Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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A pergunta que a imprensa não fez

Por Luiz Weis em 16/03/2009 | comentários

O embaixador brasileiro em Washington aparece nos jornais da segunda-feira, 16, dizendo que o encontro entre os presidentes Lula e Obama comprovou o reconhecimento do papel do Brasil na reforma do sistema financeiro internacional.


O peso da economia brasileira dá ao país voz mais ativa no debate sobre os rumos da regulamentação do mercado financeiro, argumentou Patriota.


Diplomatas têm que dizer essas coisas, mas a imprensa tem que fazer mais do que publicá-las.


A viagem de Lula aos Estados Unidos – para o seu primeiro encontro com Obama e a participação em um seminário promocional sobre o Brasil, organizado pelo jornal Valor e o Wall Street Journal – teria sido uma ocasião perfeita para a mídia falar do país diante da crise, do ângulo da questão tratada pelo embaixador.


Conta-se que, em 1935, ao ouvir a sugestão do ministro do Exterior da França de que a União Soviética deveria encorajar o catolicismo em seus domínios para cair nas boas graças do Papa, o ditador Josef Stalin teria retrucado: “O Papa? Mas quantas divisões tem o Papa?”


A pergunta retórica tem sido usada sempre que se quer desfazer de um governante, de uma instituição ou de um país, sob o argumento de que a sua autoridade, qualquer que seja o seu fundamento, é irrelevante por não ter o respaldo de alguma forma de poder (militar, político, econômico, tecnológico) reconhecida pelos demais.


Quantas “divisões”, é o caso então de a imprensa perguntar, teria o Brasil para ser ouvido com respeito nos debates que vêm aí, inevitavelmente, se não sobre as saídas para a devastação que o colapso do sistema financeiro americano está causando na economia mundial, decerto sobre a atuação dos mercados financeiros globais, cujo descontrole deu no que deu.


Moralmente, o Brasil está mais do que credenciado para ter voz e voto nesses debates – que, a rigor, começam na reunião dos chefes de governo do G-20, a partir de 2 de abril, em Londres. Ao longo dos anos Fernando Henrique–Lula, o Brasil não só virou um “país sério” em matéria da criação do chamado arcabouço institucional da economia, como enquadrou a banca, graças ao que ela está aí, inteira.


Mesmo antes da crise, a grande imprensa estrangeira já destacava que a estabilidade das regras do jogo econômico (e político) no Brasil dava aos investidores um lastro incomum entre os “emergentes” e tinha tudo a ver com a aptidão do país em se beneficiar do formidável ciclo de expansão da atividade econômica no mundo.


Nas últimas semanas, então, publicações como o Financial Times e o Wall Street Journal, a Economist e a Time, produziram uma profusão de textos assinalando que se foi definitivamente o tempo em que o Brasil pegava pneumonia quando o Primeiro Mundo ficava resfriado. Agora, reconheceram, o país tem até o que ensinar à arruinada tigrada do “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.


Isso em tese. Na prática, o que conta são as “divisões” de que falava Stalin e que a imprensa nacional não se dá o trabalho de conferir se existem – e, existindo, se são suficientes para dar ao Brasil condições objetivas de figurar no pelotão de vanguarda de um movimento para pôr arreios no capitalismo financeiro selvagem do laissez-faire neoliberal.


Por que os nossos jornais não submetem ao teste de realidade o oba-oba do embaixador Patriota sobre os presumíveis efeitos, na política mundial, do peso da economia brasileira? Está na cara que isso é pouco, por exemplo, para o país se contrapor efetivamente ao surto renovado de protecionismo que ameaça o comércio mundial e que Lula não perde oportunidade de atacar.


É pauta para gente grande – e talvez para não muitos leitores. Envolve discutir a relativa capacidade do Brasil de construir maiorias nos foros multilaterais para sujeitar os mercados financeiros à regulação do Estado, a fim de acabar com a perversa hegemonia do mundo dos papeis sobre o mundo da produção, a economia real.


Pode parecer abstrato, mas isso é incomparavelmente mais importante do que a duvidosa eventualidade, apresentada quase como uma certeza nas manchetes, de o Brasil e os Estados Unidos irem para a reunião do G-20 com uma “posição conjunta”.


Duvidosa porque Lula defende – e Obama é contra – a estatização da banca americana para destravar os fluxos de crédito e preparar o terreno da reforma do sistema. E porque Obama já disse que os Estados Unidos não aceitam a ideia de uma reforma compulsória, decidida de fora para dentro.


As posições do governo americano refletem as preocupações e os interesses de Wall Street que sobrevivem ao seu desmoronamento. E foi de Wall Street que vieram as maiores contribuições para a campanha de Obama, como lembrou o economista inglês Simon Johnson, do MIT, numa lúcida entrevista à Rede Pública de Rádio dos Estados Unidos que pelo menos os nossos jornalistas especializados fariam bem em conhecer. Pode ser ouvida aqui.


[A propósito, Johnson teme que a crise não se resolverá se o resgate da banca não incluir uma faxina em regra nos seus ativos. A isso se opõem os seus controladores: eles querem tudo, menos ficar com o mico de suas atrocidades financeiras.]


O cacife do Brasil não é uma questão de “peso” da economia nacional, mas de dependência – e, goste-se ou não, o Brasil depende mais dos maiores mercados externos do que estes do Brasil, embora o país seja o principal exportador de alimentos do mundo.


Os Estados Unidos dependem mesmo é da China, o seu maior credor, com cerca de US$ 1 trilhão investido em títulos do Tesouro americano. Na semana passada, foi um auê quando o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse que, “para ser sincero, estou um pouco preocupado” com a segurança desse investimento.


Por isso, na coletiva de imprensa ao lado de Lula, a principal pergunta que Obama teve de responder foi sobre a preocupação manifestada por Jiabao. Previsivelmente, ele disse que “não só o governo chinês, mas todo investidor pode ter confiança absoluta na segurança dos seus investimentos nos Estados Unidos”.


E foi com essa resposta que o New York Times abriu a sua matéria na edição de domingo sobre o encontro dos dois presidentes. Nada de Lula ou Brasil no título, mas “Obama tranquiliza países sobre a dívida dos EUA”. A matéria tem 10 parágrafos. O Brasil e o seu presidente só aparecem do quinto parágrafo em diante.

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