Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A polêmica regulamentação do jornalismo cidadão

Por Carlos Castilho em 01/02/2006 | comentários


O sindicato nacional de jornalistas da Grã Bretanha (National Union of Journalists) tornou-se a primeira entidade do gênero no mundo a tentar regulamentar a participação de pessoas comuns na produção e distribuição de notícias.


Mas o Código de Conduta  divulgado pela NUJ na última semana de janeiro, acabou criando mais problemas do que soluções. A organização sofreu duras críticas que acabaram aprofundando ainda mais as desconfianças entre profissionais que trabalham para veículos convencionais e os que atuam na internet, na Grã Bretanha.


Segundo do Código de Conduta, os jornalistas britânicos só podem publicar uma informação recebida de um colaborador-testemunha depois de verificar a autenticidade da mesma através de outras fontes. Além disse se comprometem a respeitar os direitos autorais da fonte e não revender o material sem consulta prévia ao informante.


Uma análise rápida dos 10 itens do código mostra que ele não vai muito além do que parece normal no exercício convencional da profissão de jornalista, advertindo inclusive sobre questões legais, respeito à privacidade e sobre as responsabilidades das empresas.Mas o documento evita qualquer anaálise sobre um dos mais inovadores processos criados pela internet e que é a participação de cidadãos comuns no processos de coleta e distribuição de informações..


O debate entre jornalistas britânicos mostrou que a regulamentação do chamado jornalismo cidadão não é tão simples assim e colocou mais uma vez em evidência como a internet está mudando as rotinas na busca, processamento e publicação de notícias.


A verificação de uma notícia deixou de ser um processo simples e linear. Não basta mais o depoimento de apenas uma fonte alternativa, pois a informação tornou-se muito complexa por conta de outros fatores como causas, consequências, interessados e prejudicados. A contextualização de uma notícia é hoje quase tão importante quanto a própria notícia.


Emily Bell, do jornal The Guardian (exige cadastro grátis) diz que os responsáveis pelo Código de Conduta desconhecem a realidade da internet pois não levam em conta a dinâmica do meio e o fato de que os jornalistas já não são mais os donos da informação. ‘É como se o diretor de uma fábrica de automóveis ignorasse como funciona uma linha de montagem ou como um conselho diretor de um hospital formando apenas por não médicos’, garante Emily.


Neil McIntosh,editor do blog inglês CompleteTosh qualifica o documento como fruto do medo e critica especialmente a falta de detalhes na definição da figura do colaborador-testemunha. ´’No momento em que o jornalista deixa de ser o único porteiro da notícia (em inglês gatekeeper), não há mais como controlar o fluxo de informações usando os processos tradicionais de verificação. O Código da NUJ inviabiliza projetos como a Wikipedia, os blogs e todo o processo de autoria compartilhada’, adverte Neil McIntosh.


A NUJ reage afirmando que sua precoupação é evitar a publicação de informações inverídicas, distorcidas ou fora de contexto, conforme declarou Jeremy Dear, secretário executivo do sindicato,  que insistiu na manutenção dos padrões convencionais sobre avaliação de notícias e na defesa do mercado de trabalho contra a decisão de muitas empresas de usar formas mais baratas de colher informação.


A regulamentação do chamado jornalismo cidadão, praticado por amadores, talvez seja um processo que vai criar mais problemas do que soluções porque corre o risco de trasferir a questão para o âmbito corporativo, quando na realidade o que está em jogo é toda uma nova concepção de notícia e a inclusão de novos protagonistas no manejo da informação.


É uma discussão que necessariamente tomará algum tempo e vai provocar uma notável polarização de opiniões porque não é pouca coisa que está em jogo. Trata-se de uma profissão, de centenas de empregos, de empresas e principalmente da forma como a sociedade passará a ver a informação como bem social.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/03/2006 Regina Machado

    Olá meu anjinho, vim aqui para lhe dizer que seu blog esta cada vez mais lindo, toda vez que entro aqui me encanto, lhe convido para dar uma passadinha no meu mundinho, sinta-se sempre em casa. Por favor se não tiver, aceite meu presentinho, R 03. Se vc souber de uma vaga de emprego na área administrativa, esse ano me formo em secretariado executivo, aqui próx a minha região me avisa estou precisando muito

    Tenha uma linda Quinta feira
    Bjos

    Beijinhos

    Regina

  2. Comentou em 02/02/2006 Elisa Andries

    A internet é o meio técnico que permite, pela primeira vez, a comunicação de várias pessoas ao mesmo tempo e em escala global, rompendo com o clássico esquema emissor/receptor. Por outro lado, fontes de informação de várias naturezas são criadas a todos os instantes. O que importa a partir de agora não é QUEM informa, mas COMO administrar a gigantesca quantidade de informações produzidas pelo uso das tecnologias. Afinal, a disponibilidade de informação não garante o acesso e o seu uso. A partir deste novo enfoque, o papel do jornalista muda radicalmente. O novo profissional precisa se qualificar, cada vez mais, para para ser o GESTOR da informação, e não apenas mais um coletor de dados. O objetivo da gestão da informação é a possibilidade de aplicação e uso de informações relevantes, e não o acesso a uma massa cada vez maior e insignificante de informações. Desta forma, o jornalista da nova era não será mais o ‘porteiro’, mas o será o responsável pela qualidade da informação.

  3. Comentou em 01/02/2006 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Você não tem idéia do bem que está fazendo aos leitores (aos jornalistas, nem se fala). Os jornais brasileiros são herméticos e impermeáveis, inclusive aqueles que possibilitam comentários dos leitores. Durante a Constituinte, quando era estudante de direito, fiz um comentário mordaz a propósito de um artigo de um Desembargador que defendia a prescrição do crime de tortura e a Folha publicou minha crítica no Painel do Leitor. Entretanto, publicou ao lado a resposta do Desembargador. Fiquei pasmo. A conduta da Folha sugeriu-me que o leitor não tinha o direito de criticar sua excelência ou se o jornal tivesse razões para temer a mão pesada do mesmo. Este episódio ocorreu há muito tempo. Desde então a economia brasileira se modernizou, a Internet se tornou uma realidade. Contudo, tenho a impressão que continuamos mergulhados numa sociedade autoritária. O Alberto Dines credita isto ao fato dos políticos serem donos dos jornais. Mas acho que o problema é mais grave e se não fosse por artigos como o seu e de seus colegas de OI já teria desistido de ficar dando murro em ponta de faca.

  4. Comentou em 01/02/2006 Joao Carlos

    É interessante que se tente controlar algo que agora se torna impossível. A internet tem a dimensão de um dique cheio, não será com um dedo que o garoto holandes salvará as instituições jornalísticas do monopólio da informação em um mundo com regras democráticas (observem a China e o Google). O interesse das empresas de comunicação contrapõem-se ao interesse dos jornalistas e ambos contrapõem-se aos interesses de qualquer cidadão em obter a melhor e mais imparcial leitura de uma fato, venha esta informação de um jornalista, de um jornal ou de um cidadão comum – desde que, como disse: tal fato represente o acontecimento real. A notícia tem muitos inimigos e amigos(Governos, instituições, institucionalizados, etc.), mas o meio (internet-satélites-etc) e o tempo parecem ter superado seus obstáculos. Esta cada vez mais difícil que a notícia se torne propriedade de um governo ou de uma instituição e seja dita exclusivamente por um agente pago por essas entidades.

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