Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A notícia como um vírus

Por Carlos Castilho em 09/01/2009 | comentários

O último número da publicação acadêmica Nieman Reports sugere que, na era virtual, a notícia deve ser tratada como se fosse um vírus em vez de uma mercadoria ou produto acabado. A proposta está no artigo de Melissa Ludtke, a editora do número especial da Nieman Reports dedicado às perspectivas do jornalismo na internet, no qual ela insiste na necessidade de procurar uma redefinição do conceito de notícia, dando ênfase a um enfoque dinâmico baseado na remixagem, recombinação ou mash-up de conteúdos.


Melissa Ludtke afirma que, no ambiente virtual, os jornalistas terão que se acostumar com a idéia de que a notícia inevitavelmente escapará do seu controle. Que uma vez publicada, ela será comentada, complementada e refeita num circuito formado por weblogs, listas de discussão, comunidades online, chats e páginas wiki, sem que o autor original possa interferir no processo.


A metáfora viral da notícia pode não ser perfeita, mas nos ajuda a entender melhor como a recombinação, remixagem ou mash up funcionam na prática. Um vírus, uma vez instalado num organismo, multiplica-se segundo parâmetros que muitas vezes resultam imcompreensiveis até para médicos e pesquisadores. Há vírus mutantes como o da cárie e o da Aids, que mudam de forma tornando o seu combate quase impossível. Eles modificam os ambientes onde se instalam e se recombinam constantemente.


Até agora os jornalistas eram o canal privilegiado de comunicação entre os políticos e o público, mas esta situação está mudando rapidamente. O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, por exemplo, prefere divulgar as suas decisões na sua página web em vez da televisão e jornais. Seus pronunciamentos ao país saem primeiro no site YouTube e a troca de opiniões com o público acontece no site Change.gov.


A comparação aos virus é mais uma tentativa de procurar redefinir a notícia. Trata-se de um processo em andamento e sem prazo para terminar. Como Melissa Ludtke assinala, temos hoje mais perguntas do que respostas e mais dúvidas do que certezas. Quem tem mais urgência na busca de uma nova definição de notícia são os executivos da mídia, porque está em jogo a materia prima de uma indústria em crise.


É nesta nervosa busca por uma definição de notícia que jornais como o Miami Herald resolveram ouvir os leitores num polêmico projeto chamado ‘Why We Do What We Do’ (Por que fazemos o que fazemos). O jornal submete coberturas importantes ao crivo dos leitores em eventos nos quais os participantes podem questionar correspondentes, fotógrafos e editores. Nancy San Martin, editora assistente da seção internacional do Herald e autora de um dos textos do Nieman Report, admite que ainda é cedo para avaliar os resultados da experiência, mas uma coisa já é quase certa, segundo ela: “O que os leitores consideram notícia tem pouco a ver com o que a redação acha que é”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/01/2009 Fernando Cavalcante Neto

    Parece-me que cada vez mais a ideia de Richard Dawkins sobre ‘meme’ está ganhando espaço:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Meme

  2. Comentou em 12/01/2009 Ibsen Marques

    Acho que o jornal escrito e televisivo enfrentam uma questão crucial e, ao que parece, ainda não se deram conta. A questão não é propriamente o conceito de notícia que está em jogo, mas o conceito de jornalista. Abrir os olhos da classe será meio caminho para se buscar soluções focando a direção certa.

  3. Comentou em 11/01/2009 Nilton Cesar Felix Rodrigues Rodrigues

    Ao meu ver estamos passando por uma grande crise de valores, tudo se volatiza e se perde, não temos em quem confiar quer seja na política, nas instituições como o estado. Há uma verdadeira crise nos valores , considerados inabalavéis para alguns, vemos que o processo de comunicação se espande a uma velocidade voraz, onde estamos bombardeados de informações, fica no ar aquestão de qual informação deve ser priorizada, no atropelado dia a dia que vivemos, não se tem tempo de checar se as as informações são verdadeiras, tem no minimo bom senso ,informa com profundidade ou consegue transmitir a realidade. Bem como também vivemos na sociedade de consumo, onde tudo pode ser adquirido nas prateleiras do mercado, até mesmo a informação passou a ser consumida como mercadoria, é a crise em que todos estamos envolvidos ea informação, como a comunicação virarm produtos de consumo, com o advento da crise mundial, a crise dos mercados esta também influenciando todo o processo de comunicação, pois os grandes empresários da comunicação estão presenciando a queda da verdade, que supostamente acham que publicavam. A IMPRENSA DE UM MODO GERAL DEVE APRENDER A LAMBER SUAS FERIDAS…..

  4. Comentou em 11/01/2009 Edward Wilson Martins

    O artigo é excelente e esclarecedor…! “Temos hoje mais perguntas do que respostas e mais dúvidas do que certezas” é uma afirmação emblemática…! Quem esperava que a Internet em dez anos fosse chegar ao ponto em que chegou hoje? Isso deixando de lado o fato que o Brasil está ainda uns dez anos de atraso em TI (Tecnologia de Informática), para ser generoso na avaliação, em relação aos EEUU e à Europa. A maioria dos brasileiros tem verdadeiras “carroças” em casa e nos seus escritórios, os cursos de informática são ruins e lentos para ensinar, a alfabetização “internética” ainda está engatinhando. Mas a velocidade dessas mudanças foi impressionante e o artigo burila uma discussão que merece ser ampliada…! Parabéns, grande Castilho…!

  5. Comentou em 11/01/2009 dante caleffi

    Quantos veículos, importantes e idôneos, circulam no território nacional,divulgando notícias e opiniões de seus articulistas?Excluam-se, os das ‘Organizações Globo’,da familia Frias,do Civita e ainda,vá lá, Mesquita. Com essa concentração nesse reduzido grupo,predominantemente paulista,é possível crer ,numa imprensa independente e equilibrada? Nem se exige, que seja imparcial. Um exemplo? A crise aí, está! Nas manchetes ,desses. Se procurarem nos impressos ou eletrônicos de dez ou doze jornais americanos ou europeus,não encontrarão , um terço do alarmismo do que aqui se publica.Ou terrorismo. Notem ,que os países centrais, são o epicentro da crise e o Brasil , depende ,somente,23%,de comércio exterior com eles. Contudo, a torcida é grande.Espera-se , para as próximas horas, gigantescas passeatas pelas avenidas das principais capitais do país,comandadas pelos representantes da mídia,sustentando as palavras de ordem:’Unido pela CRISE!’,’CRISE,já!,’Cansados de esperar pela CRISE!’,’Sem CRISE,não há salvação!’. à guisa de comissão de frente, o elenco das novelas da GLOBO,redatores, e colunistas,dos principais jornais
    de Botocúndia.

  6. Comentou em 11/01/2009 Jaime Collier Coeli

    Perto de um seculo para chegar até a imprensa a simples observação que a ‘verdade’ é construida. Mas os politicos do antigo PSD já sabiam alguma coisa desse processo in ‘ Interessa apenas a versão’, coisa que os marqueteiros praticam com eficiência há muito tempo, na expressão consagrada ‘Caluniem, caluniem, alguma coisa sempre fica’. De fato, já se sabe desde o início do século passado, de um ponto de vista lógico, que quando se expressa uma ‘verdade’ apenas se faz uma construção abstrata. Isso enterra a ilusão do jornalismo como ‘expressão da verdade’.

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