Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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A ‘massa ignara’ que o noticiário ignorou

Por Luiz Weis em 11/07/2007 | comentários

Todos os jornais registraram a radicalizada do presidente do Senado Renan Calheiros, na sessão de ontem, quando disse que os que querem vê-lo fora do cargo “vão ter de sujar as mãos”, porque ele não tem “medo de cara feia” e coisa e tal.

Mas bem que algum editor poderia ter resgatado do fundo do poço da cobertura a passagem do destampatório de Renan em que ele parece abrir uma brecha no seu “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Foi quando deixou escapar: “Se eu tiver culpa, talvez não cheguemos ao plenário”, numa referência à votação de um eventual parecer do Conselho de Ética pela cassação do seu mandato e suspensão dos seus direitos políticos.”

”Eu reconhecerei a culpa”, prometeu.

Quem chamou a atenção para o possível significado dessas palavras foi a colunista Dora Kramer, do Estado.

Esse, aliás, não foi o único caso do dia em que um colunista faz o que repórteres e editores deviam ter feito ao levar ao leitor o relato de um evento público – temperar o ostensivo com duas pitadas de sensibilidade e outras tantas de contexto.

Merval Pereira, no Globo, capturou na sessão do Senado um detalhe que passou pelo meio das pernas do reportariado – ou dos editores, talvez, porque o consumidor, como diria Bismarck, nunca sabe como são feitas as salsichas e as notícias.

O colunista sacou que Renan não teve paciência nem para ouvir um dos integrantes da sua tropa de choque – pelo jeito, acrescento, cada vez mais parecida com a famosa Armata Brancaleone, do filme de Mario Monicelli.

Ele se retirou enquanto discursava o senador sergipano Almeida Lima, um dos três relatores do processo contra Renan no Conselho de Ética.

Mas o melhor do texto de Merval não é nem esse melancólico sinal da irrelevância do que restou dos defensores do presidente do Senado.

É o que vem em seguida:

”Na tentativa de defender Renan, e de justificar sua parcialidade, Almeida Lima pôs-se a criticar “a grande mídia” que, segundo ele, está alimentando a sede de vingança “da massa ignara”.

Massa ignara deve ser a que costuma elegê-lo. Ou não?

“Tão coerente quanto sua história política – já foi do PSDB, do PDT e hoje está no PMDB governista -, Almeida Lima [recorda o colunista] é o mesmo que anunciou, em plena crise do mensalão, que faria uma denúncia “bombástica” contra o então ministro José Dirceu, e acabou lendo da tribuna notícias requentadas e desimportantes.

Anunciando, com estardalhaço e antecedência, uma bomba acusatória contra o ministro José Dirceu, o senador mexeu com os nervos do mercado financeiro e foi o assunto entre políticos e empresários de todo o país naquele dia. Depois, fez jus ao apelido de Rolando Lero, que ganhou pela semelhança de seu linguajar enrolador com o do personagem de Rogério Cardoso na “Escolinha do Professor Raimundo”, de Chico Anysio, e teve afinal mais do que os 15 minutos de fama.

A situação de Renan Calheiros é tão difícil que é esse seu principal defensor no Senado.”

À parte o resumo da ópera, que é para isso que existem comentaristas, tudo mais no texto de Merval – desde a saborosa massa ignara até a recordação da falsa bomba contra Dirceu – devia estar no corpo das matérias sobre o dia de Renan no Senado. Que é para isso que existem repórteres e editorias políticas.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 13/07/2007 Dimas Roque

    O danado de tudo isto que está acontecendo no Brasil é que basta alguém, senador, deputado, ministro ou presidente, questionar a parcialidade da mídia que logo aparece um colunista para relembrar todos os fatos ocorridos contra aquele que se insurgiu contra a mesma. O bom é que neste mesmo espaço de debate, antes democrático, possa se dá a oportunidade aquele que deu opinião desfavorável a mídia. Assim teremos um debate justo.
    O deputado seja ele quem for só tem o plenário para expor suas opiniões, já os “jornalistas” dispõem de bloger, jornais, televisão…
    Normalmente a reação dos “jornalistas a uma opinião (critica) é desproporcional.

    Dimas Roque

  2. Comentou em 12/07/2007 Dejacy Lima

    Só prá relembrar :
    Onde está ‘ aquele partido’ que vivia denunciando, fazendo greves, passeatas, fora ‘presidente’ etc e tal ,por tudo de errado ou suspeito que alguem fizesse ?
    Por onde andam os deputados e senadores que não vão às tribunas com seus discursos inflamados exigindo explicações?
    Porque não vão às ruas convocando a nação contra a CORRUPÇÃO, FORA RENAN e toda essa sujeira , como fizeram durante o tempo que eram oposição ?
    Estou triste e envergonhada por ter acreditado.

  3. Comentou em 12/07/2007 JOSE ORAIR Silva

    Em nome do contraditório, seria interessante que o OI publicasse a crítica do senador Almeida Lima à mídia. Assim os leitores poderiam conferir, na fonte, a suposta parcialidade do senador… Ademais, seria interessante colocar uma pergunta básica: para que serve o Senado? Um parlamento unicameral não seria mais apropriado à realidade de um pais pobre como o Brasil? Em vez de mandar os eminente senadores para o comitê de ética eles seriam mandados para suas casas, em benefício da economia e da simplificação do processo legislativo…

  4. Comentou em 12/07/2007 José Carlos da Silva

    Traição, fofoca…acho que vende muito. “Amigo paga pensão de amante” essa matéria deveria estar nas revistas TITITI, CONTIGO ETC…, porque será que a midia não está explorando este caso a fundo?, se fosse alguem do big brother, saberiamos até o papel higienico que eles usam…Costumam dizer que brasileiro tem memória curta, a midia tem grande responsabilidade sobre isso, nos enchem de noticias inócuas e as noticias importantes, fazem questão de deixa-las sem graça, repetitiva. Troquem os repórteres, os de fofocas coloquem na politica e os da politica coloquem nas fofocas, voces verão: as noticias politicas ficarão muito mais interessante.

  5. Comentou em 12/07/2007 pedro carlos da silva

    Quando estav com Collor, era o maior, depois passou a ser o príncipe da corrpução. Hoje está novamente sendo acusado. Será que o Fernandinho n~]ao está por trás disso?vvpou

  6. Comentou em 12/07/2007 Marco Antônio da Costa

    A massa não é ignara, a massa é apenas e simplesmente massa de manobra de uma imprensa que procura noticiar assuntos pouco relevantes do ponto de vista político. Pois, entende que a massa não dá tanta importância assim, haja vista que assuntos como celebridades, futebol, intrigas políticas de pouca importância e agregados, dão o esperado ‘IBOPE’ do faturamento esperado. Não se deve menosprezar a inteligência do trabalhador brasileiro, este comportamento da imprensa tira o estimulo do trabalhador em acreditar na mídia. Como exemplo, em épocas de eleições, os meios de comunicação ao invés de estar ao lado do povo, procura enaltecer este ou aquele candidato, falar bem deste ou daquele partido político, se esquecendo do seu verdadeira papel junto aos leitores e ouvintes, ou seja, mostrar o lado bom, mas também o ruim dos candidatos às vagas nas várias instâncias dos governos Federal, Estadual e Municipal.

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