova York do Guardian de Londres, Gary Younge, negro originário de Barbados, escrevendo na revista americana The Nation.


“A maioria [dos não americanos] desejava uma mudança de paradigma na política global, e, incapaz de eleger governos que poderiam lutar por isso, simplesmente transferiu esse papel a Obama. O seu silêncio durante o bombardeio de Gaza, entretanto, acalmou a exaltação de muitos. Como democrata característico, ele encabeça um partido que em qualquer outro país ocidental seria considerado de direita em política externa, de centro em política econômica e de centro-esquerda em política social.”


Além disso, a mainstream media – não no sentido de imprensa convencional, mas de imprensa conservadora mesmo – só esguicha elogios aos nomes pinçados por Obama para a sua equipe. As suas escolhas, especialmente nas áreas de economia, defesa e segurança, dissiparam quaisquer temores de que ele ergueria alto demais, talvez, a bandeira da mudança em que se enrolou para se eleger com a militância e os votos do que a América tem de mais progressista.


Com audíveis suspiros de alívio, jornalões e revistonas – para não falar nos mercadões – celebraram a primazia do “pragmatismo” de Obama sobre o seu “idealismo”. E balançaram a cabeça em sinal de aprovação quando ele convidou para jantar, dias atrás, dois dos mais encardidos colunistas conservadores dos Estados Unidos. Na véspera da posse, ele jantou com o senador McCain.


[Em outro departamento, gostaram também de saber que as filhas de Obama foram matriculadas numa escola particular.]


Ah, o novo secretário do Tesouro, Tim Geithner, deixou de pagar US$ 34 mil em impostos entre 2001 e 2004? Deixa para lá: não foi sonegação, mas um “equívoco inocente”.


Dos grandes nomes da mídia americana de qualidade, aparentemente só a colunista Maureen Dowd, do New York Times – que tem um faro especial para essas coisas, como chamou a atenção do blogueiro o leitor Anthony Knopp – ousou criticar Obama por ele mostrar desde já uma “inquietante despreocupação” em saber se o seu time de sonho é chegado a driblar as regras, “porque, afinal, eles são os melhores e os mais brilhantes, não pessoas comuns’.


Seria o suprassumo da mentalidade espírito de porco desejar que Obama, aconselhado por essa gente cheia de si e de rabo preso com o passado, dê uma pisada no tomate só para que a imprensa hipnotizada mexa os olhos arregalados e trate Obama, com todo o respeito e admiração pelo estupendo triunfo que é a sua vida, como o que afinal se tornou: um político sem dúvida excepcional por qualquer critério (menos o da experiência administrativa) e em qualquer tempo e lugar, mas, ainda assim, um político – e não um redentor da América, de pele escura.


Já faltou o grão de sal no noticiário sobre o modo como ele escolheu marcar a passagem do feriado de Martin Luther King, na segunda-feira (19), pintando paredes de um abrigo para jovens sem-teto em Washington.


Pode perfeitamente bem ter sido um gesto vindo do fundo da alma e de suas convicções sobre a pedagogia do exemplo – e adequado, de mais a mais, à data que os americanos dedicam à importância moral do trabalho voluntário. Mas, fosse outro o presidente, outra também seria, talvez, a reação da imprensa ao espetáculo midiático.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/01/2009 Emerson de Oliveira

    Obama com certeza não é o Messias.. Mas, o maior representante dos excluídos na terrra.
    Criou-se a expectativa de todos nós podemos vencer, assim como foi com o ‘Lulinha paz e amor’.
    Viva os excluídos!

  2. Comentou em 22/01/2009 Rogério Barreto Brasiliense

    Seja qual for o ofício, o negro tem que matar um leão por dia: diarista, biscateiro, cantor de pagode, jogador de futebol, jogador de basquete, corredor, cantor de rap, comediante, cozinheiro, mestre sala e porta-bandeira. Que dizer então do homem que exerce o cargo de presidente dos Estados Unidos da América?
    Se ao longo de seu governo Barack Obama não satisfizer os anseios e necessidades da sociedade americana e mundial, ele será, sim, julgado pela cor de saua pele.
    Certamente Obama não fará o dia nascer, afinal, ele é um homem, com muito poder, mas um homem. Por enquanto ele é o ‘cara’, se falhar será a ‘vadia’ da opinião pública mundial, ou, não sujou na entrada mas sujou na saída.

  3. Comentou em 22/01/2009 laecio almeida

    Vamos esperar o que vai dar!!!
    Mas não podemos esperar parados temos que cuidar da nossa
    revolução!!!

  4. Comentou em 22/01/2009 Ibsen Marques

    Com relação ao poderio econômico, acho que há algum tempo houve mudança nos paradigmas. O que importa não são mais os países, mas as empresas poderosas e, na China, há um enorme contingente de multinacionais norte-americanas enviando mensalmente seus royalties para o tio SAM que, apesar da crise, continua sendo o maior consumidor do mundo.

  5. Comentou em 21/01/2009 Roberto Martins de Abreu

    Engraçado, será realmente que o Barack Hussein Obama é realmente o presidente da ‘Maior Potência do Mundo’,sem querer jogar mas já ir jogando ‘areia na farofa’ dos EUA´s(…),pois digo isso depois de ler a reportagem:’É a vez da China’ da ‘Caros Amigos’,novembro de 2008 e traz na sua capa desse mês uma bela e atraente ilustração da repotagem,onde sob o simbolo Comunista (os velhos e desenferrujados,Foice e o Martelo tudo sobre o tradicional fundo rubro),onde aparecem a foto de um avô e sua netinha que estão sob os dizeres:’O Avô viveu a Revolução. a Neta vai viver no Pais mais Poderoso do Mundo’.Então acho que os caras da ‘Caros Amigos’ tão certos mesmo,pois eles mesmos endossaram a capa quando:’Ventos chineses,afros e latinos-americanos'(p.6),escreveram, que em tempos de crise mundial eles os chineses,nas Olimpiadas (2008) subiram 51 vezes no pódio e nas monumentais construções nunca vista antes (Recordes) e a reportagem se estende dá página,24 à 42 sob o Título:’O Socialismo Não Está Nascente,Mas o Capitalismo Está Em Fase Terminal’.quem arrisca um palpite?

  6. Comentou em 21/01/2009 Marcelo Ramos

    Engraçado, o Obama usou uma frase que foi usada por Lula, quando de sua primeira posse em 2002. Claro, já pensou a imprensa golpista dar destaque ao fato de que o presidente da maior potência do mundo reutilizou a frase de um emergente? A frase é:’A esperança superou o medo’ A propósito do artigo, pessoalmente admiro tanto Obama quanto Fidel, usados como exemplos. Mas aposto que não deve demorar aparecerem reaças de direita acusando o OI de esquerdista. Quem aposta?

  7. Comentou em 21/01/2009 Giovana Alaschi

    Falta tradução para o 1º comentário…

  8. Comentou em 20/01/2009 Vanderson Freizer

    Muita festa… espero que não termine em tristeza.

  9. Comentou em 20/01/2009 Adriana Dornellas

    ‘…ainda assim, um político- e não um redentor da América,de pele escura.’
    Cuidemos dessa expectativa, pois há muito mais confete nessa festa do que deveria(resultado da fome de referência).Muito antes de sua cor ou raízes está um homem que, por mérito ou carma, encarna neste momento a figura mais frágil ( por ser a mais visada)de uma sociedade fadada ao fim com seu extremo consumismo…e nós, o resto, estamos no vácuo.Atenção camaradinhas,atenção!

  10. Comentou em 20/01/2009 Ibsen Marques

    ‘celebraram a primazia do “pragmatismo” de Obama sobre o seu “idealismo”.’. Já vi esse filme antes. Num determinado país americano elegeu-se um presidente na tentativa de quebrar paradigmas. Ele jantou e se reuniu com seu antecessor várias vezes, fez acordos políticos com um certo coronelismo nordestino (Sarney) e a nata da corrupção (Collor, Quércia etc) ; obteve desde logo apoio da indústria e do sistema financeiro e substituiu seu idealismo por um pragmatismo bem capitalista.!!!!!

  11. Comentou em 20/01/2009 André Silva

    Concordo com as observações. Sem demérito pela história e trajetória política (sem esquecer, toda sorte de estratégias deliberadas de construção de sua imagem, vide suas ‘autobiografias’), a vitória do candidato afro-americano tem muito mais significado simbólico, do que mudança política e econômica (a escolha de sua equipe demonstra isso). No entanto, por menor que seja a mudança de rumo em relação à Bush, já será um grande avanço.
    Guardada todas as devidas proporções, a eleição de Hussein Obama, lembra muito a eleição dos últimos presidentes da maioria dos países sulamericanos. Isso talvez possa revelar um descrédito popular generalizado da condução político-econômica neoliberal do planeta. Daí a uma efetiva mudança há muita distância. Felicitações pelo artigo.

  12. Comentou em 20/01/2009 tony knopp

    … it has been noted – now we shall wait and see – me thinks that the wait shall not be long – well stated

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