Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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A internet entre os oligopólios e os nichos

Por Carlos Castilho em 19/11/2010 | comentários

Pouco mais de uma década depois de alimentar esperanças e utopias, a rede mundial de computadores está entrando numa fase sombria que será marcada por uma guerra implacável entre grandes empresas e um esforço hercúleo de iniciativas locais e hiperlocais para obter sustentabilidade financeira.


Esta foi a impressão dominante entre os participantes da sétima Conferência Web 2.0, criada em 2004 e considerada o principal termômetro de tendências na internet.  Para os veteranos da web, entre eles Tim O’Reilly, criador da conferência,  a possibilidade de uma guinada radical na web tornou-se assustadoramente presente.


A conseqüência mais mencionada na web 2.0 é uma previsível redução no ritmo da inovação e uma ênfase maior na competição feroz, quando o crescimento das grandes empresas será feito mais à base da compra de empresas menores do que na criatividade interna.


A guinada seria materializada por consolidação de duas tendências:


1)   Uma concorrência brutal entre os gigantes da web como Google, Facebook,  Apple, Microsoft e Amazon pelo controle cada vez maior de serviços, formando oligopólios cada vez mais poderosos. A tendência está confirmada pelo contínuo expansionismo de empresas como a Google, Facebook e Apple em direção a segmentos como webTV, telefonia celular, internet móvel, vídeos por encomenda e comércio eletrônico. 


 


2)   O aumento da segmentação de iniciativas de pequenos e médios empreendedores e criadores visando a exploração de nichos de consumidores e público em geral  por meio da publicidade boca a boca.


São duas estratégias bem diferentes e usando métodos opostos. Enquanto as grandes empresas usam o seu peso político e econômico para disputar posições hegemônicas cientes de que não podem deixar  espaços para concorrentes,  o segmento dos nichos usa a colaboração e a descentralização para desenvolver serviços que muito provavelmente acabarão sendo comprados pelos grandes, numa versão digital do canibalismo corporativo do final do século 20.


Há elementos interessantes nesta competição entre os oligopólios e os nichos. Na guerra entre as grandes empresas não há espaço para acordos, pelo menos por enquanto. Google, Facebook e Apple estão movidas pela lógica da concentração porque seus projetos corporativos estão associados à convergência de serviços. 


É cada vez mais difícil separar áreas como telefonia, mensagens, dados e vídeo.  Quem domina uma área  é levado a dominar também as outras porque deixar espaços para a concorrência significa permitir brechas que poderão ser exploradas pelos adversários, já que a lógica da convergência empurra todas as grandes empresas da web para a mesma direção.


Na era do capitalismo analógico e industrial era possível dividir mercados para evitar uma guerra comercial, mas na era da digitalização e da informação esta repartição é improvável porque teria que se basear na colaboração, e não em meros acordos de não agressão. Está na cara que vai ser muito difícil a Google colaborar com a Apple em qualquer área da web.


Por seu lado, os pequenos empreendedores têm diante de si duas possibilidades: o desenvolvimento independente, o que significa apostar na colaboração e cooperação; ou trabalhar isoladamente esperando ser comprados por alguma grande empresa, como tem acontecido com freqüência cada vez maior.


É obvio que prever um desenlace é coisa para bola de cristal. Mas há uma pequena grande diferença no quadro atual, se comparado com o predominante no século passado, antes da revolução tecnológica.  A possibilidade dos pequenos criarem redes colaborativas para desenvolverem projetos é muito maior do que no passado, porque a internet permite a integração de mercados.  A diferença pode vir por aí. É a grande esperança de que não tenhamos mais do mesmo na era digital.


A mesma análise aplica-se ao setor da imprensa online, com a crescente concorrência entre os grandes grupos midiáticos, como já acontece na Europa e Estados Unidos, por um lado, enquanto do outro multiplicam-se os blogs e projetos  comunitários baseados na produção colaborativa de informações.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/11/2010 Ibsen Marques

    Na internet não há espaço para oligopólio? Pergunto: se você quer buscar um serviço ou um site do qual você não sabe o endereço, o que você faz? Respondo: http://www.google.com. Se essa não foi sua resposta, pode crer que ela é a de 90% dos internautas brasileiros. As redes sociais idem. Os sites de vendas estão cada vez mais concentradas (estou falando do grande volume). A questão não é controle, é dominação. Os Oligopólios não controlam, eles dominam o grande volume comercial e de informação da Web, além dos serviços de tecnologia. O Castilho falou dos nichos. Eles só são explorados pelos pequenos enquanto nichos. Se começarem a crescer serão abocanhados pelos famintos oligopólios. Foi assim com o hotmail, sites de busca etc etc. A concentração é inevitável. Eu já falava dela quando o Castilho acreditava na pluralidade da Web. Além do mais, para o usuário ela opera como a TV no seguinte sentido: O usuário tem um determinado perfil. Ele busca então, na web, coisas que a TV certamente não oferece, mas ficará sempre restrito aos seus interesses, na maior parte das vezes não procurarão obter informação e conhecimento do que lhe é diverso, da opinião contrária. Nesse sentido continuará como na TV. A TV não oferece diversidade e na Web o internauta não a busca. É o próprio slogan: Na internet você pode ver somente o que quer. Quer dizer, vai buscar sempre o mesmo do mesmo

  2. Comentou em 22/11/2010 Paulo Batista

    Ótimo ponto apontado pelo Roberto Faria.

    E isso me parece mais do velho papo dos que não se conformam que
    os consumidores escolham livremente meios que não lhes agradam.

    Se dizer ‘contra os nichos’ é mesmo que ‘a favor da uniformização da
    sociedade’. A competição é essencial, só os defensores do
    pensamento único não gostam. A sociedade é heterogênea, os
    indivíduos pensam diferentemente, e é necessário que, pela
    competição, apareçam opções (nichos) que agradem uns ou outros.

  3. Comentou em 21/11/2010 Roberto Faria

    Discordo. Acho que você está encarando a internet como se fosse TV.
    Na internet não existe essa possibilidade de controle. Por mais que
    atuem na ponta, os oligopólios podem ser deixados de lado (e são) pelos
    internautas.

  4. Comentou em 20/11/2010 Roberto Ribeiro

    Isso parece muito com o cenário descrito por Marx quando ele fala da mais-valia relativa e a mais-valia absoluta. Quando há uma inovação tecnológica, as empresas lucram pela mais-valia relativa, pois fornecem produtos a custo baixo e com alto lucro. Com o tempo, o lucro relativo diminui e é necessário fornecer mercadorias em grande quantidade, obtendo pouco lucro por unidade, se estabelecendo a competição pela mais-valia absoluta. §§A Microsoft, a Google, etc. lucraram muito com a inovação, porém a inovação tem limites, não se pode inovar para sempre. Agora a luta se estabelecerá pelo volume de serviços e mercadorias, com lucros cada vez menores por unidade e por consumidor. Não penso que isso esteja fora da lógica do capitalismo em geral.

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