Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A missão ‘quase’ impossível dos jornais

Por Carlos Castilho em 27/02/2006 | comentários


A Associação Mundial de Jornais (World Association of Newspapers ) criou em janeiro um grupo de trabalho para tentar achar uma solução para o problema provocado pelos mecanismos de buscas na internet, especialmente o Google, que disponibilizam grátis na Web notícias que os jornais cobram de seus leitores.


Mas não está sendo fácil achar uma saída, segundo admitiram membros do grupo de trabalho que deve apresentar o seu relatório nos próximos dois meses. Ao que tudo indica, a WAN embarcou no que se poderia classificar de missão impossível, porque o que está em discussão não é uma questão financeira ou de direitos autorais, mas o novo conceito de informação.


A crise vivida pela maioria dos jornais no mundo inteiro os está obrigando a tirar ‘leite de pedra‘ no esforço para revisar planos de negócio e recuperar receitas perdidas para a internet. A opulência financeira de mecanismos de busca como Google, Yahoo e MSN atraiu a atenção dos sócios da WAN que procuram pegar uma fatia do faturamento milionário de sites cujo negócio depende, em boa parte, da indexação de notícias de jornais.


A Agência de Notícias France Press (AFP ) já entrou na justiça norte-americana exigindo o pagamento de direitos autorais por fotos indexadas pelo Google e disponibilizadas gratuitamente para quem consultar o banco de imagens do mega sita de buscas.


Mas o argumento da AFP e a preocupação da WAN esbarram numa nova realidade informativa que está cada dia mais entranhada no nosso quotidiano. É impossivel ignorar que a internet é movida à base de informação, boa parte da qual é de livre acesso. A internet e a web deixariam de ser o que são caso os internautas tivessem que pagar para entrar em qualquer site. E não dá mais para voltar atrás na história e nem no processo econômico no qual a rede é hoje um componente insubstituível.


O Google alega que ele apenas mostra onde estão as informações, cabendo ao usuário ir até o endereço para obtê-las. Certo, mas o site de buscas não menciona o fato de que todas as páginas indexadas pelos seus robôs automáticos são cacheadas, um jargão tecnológico para indicar que uma cópia fica guardada nos servidores do Google, mesmo que o autor do material decida retirá-la da rede.


O que, por enquanto, é uma disputa jurídica, deve se transformar em breve numa batalha político-ideológica em que estarão em jogo duas visões opostas do que é informação: a dos mecanismos de busca na Web cujo negócio apoia-se no livre fluxo da informação e a dos jornais, editores de livros, emissoras de rádio e TV, que adotam o sistema tradicional de direitos autorais.


A questão central não está na gratuidade da informação mas na liberdade de fluxo, embora muita gente ache que, na verdade, está se falando da mesma coisa. A liberdade de fluxo é um valor porque ela se refere à uma questão essencial no novo modelo econômico que está se consolidando a partir da generalização da internet e não apenas numa conjuntura de negócios.


Já o preço da informação é uma questão comercial. Na economia analógica era necessário cobrar para viabilizar um jornal, por exemplo, mas na era digital multiplicam-se os casos de empresas que cresceram dando de graça informação aos seus usuários. O Google é talvez o exemplo mais conhecido.


A liberdade de fluxo de informação é essencial para a sobrevivência da economia mundial porque ela é indispensável para a aceleração do processo de geração de novos conhecimentos sem os quais o sistema industrial global entra em colapso. A espantosa velocidade com que as máquinas fotográficas digitais substituiram as que usam filme é uma prova, entre muitas, do valor econômico da circulação livre e acelerada de informações.

Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/03/2006 Felipe Zamarioli

    Sou a favor da livre circulação da informãção, cito o Jornal A Tarde aqui de Salvador. A algum tempo a sua versão online está restrita aos assinantes, alguns podem achar bom, mas já é uma forma de controlar o livre acesso à informação. Por outro lado (ainda não foram realizadas pesquisas) o número de acessos ao jornal deve ter caído e que muitos antigos leitores virtuais do A Tarde Online agora só o acessam para lerem ‘manchetes’. Se toda a discussão entorno de direitos autorais recair sobre os mecanismos de busca os maiores prejudicados seremos nós leitores pois o Google por exemplo servirá como gigantesco site de busca de manchetes. só para explicar melhor, a maior parte do faturamento dos jornais impressos são das cotas publicitárias e não da venda do produto jornalístico, assim como na versão online que ‘ganha’ com o número de acessos.

  2. Comentou em 05/03/2006 Dandara Assunção

    informação? mas o que é isso? seria textos ou dados que permitem o leitor compreender determinados assuntos? e isso não é direito de todo cidadão?
    comunicação e informação é direito de todos o conhecimento é algo que deve ser fornecido a qualquer pessoa sem distinção de classe, cor ou nacionalidade. Entendo que existe um questão econômica importante e que com toa certeza deve ser levada em conta, mas se os internautas precisarem pagar pra ler a tese de que a mídia pertence a quem tem um poder aquisitivo vai ficar comprovada, então a informção pertence ao poder, até quando isso vai continuar? Vai ser eternamente assim? o rico mais inteligente o pobre mais ignorante,a história da humanidade se contruiu sob essa base e como história é eterna, talvez as disparidades sociais também sejam.

  3. Comentou em 03/03/2006 Alfeu Fundão

    Há algum tempo fiz pesquisa iconográfica de estações ferroviárias principalmente as que não mais existem ou então a forma original das atuais. Fui a Museus e a alguns jornais. Era interessante que muitas fotografias que havia nas empresas jornalísticas eram fotocópias das fotos que pertenciam ao Poder Público(por exemplo as de Augusto Malta). Concordo com a cobrança que me era pedido por cada cópia, mas será que o Poder Público era remunerado por essa utilização?

  4. Comentou em 03/03/2006 Alberto

    A situação dos jornais é efemera…cobrar por informações disponibilizadas gratuitamente na internet. Não seria o caso de se reinventar a roda, mas sim, reaprender a andar. As empresas jornalísticas tem de se adaptar à volumosa e crescente demanda por informações que só a web é capaz de proporcionar.

  5. Comentou em 03/03/2006 Paulo de Tarso Neves Junior

    O crescimento do Google desmonta a falácia liberal ‘Não existe almoço grátis’. As coisas mudam, e não adianta querer deter certos processos através dos tribunais. Há várias formas de ganhar dinheiro, os jornalões precisam encontrar alguma. Cobrar por notícias na web com certeza não será uma delas.

  6. Comentou em 03/03/2006 Marcio

    A perda do monopólio da informação dos jornais para a internet é sem exagero algum uma das questões mais apaixonantes da atualidade. A maneira como a ‘nova mídia’ disponibiliza e discute a notícia é tão impressionante e rápida que vai se levar ainda alguns anos para assimilar essa mudança. Por enquanto as empresas de jornais devem sentar e chorar antes de tomarem alguma atitude. Negociar valores razoáveis para cobrar imagens e informações nos sites de busca e investir nos modelos on line é a melhor solução. O acesso do usuário passaria a ser gratuito, dinheiro só com publicidade. Outra coisa importante é a mudança no conceito da informação. O velho ‘jabá’ (as notícias com fins mercantilistas e politiqueiros, que reforçam vigorosamente o caixa das empresas jornalísticas) fica mais aparente, pois através de sites de discussão e blogs on line a notícia passa a ter um tratamento mais verossímel, existe a participação instantânea de quem está do outro lado da matéria. Recursos para pesquisa da própria informação, através dos sites de busca, estão disponíveis e tornam a relação entre o interlocutor e o usuário (leitor) muito mais interessante. O jornal impresso não desaparecerá, é óbvio, mas terá que passar por um processo de reestruturação.

  7. Comentou em 02/03/2006 Tiago Bortoletto Vaz

    Particularmente, tenho encontrado as informacoes mais valiosas em fontes que nao cobram pelo seu conteudo, e as opinioes mais espirituosas em fontes de nao-especialistas no assunto ‘escrever’, que tambem disponibilizam tudo livremente. Eh uma nova era. Caminho sem volta. Se faltam ideias para se adaptar, devem arcar com o prejuizo – nao seria apenas diminuicao de lucro? Viva a Wikipedia.org. Nao ‘viva o google’. Eh muito poder na mao de uma soh corporacao, isso nos causarah problemas no futuro. Ficam meus 2 centavos.

  8. Comentou em 02/03/2006 Antonio Bentes

    Chega a ser infantil achar que os ‘jornalões’ não devam cobrar pelo conteúdo. Almoço grátis só na cabeça de quem não sabe o que é pagar a folha no fim do mês.
    Informação é mercadoria como outra qualquer, compra quem quer, ou melhor, quem pode.

  9. Comentou em 02/03/2006 Caroline Arice

    A questão é realmente impossível de se resolver. O rápido e barato acesso a informações é algo inevitável.
    Só espera-se que de algum modo se mantenha a qualidade destas informações.

  10. Comentou em 28/02/2006 Marcelo Monteiro

    Quem inventou a roda teveria tê-la patenteado e cobrado direitos autorais da lua, do sol e dos outros planetas,né?

    Gutemberg traficou a imprensa inventada na China, para o ocidente. Surgiram jornalões. Agora surgiu a internet, google, etc e que os jornalões morram!… eles surgiram com o desenvolvimento científico e que partam, com o desenvolvimento científico!

    ‘Liberdade de imprensa só quem teve foram os ex-donos de jornais…’ – viva o google!

  11. Comentou em 28/02/2006 Jurandir Araujo

    Tudo tem seu preço: Se os jornais, a imprensa, principalmente a Brasileiras, fossem imparciais, verdadeiros,não estariam na banca rota.

  12. Comentou em 28/02/2006 Eduardo Abreu

    Chega a ser ridículo ver alguns sites de notícia cobrando por informações que em pouco tempo estarão disponíveis a todos. Acho que a saída pra esses profissionais não é cobrar pela notícia, mas sim pela opinião. Ler comentários bem fundamentados escritos pelos grandes comentaristas é melhor do que ler a própria notícia algumas vezes.

  13. Comentou em 28/02/2006 Giovani Tutihashi

    Particularmente, não entendo muito dessa briga entre o Google e os jornais, mas não acredito que os jornais perderão para a internet mesmo que ela disponibilize informações de graça. Não há nada, pelos menos de minha parte, que substitua a verdadeira fonte de informações: revistas, jornais, rádios, televisão. Sites como o Google apenas me chamam a atenção para saber onde ir buscar informação. É isso que importa!

  14. Comentou em 27/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    É interessante esta discussão sobre direitos autorais jornalisticos na Internet. Antes de ficar mendigando centavos na rede, as empresas jornalisticas deveriam abrir suas contas para demonstrar o quanto ganham com a venda de seus produtos e o quanto arrecadam com propaganda. Se o que mantém as empresas de mídia for a propaganda, a questão dos direitos autorais está resolvida. Assim como não pagamos para ler história em revistas e jornais velhos nos consultórios dentários, também não devemos pagar para acessá-las ‘on line’. A propósito, por quanto tempo o produto jornalistico deve ter direito autoral… Se for até virar história os historiadores deveriam pagar os jornais e revistas antigos que consultam para rabiscar seus livros e teses. A impressão que fica desta discussão é a seguinte: o gooogle é rentável e os jornalões querem participar de sua receita. Seria justo, desde que distribuissem parte dos lucros obtidos com propaganda para o próprio google, que acaba reforçando a divulgação das publicações (inclusive das propagandas).

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