Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A polarização política e o exercício do jornalismo na Venezuela de Chávez

Por Carlos Castilho em 31/08/2010 | comentários


Quem estiver preocupado sobre como a polarização politico-partidária afeta o jornalismo deve pensar seriamente em visitar a Venezuela, em especial a sua capital, Caracas. É um estudo de caso imperdível dadas as circunstâncias especiais criadas pelo fato de que a divisão entre chavistas e antichavistas é tão radical que são raríssimos os temas e situações em que há espaço para posições intermediárias.


Isto acabou criando um ambiente onde a atividade jornalistica enfrenta um problema básico: como atender princípios elementares da profissião, como a fidedignidade, imparcialidade e diversidade? No meio desta guerra verbal permanente entre governo e oposição, os próprios profissionais já não sabem mais se o que fazem é jornalismo ou não. Fica realmente dificil fazer esta distinção quando chavistas e antichavistas esgrimem comunicados de imprensa que vão para as primeiras páginas, sem a menor avaliação de credibilidade.


Isto ficou claro na experiência que tive como mediador convidado pelo Centro Carter, de Atlanta, Estados Unidos, num workshop de jornalistas venezuelanos sobre cobertura de processos eleitorais na era da internet. O fato de ser brasileiro e do Observatório da Imprensa me ajudou a ser visto com uma mínima isenção, mas isto não impediu que em alguns momentos fosse necessario usar da energia para evitar confrontações.


O problema é que o desconfiança mútua, tanto entre jornalistas como entre leitores, chegou a um tal ponto que os efeitos sobre a credibilidade geral da imprensa venezuelana tendem a ser devastadores, num cenário pós-Chávez. Nestas condições ficam muito difícil praticar o jornalismo, porque os porta-vozes do governo atendem preferencialmente a imprensa que apóia o presidente Hugo Chávez. Em represália, os políticos e empresários de oposição só atendem repórteres de órgãos que estão contra o governo.


Resultado: um mesmo fato é coberto de duas formas diferentes pela imprensa local e o leitor é obrigado a uma ginástica mental para entender o que está acontecendo. Nas redações se discute mais política do que procedimentos jornalisticos. Os profissionais são empurrados pelas respectivas direções para a posição de agentes de propaganda e pouco ou nada podem fazer para mudar esta situação.


Nestas circunstâncias, a tiragem dos jornais está despencando. Eu não consegui números exatos porque, aparentemente, ninguém os tem. Mas repórteres tanto de jornais oposicionistas como de governistas admitiram que a situação é preocupante. Este ambiente de radicalização e o cansaço provocado por cinco anos de polarização passional impedem que tanto os profissionais como os executivos da imprensa venezuelana pensem no futuro, em especial sobre os efeitos da transição do modelo analógico para o digitial.


O imediatismo está aumentado cada vez mais o fosso entre a capacidade instalada atual da imprensa venezuelana e a demanda futura de um país que em algum momento terá que trocar a polarização pela busca de soluções negociadas, capazes de dar um mínimo de estabilidade às relações entre governo e oposição.


Está cada dia mais evidente que todos perdem no jornalismo venezuelano com a continuidade da radicalização verbal.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/09/2010 Miro Junior

    O que vale para a Venezuela, vale para o Brasil….Aqui há um bunker do PSDB/DEM na mídia que se presta a qualquer desmoralização desde que sirva aos interesses de suas campanhas…..O que não temos aqui é um personagem com o Chaves que não leva desaforo para casa…O Lula preferiu que a mídia oposicionista se desmoralize sozinha….

  2. Comentou em 01/09/2010 rogerio cardozo

    A imprensa gostava de chamar politicos mais a esquerda de Xiitas aqui no Brasil(ecologistas também era Xiiitas).Isso vale uma pergunta a verdeda tem dono?Acho que devemos todos tomar cuidado com radicalismos.Chaves deveria fazer como Lula governar bem e deixar que quizer falar a vontade.Esta sendo criticado muito por as coisas não andam bem com a economia e para ser sincero buscar no exemplo de Bolivar uma prática mais replicana e de liberdade.

  3. Comentou em 01/09/2010 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Curiosa esta sua preocupação com a Venezuela. Neste exato
    instante muitos de seus colegas brasileiros estão dando uma atenção
    desmedida à acusação leviana feita por Serra de que Dilma é
    pessoalmente responsável pela violação do sigilo fiscal da filha dele.
    Gostemos ou não, a Lei ainda prescreve que o acusado tem direito a
    presunção de inocência e a um processo regular com direito de
    defesa e prova, bem como a um julgamento por um Juiz competente e
    isento. A legislação também dispõe que não existe condenação sem
    culpa ou pena sem condenação. Mas neste momento o que a Lei diz
    parece não estimular os sentidos de alguns jornalistas. Dilma está
    sendo tratada como culpada condenada. Culpada por suspeita?
    Culpada por suspeita como nos bons tempos da ditadura? Bons
    tempos da ditadura para quem não se sabe… Por que você não fala da
    qualidade (golpista) do jornalismo que seus colegas brasileiros estão
    praticando?

  4. Comentou em 31/08/2010 Nara Bianconi

    Oi Carlos, tudo bom?

    Acompanho o blog e gosto bastante dos posts. Trabalho na Mandalah (www.mandalah.com.br) e nós pensamos em estratégia de inovação focando o ser humano que existe por detrás do consumidor. Fizemos um debate recentemente, discutindo o futuro dos meios de informação. Foi bem interessante o debate e achei que talvez você gostasse de assistir. Vale a pena. http://www.vimeo.com/14487260
    Sigo lendo o blog! Parabéns.

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