Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A pesquisa guia a notícia?

Por Luiz Weis em 24/10/2008 | comentários

A crítica mais comum feita às pesquisas eleitorais – além da eterna desconfiança sobre a sua credibilidade – é a de que a sua divulgação, principalmente na reta final das eleições – influi nas urnas.

Conforme o que indicarem os números das sondagens, o eleitor poderá trocar o candidato com quem se mais se identifica por outro com chances presumivelmente maiores de derrotar aquele que lhe parece o pior de todos – o voto útil.

Nada de errado com isso. O voto calculado com base nas tendências reveladas pelos levantamentos – supondo-os confiáveis – é tão legítimo, “consciente”, quanto o voto no candidato que se preferia de saída.

Sabendo em que pé está a corrida, o eleitor tem a oportunidade de fazer uma escolha mais elaborada: ou se atém ao seu preferido, mesmo que aparentemente fora do páreo, por uma questão de princípio, e ponto final, ou – dependendo do que considerar a questão essencial em jogo –, votará para barrar o candidato a quem mais rejeita.

O problema é outro tipo de influência potencial das pesquisas. Nesse caso, o influenciado seria o jornalismo.

Um trabalho do Pew Research Center, dos Estados Unidos, citada pela Folha de sexta-feira (24/10), concluiu – e não pela primeira vez – que a posição de um candidato presidencial nas pesquisas afeta o modo como o noticiário o trata.

Analisando a cobertura das campanhas de Barack Obama e John McCain, entre 8 de setembro e 16 de outubro, quando foi ficando mais nítida a vantagem do democrata sobre o republicano nas sondagens, o instituto contou 36% de matérias positivas para o primeiro e 14% para o segundo (e 29% negativas para o primeiro e 57% negativas para o segundo).

O Pew é um centro de estudos sério e competente. Mas ainda assim não é de excluir que possa ter confundido correlação com causação, como dizem os estatísticos. Nem sempre, quando dois fatos se relacionam, um é decorrência do outro.

É bem provável que o candidato que lidera as pesquisas receba mais atenção da mídia do que o outro (no caso de uma disputa mano-a-mano). Atenção, no entanto, pode significar um escrutínio mais rigoroso de seus atos e posições, em vez de mais complacência.

A proporção bem maior de matérias favoráveis a Obama (e desfavoráveis a McCain) talvez não se explique pelo crescimento da popularidade do democrata nas pesquisas. O comportamento da imprensa e o desempenho dele nos levantamentos podem, isso sim, ser consequência de um terceiro fator – a reação de McCain à crise financeira, considerada desastrosa pela quase unanimidade dos comentaristas (mesmo entre os republicanos).

Por sinal, o estudo do Pew registra que a diminuição das reportagens positivas sobre McCain se acentuou depois do desmoronamento de Wall Street.

E é bom não esquecer que a Obamania vem de muito antes de sua ascensão nas sondagens. Aliás, não foram poucos os comenaristas americanos que se perguntaram durante muito tempo por que a onda Obama não se refletia nos números.

Evidentemente, nada disso anula, em qualquer eleição de qualquer país, um cenário do tipo bola de neve: à medida que um candidato se destaca nas pesquisas, tanto mais a mídia se ocupa dele, tanto maior a sua oportunidade de aparecer bem na fita, o que se refletirá nas pesquisas seguintes e no tratamento da imprensa, e assim sucessivamente – pelo menos enquanto não aparecer um fato novo capaz de quebrar o encanto.

Terá sido o que aconteceu em São Paulo com a candidatura Kassab? Deu para ver a olho nu que o seu espaço na imprensa foi aumentando à medida que ele passou a ameaçar a posição de Alckmin nas pesquisas como o mais provável adversário de Marta no segundo turno, o que só se acentuou quando ficou nítido – e não só nos números, mas no clima da campanha – que vinha uma “onda Kassab” na cidade.

No Rio, é bem possível que o avanço de Gabeira, que o levaria ao segundo turno, tenha aberto o caminho para ele receber da imprensa tratamento VIP – embora ele não tenha sido poupado dos efeitos do flagra (do Globo) da conversa em que ele dizia que a vereadora Lucinha tinha uma “visão suburbana”.

O ponto, de todo modo, é que a eventual influência dos levantamentos de opinião sobre a cobertura das campanhas deve ser estudada em cada ciclo eleitoral. E os jornalistas que se cuidem para não ser acusados depois, com base em fatos, de levantar a bola para esse ou aquele candidato por sua dianteira nas pesquisas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/12/2008 Ney José Pereira

    E ainda não se sabe se o dactafolha é uma muleta ou se o datacfolha é um amuleto. Dos folháticos da Folha.

  2. Comentou em 28/10/2008 Ney José Pereira

    Há um ‘conflito moral’ entre instituto de pesquisa e jornal. É muito esquisito a própria Folha ter o seu Datafoclha. Acredito que os tais institutos de pesquisa (qualquer pesquisa) deveria ser independente da imprensa. Sem contar que por causa dos tais institutos ‘próprios’ a imprensa nem sequer tem como ‘opinar’ sobre uma reforma político-partidária-eleitoral. O que esses institutos querem mesmo é faturar com tantas eleições. Quando o ano é eleitoral faturam com a política. Quando o ano é pré-eleitoral faturam com ….. pesquisa mercadológica mesmo. O Datafoclha pesquisa para as empresas e a Folha, depois, faz reportagem para as mesmas empresas. É esquisito!. E os conselheiros editoriais da Folha são os mesmos do Datafoclha?. Ou o Datafoclha não tem ‘conselheiros’?.

  3. Comentou em 27/10/2008 Ney José Pereira

    Como pode o ‘Instituto’ Dactafolha ‘pesquisar’ 1921 eleitores (as) e ‘saber’ o placar das eleições?.

  4. Comentou em 26/10/2008 alfredo sternheim

    Muitos jornalistas paulistanos já podem ser acusados de levantar a bola para determinado candidato. E não sou só eu a reconhecer isso. O ombdusman da Folha hoje (dia 26) aponta a falta de equilíbrio do jornal no tratamento dado aos 2 candidatos à prefeito de SP, predominando amplo favorecimento à Kassab, com ênfase nos resultados das pesquisas. Estas, queiram ou não alguns reconhecer , acabam influenciado certos votos, certos resultados. A Folha, de forma democrática, faz (tardiamente)auto-crítica, mas O Estado nem ouvidor tem. Porém, o mais grave nesta eleição em que a imprensa é a gande perdedora (blindou os equívocos do governador do estado de SP nos 2 episódios envolvendo a polícia) foi a falta de espaço para a eleição de vereadores. Enquanto sobrava espaço para textos demagógicos de indignação seletiva (como apontou Luis Nassif) sobre a infeliz peça piublicitária do PT , ficamos desinformados sobre os candidatos a vereadores, seus planos. O povo pode não saber votar, como dizem muitos. Mas a imprensa ajuda, tem sua parcela de culpa com tanta falta de informação, com o seu viés partidário prevalecendo sobre a comunicação mais ampla e e mais imparcial possível. Não pode haver espaço para texto opinativo e ressentido de colunista casada com marqueteiro ligado a campanha desse ou de outro candidato, enquanto faltam notas sobre outras áreas relevantes nas eleições recentes.

  5. Comentou em 26/10/2008 Ney José Pereira

    A tal pesquisa eleitoral não só guia a notícia como também guia a ‘opinião’. Os figurões e as figuronas ‘opinistas’ da Folha (de S. Paulo, hein!), por exemplo, não ‘opinam’ nada em termos eleitorais sem citar o tal DatacFolha. Assemelha-se mais ao merchandising. Ou é uma acessória dependência do patrão. Após as normas para o telemarketing normas para a pesquisamarketing!.

  6. Comentou em 26/10/2008 epimpamplerio pamplona

    A pesquisa guia a notícia?
    Não.

    Guia a pesquisa quem tem dinheiro.
    Pobre não faz nada. Fica sempre passivo. Esperando a novela.

  7. Comentou em 26/10/2008 Heraldo Rasquel

    Os candidatos que recebem mais atenção da mídia não são somente os que aparecem com melhores intenções de voto, ma sim o que a mída e o poder desejam para agradar os dirigentes do país e assim tranquilamente continuarem com suas autorizações de uso do meio de comunicação.Veja o exemplo do caso de São Paulo que teve como marketing uma campanha simples não em valores mas em conteúdo para agradar a população que vai na ‘onda do mar’, pois é público e conhecido que é apregoado o voto útil, portanto quem está amarrado com a mídia está na onda.

  8. Comentou em 25/10/2008 marina chaves

    por mim, as pesquisas eleitorias nao inflenciam o meu voto…podem ser publicadas quantas forem, o meu voto é muito mais guiado pela a atitude dos candidatos durante a campanha, pode ser até o horario eleitoral… mesmo porque eu moro numa cidade em que nao há propaganda via tv, somente via radio…. pois é, nem todas as cidades do pais estao em pé de igualdede nesse ponto, isso estou pensando na eleiçao para prefeitos e vereadores… isso sem contar que as pesquisas publicadas pelos jornais locais nao deram uma dentro, nao sao confiaveis de forma nenhuma…

  9. Comentou em 25/10/2008 José Tadeu Genaro

    Luiz:

    Realmente é dificil concordar com a tua acertva ‘Nada de errado com isso. ‘O voto calculado com base nas tendências reveladas pelos levantamentos – supondo-os confiáveis – é tão legítimo, “consciente”, quanto o voto no candidato que se preferia de saída.’ você renega a segundo plano os aspectos ideológicos do candidato e do partido e prega o conceito de eleição como uma disputa simplesmente.
    Também discordo em relação a tendência da midia de dar mais espaço ao candidato com melhor ‘performance’nas pesquisas. A midia brasileira dá mais ou menos espaço baseado num único critério se o candidato e seu partido são os preferiridos de seus patrões. Se não for e estiver na frente nas pesquisas a imprensa o derruba, exemplos recentes não faltam. Lamentável.

    Genaro

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