Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A polícia, do lado de fora

Por Mauro Malin em 14/05/2006 | comentários

Oito homens e três viaturas do lado de fora de uma delegacia de polícia da capital paulista cercada por barreiras. Entre eles, fato muito raro, o delegado titular. Todos com armas próprias. Só dois com coletes à prova de balas, trazidos de casa. Um vai buscar uma garrafa térmica na casa de um parente. Na volta, compra copos de papel num supermercado. É um retrato da Polícia Civil de São Paulo na noite de sábado para domingo.


A manhã começaria com 12 mil presos nas ruas por conta do Dia das Mães, dos quais só 60%, na média das estatísticas, retornarão aos presídios nesta segunda-feira. Os outros 4.800 vão preferir perder todas os benefícios obtidos até aqui por bom comportamento. Doze mil parece muito. Mas são 10% dos encarcerados.


Um dos participantes da assustada vigília analisa o quadro revelado pela onda de atentados contra a polícia e outros símbolos do Estado.


Usa a mesma palavra empregada pelo governador Cláudio Lembo em declaração reproduzida pelo Fantástico: repensar. Mas o emprego dado por Lembo é algo evasivo: repensar o sistema legal. O integrante da Polícia Civil ouvido pelo Observatório da Imprensa fala em repensar tudo. Todo o sistema de segurança pública. Era o consolo no plantão da madrugada de ontem (14/5) do lado de fora da delegacia: quem sabe esta crise provoque uma chacoalhada, obrigue a repensar a relação do Estado com a população. Mudar a política de segurança, porque a situação está cada vez mais fora de controle. Em duas décadas de trabalho na polícia, o entrevistado nunca passou por treinamento. Onde as delegacias foram reformadas, a despesa correu por conta da comunidade. Exemplo: 9° Distrito Policial, uma Delegacia Participativa, no Carandiru, R$ 500 mil gastos pela comunidade.


O integrante da polícia interpreta as rebeliões nos presídios: destinam-se a mostrar que as facções não têm medo da polícia, do poder do Estado. Não sofrerão represálias e o Estado terá que ceder. Foi assim, diz, em todos os episódios recentes. Hoje, é grande a proporção de presos vinculados a facções. O Estado não protege, como é seu dever, os presos buscam proteção nas facções. E as condições se deterioraram. Antigamente, familiares de presos em dia de visita eram intocáveis. O código de honra que vigorava há 10 anos acabou. Mulheres e crianças são feitas reféns.


Muito da represália policial será feito em caráter individual e ilegal. Nesses casos não haverá inquéritos, indiciamentos, julgamentos, condenações. Autores de assassinatos de policiais serão identificados. Policiais se juntarão a amigos, haverá “trocas de tiros” das quais sairão mortos os assassinos de policiais. Não é ação de Estado e desmoraliza ainda mais o Estado aos olhos da população, que acompanha tudo isso.


A situação nos presídios é difícil antes de mais nada porque o Estado não cumpre a lei, não garante aos presos seus direitos e, em troca, faz concessões: há rebeliões sem punição, visitas não previstas no regulamento, alimentação e roupas fornecidas pelas famílias, o que também fere a legislação. Prisioneiros simplesmente rejeitam transferências de presídios quando isso não lhes interessa.


Os presos preferiam as delegacias, onde estvam perto da família, não sofriam os rigores do regime penitenciário, era um lugar de onde podiam fugir tão logo é conhecida sua sentença. Desse ponto de vista, a situação em São Paulo melhorou no último ano, com o esvaziamento dos distritos. Mas, nos distritos, os investigadores só pensam em tirar seus plantões com o mínimo de embaraço, se possível dormindo, porque no dia seguinte vão fazer o bico de segurança num supermercado ou num posto de gasolina.


Quando o dinheiro desse bico fica curto, alguns (20%, calcula o entrevistado, talvez com otimismo) começam a achacar bandidos. Até que o bandido propõe um acordo em troca de remuneração mensal fixa. E depois o policial achacador acaba participando da atividade criminosa que lhe permite cobrar propina e que ele deveria reprimir. A proporção da corrupção na Polícia Militar seria maior, porque a tropa está na rua. Mas, na Polícia Civil, a Delegacia de Narcóticos, Denarc, cuja função é atuar diretamente contra o tráfico, também apresentaria uma incidência maior de corrupção.


O tráfico é a principal atividade das quadrilhas, em seguida os seqüestros. O roubo de cargas é grande, mas o produto é mais difícil de colocar, embora grandes redes aceitem, inconscientemente ou não, cargas roubadas. A cocaína é repartida rapidamente, cada bairro tem quatro ou cinco chefetes que recrutam cada um uma dúzia de meninos para distribuir os papelotes.


O Estado é lento, paquidérmico. O crime tem a agilidade de um colibri, de uma abelha. Em São Paulo só existe uma delegacia especializada em crimes eletrônicos (via internet, principalmente), cada vez mais freqüentes.


O mote nos presídios não foi a superlotação. As rebeliões e atentados foram uma demonstração de força. As autoridades insistiram na tecla de que a polícia não vai recuar exatamente porque o Estado não pára de recuar há muitos anos. Só o lado das facções avança, e o Estado não exige nem obtém qualquer contrapartida.


* * *


A linha do Fantástico encerrado há pouco foi inteiramente defensiva: defender a polícia, a imagem da polícia, a importância da polícia como “linha de frente da democracia” (texto de Pedro Bial). Isso é vital, para que a população não se sinta ainda mais insegura, mas é pouco. Só no final, o texto de Bial convergiu para a idéia de que a tragédia pode representar uma oportunidade para repensar a questão da segurança pública.


Ao longo do programa as declarações de autoridades e pré-candidatos, mesmo as mais estapafúrdias, foram reproduzidas sem qualquer aceno crítico. As reportagens sobre vítimas dos assassinatos em alguns casos ganharam uma pompa falsamente poética que mostra como está gasta a estética empregada no programa para tratar de assuntos mais complexos.


* * *


Para reflexão. Na Segunda Guerra Mundial, o Brasil perdeu 465 soldados em 239 dias de combate. Em São Paulo, 58 policiais morreram em dois dias.


* * *


Em alguns sites, o espaço para comentários dos leitores mostra um ativismo amplamente majoritário de pessoas com mentalidade estreita e retrógrada. Pedem pena de morte, Carandiru II, Exército, tanques, limpeza, convocam o coronel Ubiratan (Carandiru) ou o coronel Pantoja (Eldorado dos Carajás). Não se trata da mesma moldura filosófica quem contém a retórica do ex-governador Geraldo Alckmin quando fala em “sufocar as facções criminosas”?

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/05/2006 Jean Spinato

    O subscritor do texto condena a retórica do ex-governador Alckmin. Realmente, é preciso ter coragem pra se desligar das baboseiras politicamente corretas, e dos discursos ativistas, das caminhadas pela paz e dos discursos que choramingam a falta de investimento em educação. Como se uma pífia caminhada animada por figurinhas da mídia ou a conclusão óbvia do abismo social fosse capaz de conter os acontecimentos em curso. É preciso sim agir com mão de ferro contra os bandidos, sufocar as facções criminosas, mandar para a solitária os líderes. Reagir de forma branda, com discursos oportunistas e fáceis contra a violência não terão nenhum efeito.

  2. Comentou em 15/05/2006 José R. Almeida

    Será que os nossos políticos são todos BURROS, são cegos ou o que? Todos nós, simples cidadãos enxergamos a raiz do problema, como foi muito bem demonstrado pelo Sr. Mauro, mas não se faz nada de efetivo para deter a bandidagem, nas ruas e principalmente nas instituições e, mas ainda, no executivo?! …
    Só um sentimento… REVOLTA!

  3. Comentou em 15/05/2006 Marco Antônio Leite Costa

    O ex-Governador de São Paulo, pedologo por cargo público só sabe dizer nas entrevista que a polícia não vai retroceder um milimitro. No entanto, a marginália esta anos luz de distãncia em termos de organização e atuação no mercado do crime.Os políticos precisam deixar a teoria de lado e, entrar em ação de verdade. Toda esta aberração criminosa esta relacionada com o desinteresse que os mandatários tratam o povo. Espero que em Outubro aqueles que estão credênciados a votar, saibam eliminar através da arma do voto os ladrões, corruptos e vadios do cenário político nacional. Marco

  4. Comentou em 15/05/2006 Gilson Raslan

    Todas as autoridades, principalmente os candidatos ao próximo pleito, afirmam que a violência eclodida em SP deve-se ao abismo sócio-econômico entre pobre e ricos, ao desemprego, à falta de assistência à saúde e à educação. Concordo, plenamente, com aqueles que dizem que a questão da violência está atrelada à falta de uma educação adequada e para todos. Quanto ao resto, sou forçado a não concordar, por uma questão de observação, senão vejamos: o Piauí é o estado mais pobre da federação; a Índia tem 500 milhões de miseráveis… e, no entanto não se vê notícias de facções criminosas aterrorizando a população nos lugares citados. O que está faltando então? Primeiramente educação, porque uma pessoa com formação profissional, dificilmente, mesmo desempregada, vai enveredar para o caminho do crime; em segundo lugar, uma polícia ativa e bem preparada, expurgada de corruptos e um justiça rápida, para dar a certeza aos criminosos de que eles serão punidos pelos seus atos. Desemprego e pobreza nunca foram motes para a criminalidades, pois se assim fosse, o nosso país teria, no mínimo, 60 milhões de criminosos.Aliás, se pobreza fosse causa da criminalidade, não haveria o crime do colarinho branco, a corrupção dos políticos;os Bernandinhos Beira-Mares da vida já haviam deixado o caminho do crime.Os políticos precisam deixar de demagogia e partir para a ação.Então nesta época de campanha…

  5. Comentou em 15/05/2006 Roberto Pires Silveira

    Quanto ao parágrafo que explicita a forma pela qual a polícia vai reagir (e que se inicia com as palavras … muito da represália…), juntando grupos individuais de amigos e ‘trocando tiros’ com bandidos que serão invariavelmente mortos, gostaria de acrescentar um comentário. Como a polícia vai reagir a não ser assim? Infelizmente, a polícia não tem apoio dos governos em qualquer nível, união, estados ou municípios. Os salários são indignos, cobertura legal para o policial eventualmente indiciado por qualquer motivo não existe, as armas fornecidas são ridículas frente ao armamento que os malfeitores ostentam. Como a polícia vai reagir? O que acaba acontecendo é o que foi descrito no parágrafo aqui comentado. E acrescento que se não é justificável, nem moral, nem ético, pelo menos é compreensível ante a revolta que toma conta dos policiais que atualmente (e infelizmente) estão indefesos ante a criminalidade. E temos que acrescentar: se eles estão indefesos, imagine nós.

  6. Comentou em 15/05/2006 Dermeval Vianna Filho

    Gostaria de dedicar este parco espaço a um comentário acerca da natureza da política nacional de segurança pública.
    Sabidamente, como dizem os nossos vizinhos latinos, no Brasil somos os ‘macaquitos’, a importar e mimetizar os comportamentos mais pobres advindos da Europa e dos EUA. Dentre estes, trouxemos a doutrina da ‘Lei e Ordem’, política de segurança pública que busca manter o status quo à custa da manutenção de um estado permanente de tensão social. Reproduzida de forma acrítica pela mídia, esta doutrina manifesta-se na cobertura diária de acontecimentos criminosos (sequestros, furtos etc), tudo colorido com um tom vermelho sangue, gerando na população uma sensação de insegurança tamanha a ponto do povo exigir do estado maior repressão. Assim, o abismo social continua a perpetuar-se, eis que as causas do problema da segurança pública são deixados de lado, o que vai provocar, posteriormente, uma nova leva de matérias demonstrando a ineficácia do estado e uma demanda maior por repressão estatal, constituindo um movimento cíclico, a levar-nos a um estado totalitário e repressor.
    Infelizmente, são poucos os que verificam este problema e resolvem denunciá-lo. É que o discurso da insegurança e necessidade de repressão se tornram tão arraigados na sociedade brasileira, que parece irreponsabilidade exigir algo que destoe daquele.
    (Voltarei à carga quando tiver mais espaço…)

  7. Comentou em 15/05/2006 José Carlos dos Santos

    Caro Malin, será que não é hora do Governador assumir que o problema é grave, decretar feriado no estado e pedir as pessoas pra não sair de casa, e tentar colocar um pouco de ordem nas coisas, ao invés de ficar fingindo que está tudo bem?

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem