Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A mídia e a maior matança de policiais

Por Mauro Malin em 13/05/2006 | comentários

Domingo, 14 de maio, meio-dia e trinta. Cem ataques, 52 mortos. Difícil controlar a onda, difícil a cobertura jornalística. Estou fora do alcance de emissoras noticiosas de rádio. Minha próxima etapa é o Fantástico. Leitores comparam o processo com acontecimentos em que houve clara conotação política. Os nexos políticos são indiretos. Qualquer politização forçada só deporá contra a mídia, os partidos e os atores políticos que a praticarem. Cabe valorizar no noticiário o que se revelar como caminho válido de conhecimento da realidade e reflexão, e rechaçar as mesmices de sempre: firmeza, rigor penal, justiça mais expedita, abaixo os direitos humanos, só programas sociais e educação resolvem. Cada refrão desses repetido há mais de vinte anos com o sotaque de cada meio de comunicação. Dificilmente a mídia brasileira revelará competência para cobrir um assunto como este, para o qual se revelou despreparada ao longo de tanto tempo.


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Neste momento (20h50 de 13 de maio) são contabilizadas em São Paulo 30 mortes de policiais e outros agentes da lei, e de um bombeiro, em 63 atentados. Trata-se da maior matança de policiais da História do Brasil. No Jornal Nacional foram colocadas as questões essenciais: a polícia trabalha para controlar o surto de violência. A polícia cometeu erros ao colocar barreiras após os atentados, não para evitar que eles ocorressem.


Mas as declarações das autoridades, sem exceção, foram muito convencionais e ralas. A retórica da ‘firmeza contra o crime’ não convence ninguém. O noticiário da Rede Globo não analisa, só reproduz. E fala da dor, da indignação, da consternação. Mais ou menos trinta policiais militares evitaram uma catástrofe no estádio do Pacaembu dias atrás, ao controlar indivíduos da torcida organizada do Corinthians. Milhares de policiais não foram capazes de evitar o assassinato de seus 30 companheiros.   


[Segue o texto colocado originalmente no blog.]


No noticiário da CBN desta manhã toda a discussão parece centrada na situação prisional de São Paulo e do Brasil. Daqui a pouco o governador, Cláudio Lembo, o secretário de Segurança, Saulo de Castro Abreu Filho, e o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, darão entrevista coletiva. O discurso é conhecido: o estado democrático será preservado, e isso passa pela manutenção da lei e da ordem. A polícia paulista não se intimidará. Etc. A questão do estado democrático de direito é decisiva, claro, e a no limite um Estado paralelo montado por criminosos o afeta. 


Lembo parece ter mais sensibilidade do que o ex-governador Geraldo Alckmin, que sempre imaginou a possibilidade de esmagar a criminalidade com emprego da força policial. Mas Lembo não tem como fugir dos conceitos correntes. Em discurso nesta manhã, contrapôs os ataques ao estado democrático de direito, o que faz sentido, mas não basta. Os governos brasileiros não têm políticas sensatas e eficazes de segurança.


A política de segurança pública do estado de São Paulo não funciona há muitos anos. Três governadores se viram diante de episódios monstruosos: Luiz Antônio Fleury Filho, por sinal ex-oficial da Polícia Militar e ex-promotor, governava quando houve a invasão do Carandiru (outubro de 1992), da qual resultou a soma oficial de 111 presos mortos. Fleury atribuiu ao então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, a responsabilidade. Mario Covas foi para a televisão depois do episódio da Favela Naval, em Diadema (março de 1997), quando um policial truculento matou um homem que acabara de ser revistado num bloqueio. Vergonhosamente, Covas disse diante das câmeras que tinha encaminhado o assunto ao comando da PM. Livrou-se da responsabilidade. Em fevereiro de 2001 fazia um mês que Geraldo Alckmin havia assumido o governo – a doença que mataria Covas tinha entrado em estágio terminal – quando houve rebeliões coordenadas em 29 presídios paulistas, nos quais presos foram mortos e 10 mil pessoas foram feitas reféns.


O governador Alckmin costumava apresentar como trunfo o fato de São Paulo, com vinte e poucos por cento da população brasileira, ter quase metade da população carcerária. Segundo o advogado Sérgio Mazina, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, o saldo positivo de novos presos versus presos libertados no estado de São Paulo anda pela casa dos 800 por mês, o que implicaria, dentro da lógica alucinada em vigor, a necessidade de construir, equipar e guarnecer um presídio novo a cada 15 dias. Alckmin, em diferentes ocasiões, gabou-se do tamanho dos efetivos da PM de São Paulo, que é maior, no estado, do que o das Forças Armadas.


O governo federal, desde sempre, omitiu-se na questão da criminalidade. A ditadura piorou a situação militarizando e tornando mais violentas as polícias. Após a redemocratização, nunca se percebeu que a questão, em certa dimensão, precisa ser federalizada, como foi nos Estados Unidos, por exemplo, em momento crítico de alastramento selvagem da criminalidade.


O governo de Fernando Henrique Cardoso padeceu e o de Luiz Inácio Lula da Silva padece da mesma incompreensão conceitual do fenômeno. Vamos ver se nesta crise reaparece o personagem que conseguiu realizar um dos mais notáveis sumiços dos últimos tempos, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.


A mídia é completa, cabal, visceralmente co-responsável por este estado de coisas. Ela trabalha em aliança com a polícia, cujos métodos ineficazes é incapaz de criticar, cujas dificuldades desconhece, e da qual se aproxima quase sempre com o único e exclusivo intuito de praticar a mais deslavada espetacularização.


A polícia, no Brasil, sempre é bom insistir, é parte essencial da atividade criminosa. Mídia e polícia são parceiras.


O Jornal Nacional desta noite dará um primeiro balizamento do comportamento da mídia diante dessa questão. Os jornais de domingo ampliarão essa reação. Não se esperem milagres, especialmente no fim de semana.

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