Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A internet acelera a midiatização da vida política

Por Carlos Castilho em 11/05/2008 | comentários

O fortalecimento da pré-canditatura de Barack Obama na campanha eleitoral para a sucessão do presidente George W. Bush está prestes a se tornar um marco na história da política mundial porque o senador democrata usou intensivamente a internet como ferramenta para conquistar adeptos.


 


Em matérias de eleições primárias nos Estados Unidos, esta é a primeira vez que canais de comunicação online  como o YouTube (vídeos), weblogs (textos), podcasts (áudio), telefones celulares e os sistemas interativos (comunidades virtuais, listas de discussão, fóruns e correio eletrônico) conseguem criar um fenômeno político capaz de neutralizar a influência eleitoral da mídia convencional, majoritariamente simpática à senadora Hillary Clinton.


 


Mas a ascensão da internet como ferramenta eleitoral  não representa apenas o surgimento de mais um canal de  comunicação política. Trata-se da consolidação do fenômeno chamado de midiatização da política, que a maioria dos eleitores ainda não detectou, mas que já é estudado há tempos pelos cientistas políticos e pelos comunicólogos.


 


A entrada para valer da internet nos processos eleitorais vai acelerar enormemente a velocidade da migração da política em direção ao palco planetário da mídia porque a rede mundial de computadores está viabilizando a entrada em cena de novos atores anteriormente marginalizados por falta de opções para expressar suas necessidades e demandas.


 


O processo de midiatização da política já vinha num ritmo veloz por conta da adesão dos partidos, governos e grupos de interesse às performances formatadas especificamente para os veículos de comunicação.  A política convencional está deixando os recintos fechados das assembléias legislativas, câmaras de vereadores, parlamentos nacionais, tribunais e dos poderes executivos em todos os níveis para ser praticada prioritariamente diante de câmeras, microfones, repórteres e formadores de opinião.


 


Esta semana chegou às minhas mãos um texto produzido pelo sociólogo espanhol radicado nos Estados Unidos, Manuel Castells, no qual ele mostra como a internet viabiliza o surgimento de contra-poderes ao gerar visibilidade de grupos situados fora da política convencional e prevê que isto vai provocar um salto gigantesco na consolidação do espaço comunicacional no exercício da cidadania.


 


O artigo Communication, Power and Counter-Power in the Network Society (Comunicação, Poder e contra-Poder na Sociedade em Rede) foi publicado no ano passado, antes do surgimento do fenômeno midiático Barack Obama. O trabalho já identificava as razões pelas quais a política convencional entrou em processo de rápida agonia.


 


O final da Guerra Fria e o processo de globalização reduziram dramaticamente as diferenças ideológicas entre os grandes partidos tradicionais. A conseqüência foi uma pasteurização de propostas eleitorais, cuja repetição e monotonia acabou gerando um desinteresse e apatia crescentes dos eleitores.


 


Para tentar uma diferenciação mínima capaz atrair adeptos, os partidos e os políticos passaram a usar a arma das denúncias de corrupção, abuso do poder e trafico de influência. O que parecia o início de um processo de depuração, acabou se transformando num espetáculo de retaliações mútuas, totalmente voltado para a mídia.


 


É neste contexto que Castells situa o surgimento de contra-poderes políticos, que na falta de estruturas adequadas para debate, jogam-se também na arena da mídia, usando a internet como ferramenta. Os fóruns, comunidades virtuais, listas de discussão e o correio eletrônico, por enquanto, são o estuário de frustrações, queixas e desabafos, de todos os tipos, mas já começam a se esboçar uma tendência a funcionarem também como mural de propostas. 


 


Somando tudo isto, chega-se facilmente à conclusão de que, se a imprensa já era um elementos importantíssimo do jogo político, ela tende a ter um papel ainda mais importante, porque o nosso destino não será mais decidido pelos poderes executivos, judiciário e legislativo, mas sim nas páginas de jornais, programas de televisão, de rádio, monitores de computadores e telefones celulares. Os três poderes serão meros certificadores daquilo que ficou decidido na mídia.


 


Daí mais algumas constatações:


1)     A observação e leitura crítica da mídia serão ainda mais importantes do que hoje. Serão simplesmente essenciais à sobrevivência da democracia.


2)     Os cientistas políticos terão que dar urgência urgentíssima aos estudos sobre como se formam as percepções, valores e atitudes nesta nova ecologia política que está se formando em torno da mídia.


3)     E finalmente, a mídia, incluindo a imprensa, inevitavelmente tenderá a perder sua estrutura corporativa empresarial para assumir um caráter público, como uma decorrência da sua nova função no processo democrático.

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