Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A mídia de novo no tronco

Por Luiz Weis em 31/08/2007 | comentários

O problema do doutor Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal, é com o seu colega Eros Grau. Como não pode assumir essa verdade – ao contrário, quer vaporizá-la – resolveu transformar a imprensa no seu problema.


Eros Grau, está em todos os jornais de ontem e hoje, pensa em interpelar judicialmente Lewandowski.


O caso é conhecido, mas não custa repetir: naquela que já se tornou a mais célebre troca de e-mails entre figuras públicas da história brasileira, captada por um repórter-fotográfico do Globo no recinto do STF e divulgada pelo jornal na sexta-feira da semana passada, Lewandowski deu trela à suspeita posta em letra de forma pela colega Cármen Lúcia de que Eros Grau – a quem chamou de “Cupido” – votaria contra o recebimento da denúncia apresentada pelo procurador-geral da República contra 40 suspeitos de mensalismo.


“Isso só corrobora que houve uma troca”, respondeu Lewandowski, como quem sugere, dado o contexto da correspondência, que Grau ganharia do governo, em troca, a nomeação do juiz Carlos Alberto Direito, supostamente seu preferido, para o Supremo.


Pois bem. Na noite da última terça-feira, como também se sabe, Lewandowski foi flagrado de novo – dessa vez por uma repórter da Folha que, num restaurante, o ouviu dizer ao celular coisas cabeludas como “a imprensa acuou o Supremo”, “todo mundo votou com a faca no pescoço” e “a tendência era amaciar para o Dirceu” [ver neste blog a nota de ontem ‘Sorte da repórter, azar do juiz‘].


Foi, conforme um dos mais velhos clichês do jornalismo, uma bomba. O ex-ministro José Dirceu apareceu na TV brandindo um exemplar da Folha para pôr em dúvida a lisura do julgamento que o tornou réu por formação de quadrilha e corrupção ativa. E a presidente do STF soltou uma nota em que sustenta “a absoluta independência e transparência” dos julgamentos do tribunal.


Como não poderia deixar de ser, os jornais foram em cima do ministro. Ele deu entrevistas separadas para a Folha, o Globo e o Estado.


E foi nelas que fez da imprensa seu problema. Não chegou perto da enormidade proferida por Dirceu de que “estamos caminhando quase para uma ditadura da mídia”, mas fez – atabalhoadamente, como se verá – a sua parte na Operação Põe a Mídia no Tronco, a que se dedicam também, diga-se de passagem, figuras da estatura ética do senador Renan Calheiros.


Antes, negou ter dito que “todo mundo votou com a faca no pescoço”: ele é que se sentiu assim, embora fizesse questão de afirmar que, apesar disso, votou com “absoluta independência”.


À Folha, estendeu esse atributo a todos os ministros, lembrou que os debates foram públicos – “a nação brasileira viu o alto nível técnico deles” – para logo em seguida afirmar que “o STF foi submetido a uma pressão violentíssima da mídia” [presumivelmente, para aceitar a denúncia].


Pena que as entrevistadoras Vera Magalhães e Silvana de Freitas não tivessem em seguida pedido ao ministro que explicasse detalhadamente como se deu essa violência superlativa.


Já o repórter do Estado, Felipe Recondo, deu um passo nessa direção e ouviu uma salada de sim, não, talvez: “A pressão da imprensa foi muito grande. Nós sentimos a pressão da imprensa, mas em momento algum isso pressionou os ministros a votarem dessa ou de outra forma. Isso [as pressões que não pressionaram] é uma ilação que se tira de conversas privadas que eu repilo e desautorizo.”


As jornalistas da Folha não atalharam o ministro nem mesmo quando repetiu que “as pessoas estavam extraordinariamente submetidas à mídia”, para emendar, estranhamente, no mesmo fôlego, que conhece Eros Grau há 30 anos, tem o maior apreço e admiração por ele e conhece a sua isenção.


Pena ainda que a entrevistadora Vera Magalhães, a mesma que registrou o que Lewandowski dizia ao celular, não reagiu quando ele falou que não sabia se usou a palavra “amaciar”. Aos repórteres do Globo, Bernardo Mello Franco e Carolina Brígido, também disse que achava que não usou essa expressão.


Nesta entrevista, em que disse a imprensa não respeitou os limites da sua intimidade na divulgação dos e-mails – mas “vamos deixar para lá, deixa para lá” – como que se desculpou pelo que escreveu e falou, argumentando: “Todos quando conversamos com alguém, baixamos a guarda.”


Agora, amaciar, ele amaciou mesmo com Eros Grau. Além de cobri-lo de elogios, disse ao Estado, sobre a possibilidade de ser interpelado pelo colega, que “se ele achar que precisa de mais informações, não me furtarei a dá-las”.


E ao Globo, sobre a tal da troca: “Foi troca de posição pessoal dele. Não foi uma troca do voto dele por alguma coisa.” E sobre a interpelação: “Se vier, responderei com a maior tranqüilidade. Se ele não ficar satisfeito com o que estou dizendo aqui, o farei novamente por escrito.”


Bem feitas as contas, é como escreve hoje o colunista Merval Pereira, do Globo: “Em vez de cobrarem a responsabilidade do ministro do STF pelos comentários e insinuações, cada um culpa a ‘mídia’ de acordo com seus interesses.”


P.S. Quem se opõe ao resgate da verdade


Se não, numa hipótese absurda, por nada mais, o presidente Lula entrará para a história pela coragem de levar às últimas consequências uma iniciativa do antecessor em relação às vítimas da ditadura de 1964.


Num evento literalmente histórico, que transbordava emoção por todos os lados, com a presença de membros do governo Fernando Henrique, Lula lançou na quarta-feira em palácio o relatório, em forma de livro, preparado pela secretaria de Direitos Humanos, dirigida pelo ministro Paulo Vannuchi, intitulado Direito à memória e à verdade


Trata-se, como descreveu corretamente a Folha, do “primeiro documento oficial do governo que assume como verdade histórica a versão de que a repressão política decapitou, esquartejou, estuprou, torturou e ocultou cadávares de opositores da ditadura”.


Passados dois dias, apenas o Globo, dos três grandes jornais, se manifestou sobre o acontecimento. O jornal do grupo de mídia que mais apoio deu à treva que se abateu sobre o Brasil de abril de 1964 a janeiro de 1985 foi coerente com o seu passado.


Saiu ontem com o editorial “Ato desnecessário”:


“Foi inoportuna a decisão de transformar em ato oficial no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o lançamento de um livro com o balanço do trabalho da Comissão de Mortos e Desaparecidos, da Secretaria de Direitos Humanos do próprio governo federal.


Saradas as feridas de um período nada edificante da história recente do país, a ninguém interessa esse tipo de iniciativa, potencialmente capaz de produzir tensões e de irritar tecidos sociais ainda sensíveis.


O pior que poderia acontecer, nessa altura da vida nacional, é a reabertura da discussão sobre algozes e vítimas dos porões da ditadura militar. Esta é uma ferida a se deixar cicatrizada.


No final da década de 70 e na de 80, o país soube operar a transição da ditadura para o regime democrático, sem a necessidade de pedradas, tiros e acerto de contas.


Em 1979, a Lei da Anistia cuidou de reparar a maior parte das situações de flagrante injustiça e violações dos direitos humanos cometidas durante os anos de chumbo.


Mas alguns setores, com razão, criticam o fato de não se ter tido a mesma preocupação em relação aos militares que foram vítimas de grupos armados de esquerda.


Certamente, é importante lembrar o 28º aniversário da Anistia e a relevância da atuação de 11 anos da Comissão de Mortos e Desaparecidos, criada para apurar detalhadamente o que aconteceu nos vários casos envolvendo presos políticos e vítimas da repressão.


Ressalte-se: ela não foi instituída para revanchismos.


A partir desse trabalho, a Comissão recomendou a indenização, pelo governo, de 221 famílias — ação que também não está imune a críticas, por causa de critérios discutíveis usados no cálculo das indenizações.


Seja como for, trata-se de uma atividade minuciosa, que envolve situações melindrosas e feridas dolorosas do passado. A melhor maneira de levá-la à frente é discretamente.


Espera-se, portanto, que seja apenas um equívoco do governo aproveitar o 28º aniversário da Anistia para um ato que, em vez de apaziguar espíritos, fere susceptibilidades, desenterra velhas rixas e reforça a incabível idéia de se atropelar a Lei da Anistia, que foi recíproca.


Em países menos previdentes em relação a fatos de seu passado recente, como a vizinha Argentina, essa volta no tempo tem se mostrado um poderoso fator de desestabilização interna e dificultado a consolidação da ordem democrática, duramente reconquistada.


Não é este o futuro que se quer para o Brasil.’


***


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