Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
Menu

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A nova agenda quicando na boca do gol

Por Luiz Weis em 13/07/2008 | comentários

Começou com a lei da tolerância zero ao álcool sobre rodas. E disparou com a Operação Satiagraha.

É o debate sobre o direito individual e o interesse público no Brasil.

Está na imprensa, na internet e – muito – nas conversas.

Em nome do interesse público, dizem os críticos, impôs-se aos motoristas uma proibição draconiana, quando o Código de Trânsito Brasileiro já fixava limites razoáveis ao consumo de bebidas. Não é porque a norma não era cumprida que se precisava de outra. Com a agravante de praticamente forçar o cidadão a depôr contra si, o que a Constituição veda: quem recusar o teste do bafômetro vai para a delegacia.

Respondem os médicos: a lei mudou para melhor porque álcool é absolutamente incompatível com direção segura. E a prova de que melhorou – ou seja, de que o interesse público foi beneficiado – foi a grande redução do número de vítimas de acidentes de trânsito nos fins de semana desde que a lei seca entrou em vigor.

É fogo de palha, replicam os outros. Com o tempo, a fiscalização vai diminuir – e tudo vai acabar de novo em chope.

Não vai, não, é a tréplica. Milhares e milhares de motoristas estão aprendendo que podem curtir a noite, deixando o carro na garagem. A grande maioria deles já percebe que estão até no lucro – um estresse a menos.

Segundo lance. Em nome do interesse público – no caso, a repressão aos crimes de colarinho branco, que sangram o erário – apontam os liberais, a Polícia Federal, procuradores e juízes pintam e bordam, esquecidos de que, nas sociedades livres, mesmo os acusados dos piores delitos têm direitos assegurados: o de não ser humilhados pela presença da mídia no momento da captura; o de não ser manietados se aceitarem pacificamente a prisão; e o de recorrer a tantas instâncias judiciais quantas possíveis, e tantas vezes quantas necessárias, para recuperar a liberdade.

Os advogados do interesse público invocam o argumento da hipocrisia: os liberais não protestam quando pobre, preto, favelado vai em cana, com a delicadeza costumeira dos policiais, e nem sequer têm acesso a bons advogados para ir até o Supremo com o pedido de habeas-corpus.

E se é verdade que mais vale um culpado impune do que um inocente castigado, é verdade também que o que fica do esforço agora consistente de ir atrás dos ladrões de casaca não é a pirotecnia policial – que pode ser curada sem grandes problemas –, mas o enraizado senso impunidade dos tubarões – que a muito custo começa a ser desafiado, com os inquéritos e processos por crimes financeiros e fiscais.

Isso está longe de esgotar a discussão, nem era o que se pretendia aqui. A notícia – a grande notícia – é a discussão em si mesma, que transborda por toda parte. Já não era sem tempo.

Esse é um avanço a que a imprensa precisa se associar mais vigorosamente, e não só se abrindo ao mérito das controvérsias. A mídia parece que ainda não se deu conta de que “o desejo sufocante da sociedade por justiça real, ética e igualdade” (Eliane Cantanhêde, na Folha de hoje) muda intensamente a agenda do debate público nacional.

Como isso vem acontecendo é matéria que está quicando na boca do gol à espera de um finalizador.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/07/2008 Ivan Moraes

    ‘Acho q moralmente os indiciados deveriam ficar presos, mas, juridicamente, nao sei’: eu sei, Odracir.. As leis de protecao aos ricos foram importadas para que os ‘juridicamentes’ nao occorram. Eh todo mundo espiao.

  2. Comentou em 16/07/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Caro xará de Belo Horizonte, que parte da palavra retórica você não entende?

  3. Comentou em 15/07/2008 Alexandre Motta

    Que dizer Dona Nika que ´a lei só funciona para as pessoas que enriquecem as custas do povo´. Como a lei manda prender as pessoas que cometem crimes, e se ela só funciona para pessoas que enriquecem as custas do povo, significa que só essas pessoas que estão sendo presas. Para mim, nada mal. Mas voce está lamentando. Certamente deseja que a lei funcionasse para pessoas que empobrecem às custas do povo. Ou seja, que essas pessoas também estivessem presas. Eta Brasil!!!

  4. Comentou em 15/07/2008 Alexandre Motta

    ‘Algemas neles, pois, e de preferência bem apertadas’ Que isso, Alexandre Carlos? Você está confundindo a finalidade da algema. Algema não é meio de punição. Punição é multa, detenção, reclusão, prisão simples, prestação de serviços à comunidade. A finalidade da algema é imobilizar aquele que recebeu voz de prisão para que ele não fuja. Eta Brasil que adora confundir as coisas!!!

  5. Comentou em 15/07/2008 Carlos N Mendes

    Colocação recorrente em milhões de comentários, esse negócio de se apoiar alguma medida inconstitucional porque ela ‘está dando certo’ é típico de democracias imaturas. Para quem não sabe, as leis brasileiras devem ser coerentes em relação à nossa Constituição; não porque nossos legisladores devam ser um chatos, mas porque a Constuição funciona como uma garantia usurpadores do poder. Tendo nossas necessidades imediatas atendidas, acabamos aceitando essas leis aleijadas. Há duas maneiras de se resolverem nossos problemas – a certa e a rápida. Se é para seguir essa filosofia de que os meios justificam os fins, vamos obrigar todo o pedestre a colocar um capacete para atravessar a rua. Garanto que muito menos gente ia morrer ao ser atropelada.

  6. Comentou em 15/07/2008 Odracir Silva

    Eu tb acho q esta ee uma discussao muito saudavel. Ee bom q haja um Gilmar Mendes, ee bom q haja um Fauso de Sanctis. Acho q moralmente os indiciados deveriam ficar presos, mas, juridicamente, nao sei. Porem, entendo os argumentos do GM, e mesmo achando q haa uma injustica social, questiono se o culpado ee o juiz, ou ee o sistema. Pelo q entendi quem tem q prover a defesa aos pobres ee o executivo, e nao o legislativo.

  7. Comentou em 15/07/2008 Nelson Bastos

    O que impede o Ministério da Justiça de atuar com a mesma desenvoltura no caso do Mensalão?

  8. Comentou em 15/07/2008 Nika Pereira

    Se a lei seca está dando certo, os números estão aí pra confirmar. Agora não vejo mais a garotada encher a cara e pegar a estrada, pelo menos por enquanto, e porque?Agora pesa no bolso, seja dele ou dos pais.
    Em relação a Polícia Federal, ela faz o trabalho dela, prender. Seja lá quem for!O povo brasileiro precisa ver a cara de quem os tá roubando. Pena que mais uma vez a lei só funciona para as pessoas que enriquecem as custas do povo.

  9. Comentou em 15/07/2008 lillian penarol

    Vergonhoso, o papel da mídia corrupta e tão golpista quanto os mais atrozes criminosos de guerra que usurparam a liberdade do povo por tanto tempo. Agora toda a sujeira da imprensabrasileira está vindo atona.

  10. Comentou em 14/07/2008 Rogério Ferraz Alencar

    O acusado tem direito de recorrer a tantas instâncias judiciais quantas possíveis, e tantas vezes quantas necessárias, para recuperar a liberdade, mas são poucos os que têm direito de recorrerem imediatamente ao STF. Daniel Dantas não tem esse direito, mas recorreu e foi atendido. Duas vezes, em 48 horas.

  11. Comentou em 14/07/2008 Marco Antônio Leite

    A pirotecnia da polícia faz parte do show, pois essas prisões têm que ter ingredientes que mexam com a platéia que quer ver cena de sangue jorrar pelo pescoço dos bandidos da elite. A qual vem jogando na boca dos cofres públicos e batendo um bolão com o nosso dinheiro. Não devemos aceitar que crimes dessa natureza fiquem em pune e que também o povo não saiba o que esta acontecendo com o nosso real.

  12. Comentou em 14/07/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor jornalista, porque vossa senhoria sai na defesa somente dos fora da lei da cueca de seda. Ademais, você sempre esta alegando que a polícia federal esta usando de truculência para prender os grandes desviadores do dinheiro público. No entanto, quando se trata de marginais pobres não vejo nenhuma manifestação de sua parte sobre a truculência que as polícias militar e civil usam para prender esses facínoras, bem como a imprensa escandalosa escracha a imagem dos bandidos pobres. Senhor deixa a afetação de lado e, entenda que bandido é bandido, como também mocinho é mocinho? Sem censura?

  13. Comentou em 14/07/2008 Carlos N Mendes

    Detalhe perolar da Operação Satiagraha, foram citados nominalmente alguns jornalistas como ligados ao esquema de Dantas. Não sei, mas dentro de mim, é como se algo sagrado tivesse sido atingido por algum iconoclasta…

  14. Comentou em 14/07/2008 Edmilson Fidelis

    Pena que uma tropa de zaqueiros está pronta para isolar a matéria lançando-a para bem longe do gol.
    O tal finalizador ainda está para nascer.

  15. Comentou em 14/07/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor jornalista direitista, porque vossa senhoria sai na defesa somente dos fora da lei da cueca de seda. Ademais, você sempre esta alegando que a polícia federal esta usando de truculência para prender os grandes desviadores do dinheiro público. No entanto, quando se trata de marginais pobres não vejo nenhuma manifestação de sua parte sobre a truculência que as polícias militar e civil usam para prender esses facínoras, bem como a imprensa escandalosa escracha a imagem dos bandidos pobres. Senhor deixa a hipocrisia de lado e, entenda que bandido é bandido, como também mocinho é mocinho?

  16. Comentou em 14/07/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Talvez a discussão nem seja essa, mas a da REAL democracia. Sem essa de ‘verdade orwelliana’, a de que alguns são mais iguais do que outros. Ou se punem todos os meliantes, desde o ladrão de galinha até o ladrão de colarinho sujo, ou a democracia é uma basófia, conversa para encher livrinhos didáticos. E é bom deixar claro uma coisa: o ladrão de galinha rouba os lucros de momento do comerciante. É errado, mas é momentâneo. O ladrão de colarinho sujo rouba os sonhos de uma nação. Com suas falcatruas e desvios do erário ele rouba escolas, postos de saúde, transportes, habitação e a dignidade de um povo, ou seja, ele rouba muito mais que uma granja, ele rouba a possibilidade de sermos soberanos. Algemas neles, pois, e de preferência bem apertadas!

  17. Comentou em 14/07/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Tenho uma solução salomônica para seu dilema. O Dantas, Nahas e cia. são novamente presos, algemados e jogados no camburão (como todo ocorre com qualquer marginalzinho). O motorista do camburão segue para a PF a toda velocidade mas capota na Marginal do Rio Tierê e despeja sua carga podre no rio Tietê. Todos morrem e a culpa é do motorista bêbado. A imprensa consternada culpa a fiscalização que não fez o motorista da PF assoprar o bafômetro. Todos ficamos tristes, especialmente os que tem dinheiros nas mãos do Nahas, Dantas e cia. PS: A insistência da mídia de defender a inocência do Dantas já está me fazendo suspeitar que alguns jornaleiros e seus amigos tem dinheiros com ele.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem