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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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A internet acelera a midiatização da vida política

Por Carlos Castilho em 11/05/2008 | comentários

O fortalecimento da pré-canditatura de Barack Obama na campanha eleitoral para a sucessão do presidente George W. Bush está prestes a se tornar um marco na história da política mundial porque o senador democrata usou intensivamente a internet como ferramenta para conquistar adeptos.


 


Em matérias de eleições primárias nos Estados Unidos, esta é a primeira vez que canais de comunicação online  como o YouTube (vídeos), weblogs (textos), podcasts (áudio), telefones celulares e os sistemas interativos (comunidades virtuais, listas de discussão, fóruns e correio eletrônico) conseguem criar um fenômeno político capaz de neutralizar a influência eleitoral da mídia convencional, majoritariamente simpática à senadora Hillary Clinton.


 


Mas a ascensão da internet como ferramenta eleitoral  não representa apenas o surgimento de mais um canal de  comunicação política. Trata-se da consolidação do fenômeno chamado de midiatização da política, que a maioria dos eleitores ainda não detectou, mas que já é estudado há tempos pelos cientistas políticos e pelos comunicólogos.


 


A entrada para valer da internet nos processos eleitorais vai acelerar enormemente a velocidade da migração da política em direção ao palco planetário da mídia porque a rede mundial de computadores está viabilizando a entrada em cena de novos atores anteriormente marginalizados por falta de opções para expressar suas necessidades e demandas.


 


O processo de midiatização da política já vinha num ritmo veloz por conta da adesão dos partidos, governos e grupos de interesse às performances formatadas especificamente para os veículos de comunicação.  A política convencional está deixando os recintos fechados das assembléias legislativas, câmaras de vereadores, parlamentos nacionais, tribunais e dos poderes executivos em todos os níveis para ser praticada prioritariamente diante de câmeras, microfones, repórteres e formadores de opinião.


 


Esta semana chegou às minhas mãos um texto produzido pelo sociólogo espanhol radicado nos Estados Unidos, Manuel Castells, no qual ele mostra como a internet viabiliza o surgimento de contra-poderes ao gerar visibilidade de grupos situados fora da política convencional e prevê que isto vai provocar um salto gigantesco na consolidação do espaço comunicacional no exercício da cidadania.


 


O artigo Communication, Power and Counter-Power in the Network Society (Comunicação, Poder e contra-Poder na Sociedade em Rede) foi publicado no ano passado, antes do surgimento do fenômeno midiático Barack Obama. O trabalho já identificava as razões pelas quais a política convencional entrou em processo de rápida agonia.


 


O final da Guerra Fria e o processo de globalização reduziram dramaticamente as diferenças ideológicas entre os grandes partidos tradicionais. A conseqüência foi uma pasteurização de propostas eleitorais, cuja repetição e monotonia acabou gerando um desinteresse e apatia crescentes dos eleitores.


 


Para tentar uma diferenciação mínima capaz atrair adeptos, os partidos e os políticos passaram a usar a arma das denúncias de corrupção, abuso do poder e trafico de influência. O que parecia o início de um processo de depuração, acabou se transformando num espetáculo de retaliações mútuas, totalmente voltado para a mídia.


 


É neste contexto que Castells situa o surgimento de contra-poderes políticos, que na falta de estruturas adequadas para debate, jogam-se também na arena da mídia, usando a internet como ferramenta. Os fóruns, comunidades virtuais, listas de discussão e o correio eletrônico, por enquanto, são o estuário de frustrações, queixas e desabafos, de todos os tipos, mas já começam a se esboçar uma tendência a funcionarem também como mural de propostas. 


 


Somando tudo isto, chega-se facilmente à conclusão de que, se a imprensa já era um elementos importantíssimo do jogo político, ela tende a ter um papel ainda mais importante, porque o nosso destino não será mais decidido pelos poderes executivos, judiciário e legislativo, mas sim nas páginas de jornais, programas de televisão, de rádio, monitores de computadores e telefones celulares. Os três poderes serão meros certificadores daquilo que ficou decidido na mídia.


 


Daí mais algumas constatações:


1)     A observação e leitura crítica da mídia serão ainda mais importantes do que hoje. Serão simplesmente essenciais à sobrevivência da democracia.


2)     Os cientistas políticos terão que dar urgência urgentíssima aos estudos sobre como se formam as percepções, valores e atitudes nesta nova ecologia política que está se formando em torno da mídia.


3)     E finalmente, a mídia, incluindo a imprensa, inevitavelmente tenderá a perder sua estrutura corporativa empresarial para assumir um caráter público, como uma decorrência da sua nova função no processo democrático.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/05/2008 Carlos d´Andrea

    Enquanto isso, aqui no Brasil, o TSE impõe uma série de restrições para a campanha e manifestações políticas nas próximas eleições…

  2. Comentou em 15/05/2008 Marcio Araujo de A. Braga

    Concordo completamente com o José de Almeida Bispo. Além disso, duvido muito que ‘Os três poderes serão meros certificadores daquilo que ficou decidido na mídia’.
    A velha ‘mass mídia’ ajudou muito os detentores do poder econômico à aumentarem seu domínio na política já apartir da disseminação do rádio (anos 30), depois com a disseminação da TV (anos 60) e agora com a Internet não será diferente, apesar de esta mídia ser interativa.
    Mas esperemos que o autor esteja certo, mesmo parcialmente, e que nas próximas décadas as populações carentes, mas com acesso à Internet, se organizem e reivindiquem mais, precionem mais seus representantes. Quiçá possam ver o saldo bancário de cada candidato e possam, pela Internet, votar no menos pior.

  3. Comentou em 14/05/2008 Jose de Almeida Bispo

    Quanto às suas constatações, caro Castilho, quero discordar um pouco em relação à terceira. Não tenho assim tantas ilusões. Acredito que está havendo uma revolução, sim; porém, como depois de todas as revoluções há a tendência dos poderes, na sua forma clássica reassumirem o controle. Daí porque Lula só um; e o único. Quanto às observações relativas à rede no âmbito americano, acho que ela foi mais incisiva em romper o modelo aqui, debaixo dos nossos narizes. Mas não nos iludamos; mesmo que uma das mais conservadoras, talvez reacionária, das justiças do mundo não decrete sua ilegalidade no que concerne à liberdade de expressão, o próprio consumidor de fatos tratará de reduzir os encrenqueiros às suas patotas, quase marginais. Porém, que mesmo assim sairemos no lucro, isso é inegável. Como numa espiral, sempre voltamos ao mesmo ponto, porém um degrauzinho acima.

  4. Comentou em 13/05/2008 Marco Maschio

    Acho que o comentário do Fábio levanta uma questão interessante. Devemos usar a rede para lamentar menos e discutir propostas, mas temos que ficar de olho em Brasília porque estão querendo limitar o uso da rede nas campanhas eleitorais. Parece que os Poderes da República estão preocupados apenas com seus umbigos, porém este fenômeno americano eles perceberam rapidinho.

  5. Comentou em 13/05/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Enquanto isto, o Judiciário de tupinolância quer proibir, limitar, restringir e censurar o uso político e eleitoral da Internet. Este país é um circo e os maiores palhaços usam toga e estão em Brasília.

  6. Comentou em 13/05/2008 Sócrates Santana

    Estava preparando um artigo que aponta nesta direção. Não tão radical, mas, certamente bastante empolgado com essa possibilidade da pauta política ocupar mais espaço na pauta pública das pessoas nas ruas. Isso é importante para avançarmos na produção de uma democracia que não é simplesmente representativa, mas participatico e quem sabe substantiva por ser opinativa e propositiva. Parabéns pela indicação de Castells.

  7. Comentou em 12/05/2008 fred souza

    até que emfim alguem, revista época, resolveu peitar e denunciar o senador marconi perillo.
    Todo mundo aqui em Goiânia sabe que o cara é o maior ladrão mas ninguem faz e fala nada… nem a imprensa fala algo.

    Vigia isso ai!

    Valeu!

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