Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A participação do público na reforma dos jornais

Por Carlos Castilho em 25/01/2009 | comentários

O jornal espanhol El País é a mais nova experiência de adaptação de uma empresa convencional às novas condições criadas pela internet no mercado da comunicação e da informação (ver aqui). É mais um conglomerado jornalístico que pretende se transformar numa marca ou grife informativa, independente do canal de comunicação usado para chegar até o público consumidor de informações.


 


A nova estratégia do El País é mais uma  pá de cal na hegemonia do jornal impresso como canal de transmissão de notícias e elemento chave na formação da agenda pública de debates. A meta dos grandes conglomerados da imprensa internacional é agora apostar no prestígio dos títulos de jornais tentando transferir credibilidade para um produto informativo novo, cujo perfil ainda não está claro.


 


Outros grandes ícones da imprensa mundial como o The New York Times, The Washington Post, The Guardian e Le Monde estão apostando na mesma alternativa mas usando estratégias diferentes. No Brasil também existem projetos de adaptação à nova realidade, como os do grupo Globo e RBS, mas eles são bem menos arrojados porque nossas empresas são muito mais conservadoras e também porque a situação financeira delas ainda não é tão difícil quanto as da Europa e dos Estados Unidos.


 


Ao abandonar a plataforma papel como a base principal do seu modelo de negócios e optar pela aposta na qualidade da informação como fator capaz de gerar valor agregado ao seu produto, as empresas jornalísticas estão dando um salto no escuro porque elas passam a depender de credibilidade e este é um fator extremamente volátil, em especial no ambiente digital.


 


Além disso, as empresas testam um novo modelo de negócios baseado na oferta de notícias e informações qualificadas, sem dar a devida atenção ao fato de que o sistema de produção de conteúdos jornalísticos está mudando radicalmente. Estamos entrando rapidamente no contexto da produção coletiva e colaborativa de informações, enquanto a quase totalidade dos jornais ainda está atrelada à cultura da notícia feita e empacotada dentro das redações.


 


A informação e o conhecimento são cada vez mais o resultado da ação de agentes independentes e da colaboração entre milhares de indivíduos cuja característica mais valorizada não é a sua titulação acadêmica ou experiência profissional, mas a diversidade de experiências.


 


Quem diz isto não são nerds messiânicos ou delirantes, mas executivos de empresas como Procter & Gamble (produtos de higiene), Dell (computadores), Lilly (indústria farmacêutica) e a agência espacial norte-americana (NASA). A P&G e os laboratórios Lilly são os principais incentivadores do projeto InnoCentive, lançado em 1998, e que se apóia na colaboração de entre cientistas e pessoas comuns na busca de soluções inovadoras  para problemas complexos.


 


Experiências como a do InnoCentive estão se reproduzindo rapidamente em várias áreas, tanto da atividade industrial como na academia. Todas elas estão apoiadas num elemento principal: a coleta do conhecimento desenvolvido por pessoas que não são consideradas especialistas, como mostram os trabalhos de instituições como o Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC), da Universidade Federal de Santa Catarina.


 


Se vocês se interessarem, há muito material sobre isso publicado tanto em livros como na Web. Não dá para me alongar demais aqui porque o importante agora é mostrar o que isto tem a ver com o jornalismo e a imprensa. A notícia não é mais um monopólio e um privilégio das redações, da mesma forma que as grandes descobertas cientificas deixaram de ser um monopólio dos centros de pesquisas, como mostra o caso das novas galáxias e novos fenômenos estelares, identificados por amadores.


 


A notícia e a informação estão nas comunidades sociais e na multidão de indivíduos conectados em redes. É o público que começa a produzir informações, como prova o fenômeno dos blogs e da enciclopédia virtual Wikipédia, cujo princípio da autoria coletiva e anônima foi reconhecido até mesmo pela secular Enciclopédia Britannica, que decidiu abrir ao publico parte da produção dos seus verbetes.


 


Os jornais já tentaram se transformar verdadeiras federações de blogs, mas a experiência não apontou resultados conclusivos. O problema não está no formato blog, mas no conteúdo, já que os blogs de jornais, geralmente, não passam de colunas assinadas e publicadas na Web. A participação do leitor é quase nula.


 


O grande problema é como envolver o público na produção da informação e das noticias de um jornal. Quanto a isto existem apenas experiências parciais como a do jornal sul-coreano Ohmy News ou da emissora colaborativa norte-americana Current TV. Sem o envolvimento do público, é impossível o jornal produzir todas as informações que a comunidade necessita, porque haveria necessidade de uma redação enorme, o que inviabilizaria financeiramente o projeto.


 


A outra alternativa é optar pela segmentação, ou seja, os jornais deixariam de ser supermercados da informação, como atualmente, para funcionarem como butiques ou nichos informativos. Mas ainda assim a participação do público seria essencial porque a colaboração voluntária serviria para contrabalançar o faturamento obviamente menor.


 

Este assunto merece ser mais discutido, principalmente por meio da participação dos leitores do Código. Os jornais estão fazendo de tudo para chegar a um novo modelo de produção de informações, mas uma coisa parece certa: sem o envolvimento do público consumidor de notícias, vai ser muito difícil atingir este objetivo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/01/2009 Tony Queiroga

    Castilho,

    Viver em tempos de rápida mudança tem desses riscos. Tudo parece mudar tão aceleradamente que não se tem o necessário espaço para a reflexão.
    A convergência digital traz mudanças significativas para a comunicação social, em particular para o jornalismo (esse é o chavão da década). É sobre isso que tenho dedicado os últimos anos na minha pesquisa de doutorado. Em um presente-futuro de excesso de informação (information overload), hoje é possível todos nós participarmos (desde que queiramos, e esse é outro ponto: muitos não querem, nem podem) do debate que antes era restrito a umas poucas pessoas. Jornalistas em particular; daí seu poder. Esse cenário mudou. A informação circula por muitos outros canais além da mídia clássica. Acredito ser essa a principal razão para a complexa crise pela qual passa o jornalista (como tb o jornalismo) no seu papel social. A resposta, creio eu, não é menos jornalista, mas sim melhor jornalista. Será aquele profissional que poderá dar alguma ordem ao caos informacional. Entre diversas contribuições via internet, fóruns, enquetes, comentários de twitters, listas de discussão e tudo mais, no que o cidadão médio, sem tempo e recursos para criticamente tratar a realidade, vai acreditar? É essa a questão do jornalismo atualmente… pelo menos uma parte dela, segundo a minha opinião, que é apenas uma entre tantas….

    abs,

  2. Comentou em 28/01/2009 Adir Tavares

    Notícias: internet passa jornais [e vai passar TV]
    É só entrar aqui: http://smeira.blog.terra.com.br/

  3. Comentou em 28/01/2009 André Luís Câmara

    Excelente texto, Castilho! Eu fico impressionado quando vejo jornalistas sérios ainda de pé atrás com os blogueiros, achando que todos ele querem tomar o lugar dos jornais. E você abre nossos olhos a um panorama mais vasto, que é esse da interatividade. recentemente, no programa ‘Roda Viva’, da Tv Cultura, o criador da Weekpedia foi entrevistado e deu pra perceber como os jornalistas ainda se sentem, de certo modo, ameaçados com a internet.
    Grande abraço.

  4. Comentou em 28/01/2009 Ibsen Marques

    Castilho, existe alguma pesquisa séria que confirme uma migração dos leitores dos jornais escritos e dos espectadores dos jornais televisivos para a internet e seus blogs, sites de mpidia alternativa etc. Não tenho muita certeza do que vou colocar, mas é um’feeling’ que tem me preocupado. Com toda essa velocidade nas transformações que ocorrem em nossas vidas diante de tanta tecnologia, da fragmentação do saber e da enorme correria do dia a dia parece que as pessoas deixaram de ler simplesmente, seja no jornal escrito ou eletrônico. Quem me garante que o foco de transformação não está mais numa migração para o laser do que propriamente para a informação? Há alguma estatística séria que confirme que o volume de acesso à blogs de notícias, jormais eletrônicos e mídia alternativa cresceu na proporção do decréscimo do acesso às mídias convencionais? O público que acessa um e outro é o mesmo? Tenho uma sensação de que as pessoas estão mais preocupadas nos acessos aos orkuts e msn da vida, alinado-se a isso o tempo gasto no trabalho, escola e trânsito é possível que não sobre muito tempo para ler, discutir, opinar e compartilhar as notícias.

  5. Comentou em 27/01/2009 Teresa Leonel

    Parece que o debate tá apenas começando. Afinal, a dinâmica do processo comunicacional existe e é inevitável a mudança do impresso. Pra onde ele vai e de que forma será formatado isso ainda está nublado. No entanto, precisamos instigar o debate para que possamos pensar como trabalhar o conteúdo na rede. É claro, que a credibilidade será fiadora de quem trata este conteúdo. Apurar e tratar a informação para que a mesma se aproxime do tal espelho da realidade parece que ainda vai prevalecer. No entanto, creio que o professor/jornalista Castilho disse algo que ressalta bem o fio condutor desse novo momento da imprensa/comunicação: “sem o envolvimento do público consumidor de notícias, vai ser muito difícil atingir este objetivo”. O modelo de produção da informação. O público será o grande norteador dessa virada. E sem dúvida, a rede é o caminho.

  6. Comentou em 27/01/2009 Tony Queiroga

    (continuando) … se referem a tipos de informação que não têm a mesma característica daquele produzida pelos jornais. O fator tempo é um fator essencial aqui. Por outro lado, a produção coletiva de conhecimento não estão livres de polêmicas quanto a sua validade. Vide as lutas “ideológicas” quanto aos verbetes do wikipedia – que não deixa de ser uma ótima fonte de referência, desde que lida com olhos atentos. Os jornalistas perderam poder? Sim. Vai existir espaço para a colaboração e participação dos leitores? Vai, o globo.com.br é um exemplo disso. Mas de forma alguma isso significa que a produção de notícias e da reportagem esteja fadada a se tornar trabalho coletivo. É um engano essa abordagem. Imaginem um mundo com o excesso de informação atual e sem a referência de uma marca jornalística, tal como a BBC ou o NYT? Para ficarmos em exemplos globalizados… Pensemos nos mecanismo de controle e checagem que sites da web 2.0 precisam implementar para um funcionamento minimamente correto! Seria possível isso num jornalismo 24/7? Imagine a redação que precisa checar todas as dicas e informações que chegam sobre determinadas notícias? bom, tenho que voltar ao trabalho!

  7. Comentou em 27/01/2009 Elis Galvão

    E fica no ar uma questão que não quer calar: e como fica o jornalista nessa história toda? qual o papel dele no novo contexto? Desaparece ou se tranforma em outra coisa?

  8. Comentou em 27/01/2009 Tony Queiroga

    Discordo em vários pontos do artigo. Primeiro, e citando o próprio:

    ‘Ao abandonar a plataforma papel como a base principal do seu modelo de negócios e optar pela aposta na qualidade da informação como fator capaz de gerar valor agregado ao seu produto, as empresas jornalísticas estão dando um salto no escuro porque elas passam a depender de credibilidade e este é um fator extremamente volátil, em especial no ambiente digital.’

    Na minha opinião, papel e internet estão baseados em uma relação de confiança e credibilidade entre jornal e leitor. Por acaso, os jornais tradicionais não dependem da qualidade e da credibilidade do que publicam? Embora, como diz o autor, na internet a credibilidade pode ser mais instável, é exatamente por isso que, ao contrário das infinitas outras fontes de informação, os jornais precisam ser uma âncora firme de referência.

    Segundo, a informação produzida pelos jornais é apenas uma entre as variadas outras formas de conhecimento que estão disponíveis na rede. Embora exista uma tendência a maior abertura no diálogo com o leitor (sou favorável), isso não significa que os repórteres vão perder espaço para o internauta como fonte responsável e ética da notícia. O que as pessoas vão procurar é um agente confiável de informação, não uma cacofonia de opiniões, muitas delas com viés. Os exemplos apontados de produção coletiva são válidos, mas

  9. Comentou em 27/01/2009 Mainan Romero Antunes de Carvalho

    Parabéns pelo artigo. Ouço na Cultura , todos os dias os comentarios de outros jornalistas desse Observatorio. Sempre bons para o pensar e instrutivos para a reflexão livre de ideologias rasteiras e preconceituosas. Bom Trabalho. Mainan

  10. Comentou em 26/01/2009 Ibsen Marques

    Li as informações sobre as mudanças que devem acontecer no El País. O problema é que eles vêem a tendência de obtenção de informação na internet apenas como uma mudança de veículo e não de conceito que é o que o Castilho vem apontando. Nesse sentido tudo fica apenas como ‘uma nova preferência na forma de ler’, isto é, se no jornal em papel ou no jornal on-line, além, obviamente da velocidade com que a notícia ou manchete aparecem ao leitor. Eles ainda trabalham com o conceito de formadores verticais da opinião. Não acredito que seja bem esse o caso. Nós que nos utilizamos da Internet buscamos não só as opiniões alternativas, mas uma forma mais isenta de se abordar um fato. Postar minha opinião e ler outros comentários e outras críticas está se tornando uma necessidade por dois motivos. Primeiro porque lança nova luz sobre um mesmo fato e traz informações obtidas por leitores em outro sites e blogs que não costumamos acessar. De toda forma parece que isso facilita a formação de uma opinião menos atrelada e mais engajada. Me irrita quando leio notícias no UOL por exemplo, e sou impedido de comentar. Não há em nenhum lugar do site um link que me permita comentar as notícias e compartilhar opiniões com outros leitores. Às vezes nem mesmo com o autor.

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