Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A mídia diante da “economia do Tarzan”

Por Carlos Castilho em 06/01/2011 | comentários

A maioria dos pesquisadores e estudiosos da mídia contemporânea está debruçada sobre o que alguns especialistas passaram a chamar de “economia do Tarzan”, numa alegoria à necessidade de largar um cipó, ou um modelo de negócios,  antes de agarrar o próximo no esforço para sair da crise no setor.


Poderia ser também chamada de “economia do trapézio”, já que um acrobata do circo é obrigado a soltar uma barra antes de pegar a próxima para chegar ao outro lado do picadeiro.


O que há em comum entre o trapezista, Tarzan e as indústrias contemporâneas da comunicação é que todos eles precisam abandonar um sistema seguro (cipó, barra ou modelo de negócios) para embarcar num novo sistema. Entre o novo e o velho há uma fração de tempo (segundos no caso do trapézio e do cipó, ou anos no caso da mídia) onde tudo é inseguro.


Para os executivos da mídia, este intervalo de insegurança é um dilema porque eles não gostam de correr riscos, apesar do discurso de que, no capitalismo, uma das virtudes da atividade empresarial é a aposta no novo.


É nesse ponto que os trapezistas superam os executivos das indústrias jornalísticas porque os primeiros assumiram o risco como uma decorrência normal de sua atividade, enquanto os segundos estão imobilizados pela preocupação em manter a lucratividade.


No caso da indústria do cinema e das gravadoras de músicas, o cipó está cada vez mais curto, o que aumenta a necessidade de largar o que está seguro e aumenta o desespero dos tomadores de decisões, porque eles têm cada vez menos tempo para escolher entre espatifar-se no solo ou pular para o próximo cipó, sem saber direito se este aguentará o peso.


Apesar dos temores e vacilações, algumas empresas começam a descobrir que o medo do fracasso pode ser mais forte que o fantasma do prejuízo. Nos Estados Unidos, o Warner Music Group, integrante do mega conglomerado Warner, resolveu apostar na troca do produto por serviços como atividade básica da empresa.


Depois de gastar milhões de dólares para combater o que a Warner chama de pirataria musical, ela lançou o projeto Choruss — cuja base financeira não é mais a venda de produtos musicais, mas a prestação de serviços musicais. Em vez de vender CDs e DVDs, a indústria parece interessada em explorar a possibilidade faturar com a oferta de serviços que ampliem o prazer de ouvir uma música ou ver um filme.


O projeto está sendo testado por estudantes de universidades norte-americanas, o mesmo ambiente que tornou mundialmente famosos os sites de trocas gratuitas de músicas que tanto enfureceram os executivos das grandes gravadoras mundiais.


O grupo brasileiro RBS, baseado em Porto Alegre, cresceu como um conglomerado de indústrias jornalísticas, mas hoje está mais voltado para a área da promoção de serviços de entretenimento do que no desenvolvimento de negócios informativos.


Como opção empresarial é uma alternativa válida na busca de um novo modelo de negócios. O problema é que a notícia está sendo usada para alavancar projetos do grupo nos jornais e programas jornalísticos nas rádios e emissoras de TV da RBS. A promoção de shows musicais, concursos e eventos esportivos já ocupa a maior parte do tempo nos telejornais regionais, enquanto nos jornais a publicidade vinculada a interesses da casa ganha cada vez mais espaço.


O caso gaúcho não é isolado. Em várias outras partes do mundo as empresas jornalísticas estão abandonando a notícia, especialmente a impressa, devido aos altos custos de produção. Em 2010, o preço da tonelada de papel jornal aumentou 22,4% (vale hoje US$ 114) enquanto a publicidade e as assinaturas continuaram caindo, com perdas acumuladas de quase 50% nos últimos cinco anos.


Estes dados mostram que o cipó do velho modelo de negócios já não aguenta mais o peso de conglomerados industriais no setor da comunicação, que ainda resistem à mudança de cultura. Grupos como a RBS já namoram novos esquemas, mas ainda mantêm o discurso tradicional em matéria de jornalismo, embora estejam cada vez mais distantes das necessidades informativas do público.


Nesta semana, as matérias promocionais do evento musical ‘Planeta Atlântida’, veiculadas na emissora da RBS em Florianópolis, ocuparam quase o dobro do espaço noticioso dado à cobertura dos monumentais congestionamentos de trânsito na capital catarinense, causados pelo afluxo de turistas. O sucesso do evento superou a preocupação com a busca de soluções para um problema que afeta milhares de pessoas.


Está cada vez mais evidente que as empresas já começam a vislumbrar uma saída para o “dilema do Tarzã”. O problema é que o público ficou órfão nessa troca de cipó. Ele está recebendo matérias promocionais como se fossem notícias enquanto a oferta de informações vinculadas aos problemas comunitários fica cada vez mais minguada.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/01/2011 rogerio cardozo

    Acho que uma maneira de valorizar o dolar,e valorizar o real e outras moedas é fazer negocios dentro do mercosul com moedas nativas.Acho que tem muito dolar no mundo,muito,O Brasil não pode parar de crescer com medo da inflação,tem que buscar saidas e é importante dizer que EUA são o que são porque tem um mercado interno forte:como diz o JOEMIR’ cada pais tem o merdaco interno que mereçe’.E agora o Brasil solidificou um mercado interno muito bom.

  2. Comentou em 10/01/2011 Roberto Ribeiro

    É um erro muito comum confundir um papel social com um ator social. No capitalismo, uma das virtudes da atividade empresarial é a aposta no novo. Sim, é uma virtude do papel social ‘atividade empresarial’, mas não necessariamente dos empresários ou das empresas. Muitas empresa vão simplesmente falir. Todas podem falir, aliás. Nenhuma grande tecelagem da era vitoriana deixou o vapor e se tornou empresas de automóveis, nenhuma empresa de automóveis se tornou empresa de computadores. Quem fazia motores a vapor no século XIX faliu. O capitalismo, entretanto, evoluiu. O Capitalismo é cruel com todos, como notou Marx em um dos seus ultimos trabalhos. O empresário é tão escravo do capital quanto o assalariado. Daí aquele nosso ditado ‘pai rico, filho nobre, neto pobre’. Não são as atuais empresas de comunicação que se tornarão as empresas de comunicação do futuro, as empresas do futuro hoje são empresas de fundo de quintal, ou ainda estão por vir.

  3. Comentou em 09/01/2011 Gerson Chagas

    Concordo plenamente com o Jaime, E na verdade não temos e nunca tivemos no país um segmento que possa efetivamente ser chamado de comunicação, atrelando-se esta ao conceito de informar o cidadão e norteado pelos pressupostos de fiscalização e manutenção de uma sociedade democrática. Ao contrário, tudo é perpetrado em nome de interesses minoritários, predatórios e descompromissados com objetivos de cunho social. Portanto, o cenário que se vê não surpreende. E permita-me, Jaime, ir além quanto às expectativas de reconstrução cidadã pela via precípua e urgente da Educação : pelo estrago perpetrado, é coisa para ao menos 100 anos, pois o investimento aqui não é o pecuniário-especulativo, de resultados tão lépidos quanto desastrosos ; mas sim o de valores, tão desdenhado pela sociedade, mas o único capaz de conferir a esta o status de dignidade, justiça e, por que não mencionar, já que está tão em voga, a verdadeira sustentabilidade.

  4. Comentou em 07/01/2011 Jaime Collier Coeli

    Desculpe invadir o Codigo Aberto com o assunto que passo a expor, mas não encontrei alternativa. Moro na Baixada Santista e sei que nessa epoca os problemas se acumulam. Mas neste ano pioraram e muito. Os prontos socorros da Baixada estão repletos, na maior parte com vomitos e diarreia. É possivel encontrar varios fatores, que vão dos banhos de mar à comida e bebida e até ao nivel freativo dos mangues, onde constroem-se casas e, em decorrencia, fossas que, com as chuvas e os visitantes, implodem. Vejo-me obrigado a informar em palavras claras que as pessoas, principalmente crianças, são presas faceis de uma tal ‘virose’, do Guaruja a Peruibe. Pelo que sei, esta informaçõ está sendo escamoteada.

  5. Comentou em 07/01/2011 Jaime Collier Coeli

    Pois é, não há solucionatica para um universo informativo-cultural que felizmente se esfacela. Depois das ‘soluções’ perpetradas no infortunado seculo XX, temos no BR: l) substituições das importações, dificil de ser mantida sem criatividade tecnologica e com dificuldades operacionais no campo financeiro; 2) uma ‘saída’ pelo exercicio da velha pratica de exportar commodities. Evidentemente não ocorreu ‘desenvolvimento’, pelo menos nos termos do pensameno politico dominante no seculo anterior. Concomitantemente, a população cresceu, mas foi pessimamente informada e ‘formada’. Como a ignorancia é a unica ciencia exata, o jornalismo passou a propaga-la com fervor religioso, aumentando em numero de paginas para atender todas as parcelas de publico disponiveis no universo da douta ignorancia. Os custos cresceram, porque os jornais constituem uma industria pesada com valor de comercialização de berloque. Então se inviabilizaram. Não há que lastimar, a perda não tem mais valor algum. Mas não há horizonte, no presente momento, de ‘progresso’ que não exiba pelo menos duas gerações de educação continuada.

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