Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A lógica da concentração de informações na web dos países ricos

Por Carlos Castilho em 02/02/2008 | comentários

O leitor Odracir Silva comentou há dias aqui no Código o fato de que escrevo mais sobre temas internacionais, em especial nos Estados Unidos, do que sobre questões nacionais. O leitor tem razão e venho pensando sobre isto já há algum tempo.


 


Não é uma justificativa, mas uma constatação. O desequilíbrio no fluxo de informações, que já era grande no período pré-internet, ao que tudo indica, tornou-se ainda maior depois que a rede mundial de computadores incorporou-se ao nosso dia a dia.


 


Antes da internet, as notícias estavam concentradas nas mãos de um reduzido número de impérios jornalísticos que eram responsabilizados pela desigualdade na oferta de material informativo, pois era, e ainda é, notória a prioridade para material oriundo de países industrializados.


 


Hoje, a descentralização avança velozmente graças a democratização das ferramentas de circulação e publicação de notícias, como os weblogs, para citar o exemplo mais popular. Mas nem por isto, a desigualdade diminuiu. Pelo contrário, parece ter aumentado ainda mais.


 


O que tenho observado, por conta do monitoramento diário dos sites que lidam com informações sobre a mídia, é que a maioria esmagadora deles está concentrada nos Estados Unidos. Isto, de certa maneira, é coerente com o fato de 1,4 bilhão, dos 2,7 bilhões de domínios (endereços) da Web, estarem registrados nos Estados Unidos, segundo o site Domain Tools, baseado em dados do consórcio ICANN, responsável pelo gerenciamento de endereços virtuais em todo mundo.


 


Paradoxalmente, os norte-americanos não são majoritários na Internet[1] em termos absolutos. Os países asiáticos, especialmente China (162 milhões), Japão (87,5 milhões) , India (80 milhões) e Coréia (34,4 milhões), tem quase meio bilhão de usuários da rede, enquanto na América do Norte (Estados Unidos e Canadá), o total é de 238 milhões de usuários (215 milhões só nos EUA), menor ainda que na Europa (348 milhões), segundo o site Internet World Stats.


 


Isto mostra que os norte-americanos têm apenas 19% dos usuários da Internet no mundo, mas controlam pouco mais de 50% dos sites na Web, que é onde estão as principais páginas noticiosas (weblogs, fotologs, vídeos e portais jornalísticos) por meio das quais flui a informação consumida pelos internautas do planeta.


 


Enquanto isto, a América do Sul tem apenas 7% do total mundial, com seus 96 milhões de usuários da internet dos quais 42,6 milhões (46% do total regional) são brasileiros. Na Web, a presença brasileira é calculada em 23,4 milhões de domínios, ou seja, magérrimos 1,6% do número de páginas web registradas nos Estados Unidos.


 


Estes números mostram a tremenda desigualdade de posições tanto na internet como na Web, mas o problema não é só quantitativo. Na era da informação, é sabido que quanto mais ela circular, mais ela se valoriza e gera riquezas. É a velha máxima de que se eu tenho uma informação e a troco com outra pessoa, ambos ganhamos porque ficaremos com duas informações após o intercâmbio.


 


A valorização da informação pode ser facilmente percebida quando se acessa tanto os weblogs sobre imprensa como as páginas especializadas em noticiário sobre mídia e novas tecnologias de comunicação em jornais da Europa e Estados Unidos.


 


Ao contrário do que acontece no Brasil e na América Latina, o volume de notícias sobre a mídia nas nações ricas, cresce geometricamente por conta da nova lógica da circulação e multiplicação da informação.


 


Esta mesma lógica é que está na origem na proposta do Observatório da Imprensa e do Código Aberto. Falta sim informação nacional e a solução, pelo menos parcial deste problema, pode ser uma tarefa coletiva, agora que os internautas passaram a poder publicar também informações sem passar pelos filtros da grande imprensa.


 


Ao publicar informações sobre a imprensa e as novas mídias noutros países, como os Estados Unidos, nosso objetivo é mostrar como questões, que aqui continuam tabus, são discutidas e enfrentadas noutras regiões. Uma delas é a crise no modelo de negócios dos jornais e as mudanças na industria dos jornais, da rádio, da TV e da internet.


 


É uma tentativa de alimentar aqui a circulação de informações sobre a mídia visando ampliar a transparência do debate sobre o futuro da imprensa no Brasil. Não se trata de glorificar exemplos externos, mas de procurar usa-los como pretexto para mudanças domésticas.


 

Conversa com o leitor

O Código esteve fora do ar durante mais de dois dias devido a um problema no servidor que hospeda a página do blog e do Observatório no IG. Como sempre fazemos uma cópia de reserva de todo o material publicado, foi possível voltar com o mesmo formato anterior à pane, sem perder nenhum texto, desde o inicio da publicação da página, há 11 anos. O editor chefe Luiz Egypto e os programadores do OI quase foram obrigados a passar o carnaval trabalhando.






[1] Atenção, Web e Internet não são sinônimos. A Web é a rede de computadores que usam interface gráfica. As páginas que acessamos geralmente estão nesta categoria. A Internet é a rede mundial de computadores, que além da Web, engloba também os bancos de dados e correio eletrônico. Por isto os números são diferentes.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/02/2008 Ana Flávia Rodrigues

    ´Não se trata de glorificar exemplos externos, mas de procurar usa-los como pretexto para mudanças domésticas.´

    Concordo plenamente! Em vez de criticarmos ou glorificarmos os exemplos externos, devíamos realmente usá-los para promover a mudança interna.
    Temos caminhado de acordo com nosso tradicionalismo, nos conformando com nossos míseros 1,6% de páginas web registradas nos Estados Unidos.
    Devemos produzir, contando com a ajuda da internet sem medo de sermos felizes!

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