Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
Menu

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A jovem mídia e os mamutes de papel

Por Luiz Weis em 23/04/2008 | comentários

Embora um tanto devagar para os padrões do ofício, aos poucos a imprensa brasileira começa a expôr ao grande público os dilemas existenciais – nesse caso o chavão procede – que em toda parte passaram a assombrar o jornalismo desde o fim dos tempos dourados em que era reverenciado como o Quarto Poder das democracias.


Esses dilemas, aliás, embutem um paradoxo. Enquanto, de diversas formas, ela mesma se tornava inseparável dos acontecimentos e protagonistas que promove à condição de notícia – incorporando-se, portanto, aos poderes que competem entre si nas “sociedades da informação”–, a chamada mídia convencional foi tomada por uma crise de identidade da qual não sabe como, ou se, sairá.


No Brasil, o leitor comum conhece apenas pela rama o que provocou e no que pode dar a crise: nossos jornais, numa mistura de insegurança e soberba, nem sequer têm editorias de mídia como as dos congêneres americanos e europeus, que seguem e comentam o desempenho do setor no dia-a-dia, indo muito além da cobertura – cada vez mais importante, é verdade – dos negócios desse oligopólio em que a atividade se transformou.


Ainda assim, vão pingando nos diários brasileiros, já menos raramente, textos sobre o impacto da internet para o jornalismo tal qual o entendemos – um aspecto central, mas decerto não exclusivo, da sua crise. Na teoria, a jovem mídia, com os seus opulentos espaços abertos a todos, inaugura o reino da liberdade na comunicação social, em contraste com as restrições elitistas dos mamutes de papel.


À parte o deslumbramento e a simplificação, tamanha é a riqueza do assunto que é uma pena que só os frequentadores de sites e blogs especializados tenham tido acesso, no Brasil, ao que de melhor se escreveu a respeito nos últimos tempos – o caudaloso artigo de Eric Alterman, em recente edição da revista New Yorker, intitulado, em tradução livre, “Fora de circulação”, com o sub-título irônico “A morte e a vida do jornal americano”.


[Ver ‘O relógio e o calendário‘ e ‘A sobrevivência dos jornais impressos‘]


Um dos seus achados foi o de remeter o leitor ao debate de idéias que antecipou, já nos anos 1920, as diferenças de visão entre o jornalismo impresso e o que viria contestá-lo. Os debatedores foram dois notáveis intelectuais americanos de seu tempo, o pensador político e precursor dos estudos de mídia Walter Lippmann (1889-1974) e o filosófo e educador John Dewey (1859-1952).


No clássico “Opinião pública”, de 1922, o cético Lippmann sustentava que, nas complexas sociedades contemporâneas, a democracia pede mais das pessoas do que elas podem dar: decisões (eleitorais, entre outras) baseadas em conhecimentos firmes sobre as questões de interesse comum que as afetam. E isso porque a imprensa, da qual dependem, é a primeira a não dar conta do recado.


Ele dizia que as populações só se interessam pelos acontecimentos quando a mídia os trata, melodramaticamente, como conflitos. E que o jornalismo não conseguirá resolver o problema do déficit de informação – e de atenção – do homem da rua, apenas ocupando-o com os eventos por 30 minutos a cada 24 horas. Nessas condições, considerava inepta a imprensa e praticamente irrelevante o debate público dos assuntos correntes.


Quem sabe, um dia, com as redações dirigidas por profissionais cada vez mais bem educados e cada vez menos dependentes dos grupos de pressão, especulava, uma elite jornalística poderia suprir as inevitáveis lacunas dos leitores. Mas as relações deles com os seus “provedores de conteúdo”, na intragável expressão agora em voga, seriam mínimas, e o seu papel, puramente passivo.


Dewey, o otimista, respondeu em 1927 com “O público e os seus problemas”. Sem contestar as teses de Lippmann sobre as limitações do jornalismo e o seu potencial para manipular o povo, ele acreditava que a informação recebida era menos importante, para a boa decisão, do que a compreensão dos temas em jogo, a partir do compartilhamento de experiências vividas.


Ficou famosa a sua analogia: “O homem que calça o sapato é quem sabe onde o aperta, embora o calçadista competente seja quem saiba como eliminar o incômodo.” Esse o princípio implícito no credo do ativismo dos não-jornalistas na internet. Para eles, contra os iluminados que escolhem o que é notícia e pretendem formar a opinião alheia sobre ela, o advento da internet ofereceria uma alternativa emancipadora.


Diante das questões do momento, se constituiriam comunidades virtuais em que todos seriam igualmente fornecedores, receptores e debatedores de informações, para, por exemplo, apontar aos governantes os caminhos a seguir e a evitar. Mais ou menos como fazem os editoriais da imprensa, porém com a legitimidade incomparavelmente maior nascida do intercâmbio democrático de fatos e idéias entre legiões de internautas.


A consigna um tanto pedante disso é “criar uma narrativa capaz de se contrapôr ao discurso da mídia convencional” – presumivelmente monolítica na maneira de abordar o mundo, ainda que não ao traduzi-lo. A pergunta óbvia, de todo modo, é se querer é saber. Como apurar, comprovar e interpretar eventos distantes do âmbito dos conhecimentos e da experiência imediata de cada um? E esse, afinal, é o miolo de toda “narrativa” jornalística.


A diferença entre o jornalista profissional e o jornalista-cidadão – ou, por outra, entre as formulações de Lippmann e de Dewey – é que aquele foi treinado para observar, conferir, relatar e buscar explicações para os fatos. “A vasta maioria dos repórteres e editores dedicou anos, às vezes décadas, para entender os temas de suas matérias”, escreve Eric Alterman, que não se distingue propriamente pela condescendência com a profissão.


Além disso, a imprensa de qualidade de há muito adotou procedimentos de certificação de seu material, simplesmente fora do alcance do mais íntegro blogueiro individual. E, se mesmo assim, os jornais erram – e como erram! – imagine-se a alternativa.


Publicado também no Estado de S.Paulo de hoje.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/04/2008 Marco Antônio Leite

    Dona Carolina, saio do tema principal e, passo para uma palavra escrita no seu comentário. O médico não diz ser ‘DEUS’, o povo é que distorce a função tão nobre, isto porque quando o doente é curado foi ‘DEUS’ que derramou as bênçãos sobre ele, mas quando o doente morre, foi o médico que o matou. É ou não É?

  2. Comentou em 24/04/2008 Carolina Peres

    Ótimo! As coisas passam, a vida evolui e o velho sai de cena para dar lugar ao moderno, inovador. Sim, essa é uma máxima verdadeira. No entanto, também é verdade que o presente e o futuro são consequências de um passado.
    Cadê os homens que lutaram pelo jornalismo desde o início da Revolução Francesa, quando ele ainda era planfeto? Cadê Paulo Patarra? Deve estar se revirando no túmulo ao saber que sua paixão está sendo banalizada.
    Imcompetência! Pois sou adepta a internet, mas não abro mão de ler um jornal, embora só encontre marketing nele.
    Sinto o sangue dos que lutaram por essa profissão. E, já que diz o ditado: Médico acha que é Deus e jornalista tem certeza, está na hora de operar milagres e trazer de volta a beleza, honestidade e idenaidade da nossa profissão, futara minha.

  3. Comentou em 24/04/2008 Marco Antônio Leite

    Aqui JAZ a senhora imprensa. Ela faleceu de incompetência congênita, de fofo-quite aguda da língua e da falta de cérebro inteligente para superar a morte prematura e prevista após o surgimento de outros meios de comunicação, que faz a ponte direta entre a notícia e o leitor. Resta-nos levar flores no jazigo da falecida, que um dia fez muito sucesso entre os leitores de mídia de papel, a qual não servia só para ler, mas também para embrulhar peixes e outras coisas mais?

  4. Comentou em 24/04/2008 Roberto Ribeiro

    Realmente, quem não é jornalista é burro, é incapaz de analisar, pois é um bestalhão tipo Homer Simpson. Um cientista não é treinado para investigar, observar, conferir, relatar e buscar explicações para os fatos? Por que ele não pode publicar para o público leigo? Porque o público leigo é idiota e precisa de tradutores, enquanto o cientista é um arrogante que não sabe falar a língua do povo, responderão nossos jornalistas diplomados. Será que os jornalistas têm o monopólio do bom-senso?

    Por que é preciso estudar quatro anos para botar um microfone na cara de um jogador de futebol e dizer: ‘você acha que vai dar pra ganhar o jogo?’, ou ficar na porta de um prédio em chamas e perguntar ‘como o senhor se sente vendo sua família presa num prédio em chamas e prestes a morrer?’

    Assis Chateaubriand dizia que quem quisesse ter opinião que comprasse um jornal (uma empresa jornalística, não um papel impresso). É essa ‘liberade de expressão’ que queremos?

    Além do mais, a Internet permite discutir coisas que não interessam à grande imprensa. Se em um boteco as pessoas comentam sobre a vida alheia, são uma ‘midia independente’ que deve ser regulamentada? Se em um blog alguém publica notícias sobre o Esperanto, deveria ser vigiado por um jornalista? As mídias alternativas, como rádios comunitárias, permitem ‘pequenas’ notícias de circularem. Isso é liberdade de expressão

  5. Comentou em 23/04/2008 Sérgio Troncoso

    Em qualquer profissão,o traquejo,a experiência,sempre ajudam a dar a forma correta à qualquer trabalho.Mas jornalismo é disciplina referente às ciências humanas e observar,conferir,relatar e buscar explicações para os fatos,são procedimentos de sabedoria de vida antes de mais nada.Muitos,mesmo dentro de redações de jornais,jamais os aprenderão,e olha que eu estou me referindo apenas aos puros de caráter.

  6. Comentou em 23/04/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    ‘…a imprensa de qualidade de há muito adotou procedimentos de certificação de seu material, simplesmente fora do alcance do mais íntegro blogueiro individual. E, se mesmo assim, os jornais erram – e como erram! – imagine-se a alternativa.’ Você até que ia bem, mas da forma que finalizou seu texto parece que não captou a verdadeira natureza benéfica das inovações. Os erros cometidos pelos jornais escritos sempre foram potencialmente mais danosos pois eram mídias UNIDIRECIONAIS e atingiam PÚBLICOS MASSIFICADOS. Os blogs erram, mas seus erros são minimizados pelo fato de serem MULTIDIRECIONAIS e obrigados a COMPETIR PELA ATENÇÃO dos internautas com milhares de outros blogs (donde seus erros podem ser rapidamente corrigidos, debatidos e mesmo confrontados). HITLER chegou ao poder através dos jornais e rádios tradicionais, unidirecionais e massificantes. Chegaria ao poder com a Internet? I dont think so!

  7. Comentou em 23/04/2008 Leonardo Carvalho

    Não estará o autor então propondo ‘jogar fora a criança com a água do banho’? As novas ferramentas existem e sua penetração junto ao público é inexorável. Convém discutir o uso que a população faz delas – entre esses usos, o de transmissão, e discussão de informações que são relevantes a cada público – ou convém discutir o uso medíocre que a mídia tradicional vem fazendo dessas mesmas ferramentas? Desde 1997, quando iniciei pela primeira vez o curso de jornalismo, sinto na grande imprensa temor – aliado a uma apática letargia – diante dos novos meios. A resposta para os caminhos da comunicação social em tempos de informação instantânea e democrática não deve vir dos próprios profissionais? Onde está o debate, como tão bem coloca o autor? Restrito à academia, longe do público, que diante da falta de alternativas ou de promessas de resposta satisfatória, sai em busca ele mesmo de suas respostas.

  8. Comentou em 23/04/2008 Rogério Gianlorenzo

    Apenas para aproveitar a discussão sobre os dilemas existenciais da imprensa que este seu artigo faz, quero registrar a satisfação que tive hoje ao ler a matéria, na Folha de S.Paulo, sobre a sabatina com Ciro Gomes, promovida pela mesma Folha, e outra matéria tratando do mesmo tema, menor é verdade, no Estado de S.Paulo. É uma sensação no mínimo prazerosa ler em um jornal o nome de outro, mencionado de forma positiva. Que bom seria se isso fosse uma frequência, inclusive entre os canais de TV, que aliás costumam (leia-se Globo e Record) muito mais se atacarem do que qualquer outra coisa.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem