Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A mídia desperta para o bad trip

Por Bruno Blecher em 06/11/2006 | comentários

A mídia finalmente acordou para as graves conseqüências do aquecimento global. Nas Redações, temas como elevação da temperatura devido ao efeito estufa, inundações provocadas pelo aumento do nível do mar, secas e acúmulo de gases poluentes na atmosfera não são mais consideradas ‘bad trip’ de mochileiros e discurso de ecochatos.


Assim como o Globo Repórter virou uma espécie de National Geographic de uns anos para cá, os ambientalistas ganharam espaço nas Páginas Amarelas de Veja nas últimas semanas. Basta ver as mais recentes entrevistas: Al Gore, Lovelock e, esta semana, Nicholas Stern.


Em um depoimento assustador a Diego Escosteguy, o economista inglês Nicholas Stern faz um breve resumo do trabalho que lhe foi encomendado pelo governo britânico sobre o impacto do aquecimento global na economia mundial.


A coisa é séria e exige, segundo o economista, uma intervenção rápida e global. Caso contrário, nossos filhos e netos vão sentir as conseqüências dos estragos que principalmente a nossa geração (e a de nossos pais e avós) fizeram ao Planeta.


‘Modelos científicos sugerem que dentro de 50 ou 100 anos a Amazônia pode secar e morrer!, alerta Stern. Em 2005, tivemos um pequeno (!) sinal do que pode acontecer, quando rios, lagos e várzeas da região amazônica se transformaram em lama, com graves perdas às populações ribeirinhas.


Etanol x comida?


Mas nem tudo está perdido, segundo o ex-economista chefe do Banco Mundial. Basta um investimento de 1% do PIB mundial nos próximos anos para se reduzir fortemente os níveis de emissão de gases poluentes.


Stern elogiou a idéia da Ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, da criação de um fundo internacional de proteção à Amazônia. Também considerou positivas as atuações do Brasil em agroenergia. O etanol, segundo o economista, é uma boa forma de energia limpa. ‘Mas é preciso descobrir como cultivar biocombustíveis em terras menos nobres, em vez de produzí-los em terras férteis’, alerta Stern.


Esta é uma preocupação pertinente. A alta na demanda por biocombustíveis vai gerar aumentos nos preços de alimentos, como milho, trigo e açúcar. Já o presidente da Embrapa, Sílvio Crestana, acha que é possível, sim, substituir importantes volumes de gasolina e diesel e, na mesma linha, atender ao crescimento da demanda de alimentos, abrindo mercados.


Debaixo da terra


Mas não foi só a Veja que destacou o chamado ‘Estudo Stern’. O documento foi analisado em editorial da Folha de S. Paulo desta segunda-feira (dia 6 de novembro), sob o título ‘Prejuízos na Estufa’. O jornal que costuma confinar este tipo de assunto na página de Ciência, vestiu a camisa dos ambientalistas. Além do editorial, a entrevista da 2ª também trata de meio ambiente, aproveitando o gancho da reunião em Nairóbi, Quênia, de 180 países para negociar questões do Protocolo de Kyoto.


Achim Steiner, chefe do programa ambiental da ONU, comenta problemas relacionados às mudanças climáticas e o programa brasileiro de biocombustíveis. ‘Acredito que o mundo perdeu dez anos por não levar a questão das emissões tão a sério’, disse ele.


No editorial, a Folha aprova o relatório Stern. ‘São muito poucos os que ainda negam que a ação humana esteja contribuindo para elevar a temperatura da atmosfera terrestre, mas muitos ainda sustentam que tentar evitar esse efeito seria um desperdício de dinheiro. O relatório Stern prova o contrário. Valendo-se de novas evidências científicas que mostram que o ritmo de elevação da temperatura é bem maior do que se acreditava, o trabalho chega à conclusão de que, se forem mantidos os atuais padrões de emissão de gases-estufa, a produção global deixará de aumentar em pelo menos 5% a cada ano ao longo dos próximos dois séculos em relação ao que cresceria sem o problema ambiental. No pior cenário, a perda chegaria a 20%’’, alerta o editorial.


‘Em termos puramente econômicos, portanto, vale a pena nos esforçarmos agora para evitar pagar um preço muito maior no futuro. Um custo da ordem de 1% do PIB nem sequer impediria a economia mundial de continuar crescendo a taxas expressivas.
As dificuldades que frustram uma ação mais enérgica são de ordem política. Para começar, ainda há muita incerteza envolvida. Ninguém sabe ao certo o tamanho do prejuízo nem quando ele se dará. Pior, trata-se uma questão intergeracional. Ainda que nós venhamos a pagar parte do preço, a porção mais amarga da conta ficará para as gerações futuras. E, aparentemente, não se pode esperar de certos políticos que se preocupem seriamente com um problema cujas conseqüências não verão em seus mandatos nem em suas vidas.’


Isto me lembra aquela velha história de que, no Brasil, prefeito e governador não gostam de investir em projetos de sanidade básica, como rede de água e esgoto. É que os tubos enterrados no chão não dão votos.

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  1. Comentou em 10/11/2006 Marcelo Nonato

    Olá, Blecher.
    Ao que tudo indica o relatório Stern é bem consistente. Mas há muitos interesses econômicos em jogo nesse assunto.
    Veja que curiosa essa opinião contrária: ‘Efeito estufa: ex-assessor de Thatcher ataca alarmismo’ (Estadão on line -http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=27716).
    Dentro do mesmo tema, há coisas interessantes, mas pouco divulgadas, acontecendo aqui no Brasil, como a nova norma de mudanças climáticas que deve ser publicada ainda em novembro pela ABNT – http://www.abnt.org.br/m5.asp?cod_noticia=31&cod_pagina=965.
    É isso. Abraços.

  2. Comentou em 08/11/2006 Cláudia Monteiro

    Acabei de ver no Jornal Nacional uma reportagem sobre os desequilíbrios ambientais dos portos de Suape (PE) e de Santos. Para quem já visitou a famosa praia de Boa Viagem, a matéria não apresentou nenhuma novidade. O aterramento do mangue em Suape tirou o alimento dos tubarões, que agora atacam os surfistas e amedrontam os turistas. Como não levar para a mídia uma discussão sobre os efeitos danosos do homem sobre a natureza?
    Não se trata de eco-chato, de terrorismo, de bad trip. Trata-se do dia-a-dia da população que observa as coisas ao seu redor.
    Aqui em Fortaleza, por exemplo, todos sentimos ao longo dos anos venho uma crescente elevação de temperatura. E isso é fruto de quê? É fruto de diversas ações mal planejadas, irresponsáveis, gananciosas e ignorantes do homem: a ocupação desordenada do espaço urbano, sobretudo da orla marítima, impedindo a circulação da brisa do mar; o asfaltamento crescente das ruas, impermeabilizando o solo e refletindo os raios solares; os aterramentos das lagoas; as construções irregulares em áreas de mangue e de dunas; o não-tratamento dos resíduos químicos. Some-se a tudo isso o aumento da frota de veículos e uma conseqüente maior liberação de CO2 no ar. Como não dizer que tudo isso é ação do homem?

  3. Comentou em 08/11/2006 Odracir Silva

    Haha… tudo bem, acredito q vai haver um impacto do efeito estufa. Mas dai dizer q a Amazonia vai secar… ee soo procurar nas revistas especializadas q vc vai ver q haa resultados para todo mundo. Atee para quem acredita q vai haver uma nova era do gelo … (haa 30 anos atras, uns climatologistas previam isso). Quero dizer, este negocio de estudos climaticos, usando modelos numericos, ainda nao estaa muito bem desenhado. Haa problemas enormes em tentar acoplar o modulo ecologico c/ o modulo climatico. Como o pessoal (meteorologistas, climatologistas, ecologistas) tem q produzir (artigos) para continuar a desenvolver o modelo (i.e., bufunfa), ficam escrevendo estes prognosticos catastroficos…

  4. Comentou em 08/11/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Os jornalistas se nutrem da notícia presente. Os ecologistas do terrorismo natural. A união entre ambos é potencialmente nocivo, porque os primeiros não entendem nada de geologia e os segundos tem interesses eleitorais e desconsideram a lentidão dos processos geológicos. O planeta já foi mais quente do que é hoje. Durante as glaciações, foi mais frio do que consideramos adequado. Nossas medições confiáveis de temperatura tem apenas um século e os processos geológicos ocorrem na escala de milhares e milhões de anos. Continentes submergem, leitos marinhos são erguidos. Por isto é que no alto da cordilheira dos Andes são encontrados fóssies marinhos e ao largo da costa inglesa fósseis de mamutes são encontrados a centenas de metros de profundidade. O hemisfério Norte vai afundar? Que bom! As bombas atômicas americanas ficarão debaixo dágua.

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