Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A mídia e a mulher de César

Por Luiz Weis em 14/11/2006 | comentários

Não tem pai nem mãe, como se diz nas redações, a matéria do Estado de hoje segundo a qual ‘sob pressão de setores do PT’, o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, colocou o seu cargo à disposição.

Matéria sem pai nem mãe é aquela que até pode ser verdadeira, mas não contém elementos suficientes para parecer verdadeira.

O texto assinado pelo repórter João Domingos, de Brasília, afirma que os tais ‘setores do PT’ acham que a estatal (4 rádios, 3 TVs e 2 agências noticiosas) deveria ser mais governista. E por isso gostariam que Bucci fosse substituído por alguém disposto a torná-la ‘um instrumento mais dócil aos interesses do governo’.

Decerto esses setores existem, embora a notícia não dê ao leitor a mais remota idéia de onde se localizam e, principalmente, qual a sua capacidade de influir nas decisões do Planalto.

Além disso, nada nas declarações de Bucci ampara a reportagem. Ao contrário, como nela se lê, o jornalista ‘nega estar sendo pressionado’ para pedir o boné. É claro que o desmentido, em si mesmo, não prova nem desprova coisa alguma.

De qualquer forma, o leitor é levado a crer em algo que, na melhor das hipóteses, não passa de especulação: o nexo entre os interesses atribuídos a abstratos ‘setores do PT’ e o fato de um servidor do governo ter colocado o cargo à disposição neste momento de transição entre um mandato e outro.

Notícias fosfóricas desse gênero aparecem toda hora na mídia. Por escassez de controles editoriais ou por excesso de confiança nos seus autores.

O resultado não é propriamente lisonjeiro para quem as divulga.

Afinal, para merecer credibilidade, a imprensa tem que ser como a mulher de César: não basta que seja honesta; precisa parecer honesta.

***

Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/11/2006 Salvador Rocha

    Caro Weis, já deu para perceber que o que temos que combater não é a imprensa mas sim homens que nela atuam, falhos de caráter. Estamos num processo que ainda está se formando. Demos um passo fundamental com ajuda da internet. Enfim, aos poucos vamos superando aquela expressão burra de que política não se discute. Não devemos ter a ingenuidade de achar que chegará um dia em que teremos uma imprensa irretocável, visto que é praticada por homens e os homens são imperfeitos, seja por necessidade de sobrevivência seja por mau-caratismo mesmo. Para aqueles que encontram-se dispostos a fazer esta vigília devem estar prontos a estarem alertas diariamente combatendo os episódios detestáveis da mídia, um a um. Que me desculpe o sr. Weis, mas o jornalista agora é obrigado a descer do pedestal que o colocava como a autoridade máxima da palavra, palavra esta de uma mão só, sem retorno, sem questionamentos. Vai demorar um pouco, mas não muito, o tempo em que os meios de comunicação e seus profissionais deverão se adequar à nova realidade, e para aqueles que insistirem na postura reacionária eu cito o diretor de teatro Amir Hadad: ‘Dar não dói, o que dói é resistir’.

  2. Comentou em 14/11/2006 Dante Caleffi

    Lula ,quando assumiu a presidência,e passou a governar sem caudilhismo
    ou chavismo,’avant la letre’,reverteu as espectativas ,arruinou planos
    do segmento que apostava no desastre executivo.Isso acontecendo, alijaria ,PT & LULA,por um par de décadas. Como testemunhamos,o cêrco,e a fustigação,em hostilidade crescente,chegando aos limites do desrespeito ao cargo,ameaças de surras,proferidas em público.Por fim, a ‘imprensa’,representada pelas quatro famílias,que dominam e (de)formam a opinião pública,passaram de oposição civilizada à hostilização desrepeitosa. O grupo mais importante e influente,pois, que detém o complexo de informações mais sólido,é também o menos confiável,pelos seus antecedentes anti-democráticos.A derrota de seu projeto político,não os esmoreceu.Certamente chegarão aos extremos,se não forem contidos,democráticamente.

  3. Comentou em 14/11/2006 Bernardo Costa

    A pergunta que fica é: o que há de concreto em todo este mar de especulações ? Não dá para saber pois hoje em dia a informação na imprensa vem muito editorializada, suposições se transformam em provas incontestes, especulação vira análise sobre fatos. Enfim, tudo que nós podemos fazer é esperar apra saber o que há de verdade nos fatos, uma vez que mais cedo ou mais tarde ela aparece, e é bom ter paciência se você que conhecê-la.

  4. Comentou em 14/11/2006 Silvano Carvalho

    Está ficando sonolento abrir os jornais na internet( comprar nem pensar) e ler artigos como este do João Domingos, será que eles pensam que somos de verdade homes? Até quando teremos de aguentar isto? Quando será criado o conselho do jornalismo como já existem em outras categorias ?

  5. Comentou em 14/11/2006 Nelson Vilela Maranhão

    Jornalista Luiz Weis: Seu êrro foi escrever as duas últimas linhas da sua coluna. Você se entregou. Vilela

  6. Comentou em 14/11/2006 Sinval Almeida

    Deve ser mesmo mentira do Sr. João Domingos. Claro que é mentira! Se fosse verdade não precisaria um militante do PT escrever colunas desmentindo. Também é mentira que houve mensalão, caixa dois, dólares na cueca, dossiê tucano, Duda Mendonça…. e quatro anos denúncias mentirosas contra o partido político mais sério do mundo e que quer apenas consertar o país (junto com jornalistas absolutamente isentos) nos próxmimos mil anos, como pretendia o III Reich.
    Sinval Almeida

  7. Comentou em 14/11/2006 Marco Costa Costa

    PARA PARECER QUE É HONESTA, A IMPRENSA PRECISA DEIXAR DE USAR O PRESIDENTE DA REPÚBLICA E O PARTIDO DOS TRAIRAS COMO BODE EXPIATÓRIO. SERÁ QUE A COMPETENTE IMPRENSA NACIONAL SERIA MAIS PRODUTIVA SE USASSE OUTROS ASSUNTOS, OS QUAIS TROUSESSEM RETORNO SOCIAL. A IMPRENSA FOFOQUEIRA USA MEIOS NADA CONFIAVEIS PARA FATURAR ALTO COM A VENDA DE NOTÍCIAS INVERIDICAS E DE FONTES NADA SÉRIAS. VAMOS MUDAR O DISCO PORQUE ESTE JÁ A GASTO.

  8. Comentou em 14/11/2006 Salvador Sotero

    Em se conhecendo as táticas do PT, ‘desconhecidas’ para muitos jornalistas partidarizados, deve ser verdade o que o jornalista informou. Pelo estilo, o sr. Weis é petista, o que atualmente não recomenda muito.
    Sotero

  9. Comentou em 14/11/2006 André Martins

    Caro Luiz Weis, por favor anexe o comentário do Eduardo Guimarães ao seu texto, distribua ao pessoal do OI (principalmente o Dines e seus defensores) e peça a eles para explicarem de novo onde está a isenção da mídia que eu não estou conseguindo encontrar.
    Em tempo, eu não advogo o fechamento dos jornais, e acredito não estar sendo raivoso, aloprado, etc. Mas seria no mínimo interessante que cada veículo da mídia assumisse a sua tendência. Pois se eu acesso o blog do Reinaldo Azevedo ou o blog do Zé Dirceu eu sei bem o que me espera, e sei com que espírito devo ler o que eles escrevem. Já num jornal que se diz isento eu fico confuso.

  10. Comentou em 14/11/2006 Silvio Terato

    Poderíamos perguntar ao João Domingos a sua fonte. Brincadeira! Mas parece que o prejuizo maior não fica com o repórter e a imprensa não tem preocupação com sua credibilidade. Pra falar a verdade, quando li a matéria, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o governo. E ficamos por isso mesmo.

  11. Comentou em 14/11/2006 Flavia Mesq

    Sr. Eduardo, se me permite, eu poderia fazer uma lista quilométrica de erros e leviandades que a imprensa cometeu com outros governos, dos quais os petistas costumaram ser poupados pelos jornalistas, que sempre foram tão camaradas com a ‘companheirada’. Não preciso nem recorrer ao período em que o PT fazia oposição raivosa, enquanto seus adversários eram triturados pela mídia. Mesmo agora, quando o PT é governo, uma tal de lista de Furnas, teve espaço privilegiado de primeira página em todos os grandes jornais, abafando escândalos reais (e não fictícios, como a tal lista, que era tão falsa quanto o dossiê contra José Serra que por muito pouco não foi publicado na IstoÉ).

    Quanto às cobranças feitas à Marta Suplicy, mesmo assim aquela prefeitura deixou um rombo financeiro para ser coberto pela administração do sucessor — imagino se não tivesse sido cobrada!

  12. Comentou em 14/11/2006 Paulo Silva

    Sr. Luiz, a primeira vez que li algo parecido com o seu post – é isso mesmo? – cheguei a este observatório e me apaixonei de cara. Fico feliz em saber que ainda há alguém observando alguma coisa. Concordo com os 2 primeiros comentários, mas é preciso lembrar onde estamos e qual o objetivo deste espaço.
    Minha opinião sobre a mídia brasileira neste momento é parecida com a de milhares que estão opinando na internet a respeito; sobre alguns comentários do OI e de alguns articulistas também. Porém nem tudo está perdido e ainda há o que se salvar neste espaço. A nossa briga com o Sr. Dines, por exemplo, que se arrasta há tanto tempo pode estar se alimentando na vaidade humana: ninguém quer rever sua posição, tudo bem. Mas estamos perdendo tempo, pois a vida e a mídia continuam. Vamos olhar pra frente, sempre criticamente. Há coisa nova no pedaço, vamos lá, não podemos mais parar.

  13. Comentou em 14/11/2006 douglas puodzius

    O interessante é iniciar uma matéria do nada e depois sair por aí, como se diz, repercurtindo a matéria. Obviamente, os parlamentares de oposição devem estar nesse momento, como de costume, fazendo centenas de discursos sobre a bombástica matéria do Estadão. É só assistir a tv camara ou a tv senado e a diversão é garantida… É um tal de ler matéria de jornal e fazer discurso inflamado sobre a ‘verdade’ que ali se encontra, que parece o anuncio do final dos tempos. Durante os discursos, cujas as vozes vão se revezando no pulpito, sempre aparece um aparteante com outra informação Bomba de algum Blog, geralmente do Noblat, dando mais conscistencia ao tema. No dia seguinte, lá vem as repercussões sobre a matéria sem pai e nem mãe da vespera. E assim seguimos orfãos de informação, ou, a informação orfã nos persegue. De qualquer forma, sempre podemos dar melhor utilidade a um jornal velho(embrulhar carnes ou …)o problema é o que fazemos com o radio, a tv e a internet…
    Com relação ao tema. A unica coisa que sei, foi que a oposição ficou por dias dizendo que o pessoal da tv camara alterou o horario de reprise dos seus importantes discursos e que tal atitude ocorrera pelo governismo do pessoal da tv estatal. Acho que isso poderia ter entrado na matéria do estado, Mas, talvez o jornalista não seja tão informado quanto eu, ou talvez porque isto não venha de fontes desconhecidas.

  14. Comentou em 14/11/2006 Eduardo Guimarães

    Luiz, quero que reflita sobre o por que de esse tipo de ‘erro’ não ocorrer com PSDB ou PFL. E não vamos vir com aquela história de que a imprensa só cobra o governo federal porque é o governo federal o que lhe interessa, pois quando Marta Suplicy estava na prefeitura paulistana saia nas Folhas, Globos, Estadões e Vejas da vida sendo acusada de tudo e mais um pouco, enquanto que uma instância mais alta da administração pública paulista, o governo do Estado, era literalmente ignorado pela imprensa – ou seria acobertado?

  15. Comentou em 14/11/2006 Malu Ferraz

    Pergunto-lhe: como posicionar-me ante a tudo isso, visto que não temos como saber o que é verdade e o que manipulação. A Imprensa está de tal forma desacreditada que penso que a tendencia seja a de ignoramos-na, ficarmos alheios e indiferentes a ela. O interessante é que quando faz críticas a seu procedimento, logo somos adjetivados, categorizados, onde sabemos ser essa a forma exata , encontrada por quem não admite ser contestado,
    Difícil não se colocar no lugar de pessoas do Governo, ou o próprio Governo quando veem sendo dados como fatos, o que são meras especulações. E se reclamam, logo surgem com a cansativa ( portanto vazia) desculpa, de que se está interferindo na propalada liberdade de Imprensa. E com esse falso mote agem de má- fé, pois sabem de sua não veracidade. Manipulam até ás ultimas consequências. Dines, por exemplo vem seguindo ultimamente esse figurino. Incapaz de reconhecer suas falhas, segue querendo, quase impondo o adestramento dos que que querem entender, visto que não mais aceitam as enganações.
    Nesse caso sobre a Radiobrás, li a matéria e, de fato, não corresponde ao titulo. As eleições foram pontuadas por esse tipo de jornalismo. Está cansando!

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