Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A questão de fundo dos cartões

Por Luiz Weis em 10/02/2008 | comentários

Porque hoje é domingo, imaginei encontrar nos grandes jornais – ou pelo menos em um deles – alguma tentativa de ir à raíz do problema dos cartões corporativos, até aqui ignorada no mar de números em que navega o noticiário sobre o seu uso, com duvidoso proveito para o leitor.


 


A questão básica, de que a imprensa continuou a passar ao largo, é a de como o setor público pode administrar melhor o seu custeio – a infinidade de despesas do dia-a-dia, parte delas pagas com dinheiro de plástico ou com cheques de contas especiais dos pagadores, sem as quais o Estado estanca.


 


Esse gerenciamento beira a quadratura do círculo. Idealmente, a manutenção da máquina deve se dar com um mínimo de burocracia, em nome da agilidade, mas com regras e controles tais que limitem o desperdício – fazendo cada real render o máximo, ou quase, em cada gasto ­–, previnam os abusos e flagrem os desvios, com a punição rápida dos que deliberadamente privatizam em benefício próprio recursos públicos ao seu alcance.


 


Uma das provas da imensa dificuldade de conciliar tudo isso, mesmo no mais honesto e austero dos governos, está no vai-vem das diretrizes a respeito. Todos os ministros devem ter cartão, se diz num dia. Nenhum ministro deve ter cartão, se diz no outro – para citar um de uma montanha de possíveis exemplos das mudanças de políticas no setor.


 


Governar o governo é um nó. Começa pela imensidão das zonas de sombra entre o que obviamente deve ser permitido e obviamente deve ser proibido no manejo cotidiano do dinheiro do contribuinte. E termina na necessidade de um exército de funcionários que fiscalizem os desembolsos dos colegas.


 


De novo para pegar um caso entre milhares, pensem nos R$ 8 reais que o ministro dos Esportes gastou com uma tapioca, bancados por seu cartão. Foi uma irregularidade única e exclusivamente porque ele estava em Brasília. Estivesse ele a serviço, digamos, em Goiânia, a uma pedrada de distância da capital, teria o direito de pagar o manjar com o meu, o seu, o nosso – pela razão elementar de que o custeio do governo federal inclui hospedagem, deslocamentos e alimentação dos servidores em viagem.


 


Acho que já deu para pegar o espírito da coisa, pois não? Imaginem então que belo serviço poderia ter feito hoje o jornal que gastasse um par de páginas mapeando o pantanoso terreno da economia doméstica dos governos, discutindo alternativas, fazendo comparações – para não reduzir as coisas, pela enésima vez, ao facilitário do denuncismo.


 


Até porque o dinheiro público que vai para o ralo por indiferença ou incompetência de quem o gasta representa um escândalo tão ou mais grave do que o do dinheiro que vai para o bolso dos corruptos.

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