Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

A questão de fundo dos cartões

Por Luiz Weis em 10/02/2008 | comentários

Porque hoje é domingo, imaginei encontrar nos grandes jornais – ou pelo menos em um deles – alguma tentativa de ir à raíz do problema dos cartões corporativos, até aqui ignorada no mar de números em que navega o noticiário sobre o seu uso, com duvidoso proveito para o leitor.


 


A questão básica, de que a imprensa continuou a passar ao largo, é a de como o setor público pode administrar melhor o seu custeio – a infinidade de despesas do dia-a-dia, parte delas pagas com dinheiro de plástico ou com cheques de contas especiais dos pagadores, sem as quais o Estado estanca.


 


Esse gerenciamento beira a quadratura do círculo. Idealmente, a manutenção da máquina deve se dar com um mínimo de burocracia, em nome da agilidade, mas com regras e controles tais que limitem o desperdício – fazendo cada real render o máximo, ou quase, em cada gasto ­–, previnam os abusos e flagrem os desvios, com a punição rápida dos que deliberadamente privatizam em benefício próprio recursos públicos ao seu alcance.


 


Uma das provas da imensa dificuldade de conciliar tudo isso, mesmo no mais honesto e austero dos governos, está no vai-vem das diretrizes a respeito. Todos os ministros devem ter cartão, se diz num dia. Nenhum ministro deve ter cartão, se diz no outro – para citar um de uma montanha de possíveis exemplos das mudanças de políticas no setor.


 


Governar o governo é um nó. Começa pela imensidão das zonas de sombra entre o que obviamente deve ser permitido e obviamente deve ser proibido no manejo cotidiano do dinheiro do contribuinte. E termina na necessidade de um exército de funcionários que fiscalizem os desembolsos dos colegas.


 


De novo para pegar um caso entre milhares, pensem nos R$ 8 reais que o ministro dos Esportes gastou com uma tapioca, bancados por seu cartão. Foi uma irregularidade única e exclusivamente porque ele estava em Brasília. Estivesse ele a serviço, digamos, em Goiânia, a uma pedrada de distância da capital, teria o direito de pagar o manjar com o meu, o seu, o nosso – pela razão elementar de que o custeio do governo federal inclui hospedagem, deslocamentos e alimentação dos servidores em viagem.


 


Acho que já deu para pegar o espírito da coisa, pois não? Imaginem então que belo serviço poderia ter feito hoje o jornal que gastasse um par de páginas mapeando o pantanoso terreno da economia doméstica dos governos, discutindo alternativas, fazendo comparações – para não reduzir as coisas, pela enésima vez, ao facilitário do denuncismo.


 


Até porque o dinheiro público que vai para o ralo por indiferença ou incompetência de quem o gasta representa um escândalo tão ou mais grave do que o do dinheiro que vai para o bolso dos corruptos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/08/2008 robson gouveia

    Caro Cid Elias. Parece-me que você não compreendeu bem minhas palavras.Para esclarecer vou resumir. Quis dizer que problemas de cartóes corporativos não deveriam existir se as regras para o uso dos mesmos fosse clara e o uso indevido fosse corretamente punido, não importando se é do FHC, do filho do lula,do jabor, do mainardi, do josé dirceu ou de você mesmo!
    Não existe dubiedade nas minhas palavras e nem ofensas a quem quer que seja. Estranho o seu comportamento em relação à mensagem e só você mesmo deve compreender melhor o seu destemperamento. Procure falar de forma mais simples e direta e procure ler as mensagens com isenção, não induzindo outros leitores a cair na sua ‘verborragia’.

  2. Comentou em 14/02/2008 Cid Elias

    É mesmo, Robson? Que coisa…Ilibados como o senhor e sua família, existem poucos no Brasil, né não?. Embora minha pequena vivência, há algum tempo percebi que aqueles que julgam e caluniam os outros, e, no caso do Robson, sua afirmação atinge um grupo considerável de pessoas, sem nunca ter convivido com elas, sem jamais ter havido entre ele e àqueles que ele afirma se tratar de pessoas sem caráter, sem moral, ‘desonestos’, qualquer tipo de contato que permitisse tal julgamento, o fazem por uma destas razões:1- Por incapacidade de compreender que está agindo como um tiítere da mídia, visto ser desinformado por ela dioturnamente, e no fundo repetir pensamentos alheios, neste caso nitidamente semelhantes aos do mainardi, jabor, rei nossacaixa2, alvaro dias, fhc(‘A Ética do PT É Roubar’, lembram?), etc. 2- Por enxergar os próprios defeitos, os quais não tem consciência, nas outras pessoas.

  3. Comentou em 12/02/2008 robson gouveia

    Se pessoas de caráter ilibado e de moral elevada estivessem nos cargos importantes comandando o País, essa questão de cartões corporativos não teria sido nem veiculada. Qualquer cidadão honesto sabe das suas obrigações e deveres e cumpre as determinações que são inerentes ao seu cargo. O resto é sem- vergonhice. Educação e valores éticos e morais vem de berço, exemplo de pai, mãe,avós, tios etc… Não há como contestar.

  4. Comentou em 12/02/2008 Mara Silva

    O que acho incrível é que não importa o que você comente, o Lula tem razão.
    Que ginástica você tem que fazer para que isto sempre dê certo.
    Não importa onde é o furo, nem de que tamanho.

  5. Comentou em 12/02/2008 zurconil zarb

    O pior gasto é o que não produz efeitos para o cidadão. Explico. Fui servidor público por muitos anos.Toda vez que a imprensa entra em uma onda de denuncismo e generaliza os aspectos negativos da situação, sem apresentar propostas de aperfeiçoamento de maneira consistente, gera uma paralisia no serviço público em que os burocratas e os que não querem produzir passam a ser considerados mais confiáveis pelas chefias do que aqueles que lutam para que as ações do governo sejam modernas , eficientes e eficazes. Lembrem disso.

  6. Comentou em 11/02/2008 Fábio Carvalho

    Tem um outro aspecto que precisa ser considerado, além de eventuais injustiças, como me parece ser o caso do ministro dos Esportes com o caso da tapioca. Os gastos com cartão (não o esbanjamento e a irregularidade, por óbvio) são bons à medida em que são mais transparentes. Diversos exemplos irregulares, ou com suspeita de irregularidade, foram investigados e publicados. Não há bom exemplos? A maioria dos que têm cartão é corrupta ou falcatrua?

  7. Comentou em 11/02/2008 Marcelo Costa

    Chamar uma tapioca de ‘manjar dos deuses’ apenas vem corroborar e enaltecer a origem do nobre jornalista: O Estadão. Caro articulista, escreva alguma coisa sobre o SERRA CARD, a farra do segurança de FHC, as ‘despesas’ do Carlos Sampaio etc….Jornalismo parcial é esgoto puro, exala mau cheiro.

  8. Comentou em 11/02/2008 Ivan Moraes

    ‘deveriam ser discutidas as formas de melhorar o controle dos gastos’: e pra esse fim estou colecionando assinaturas para que a policia federal faca a Investigacao Do Diabo Que Amassou O Pao E Quem O Comeu, pedindo e analizando documentacao nao-fraudada de TODOS OS ESTADOS, independente de partido. Aceito assinaturas por email, carta, sinais de fumaca, e transmissoes de radio e televisao. Porque se depender de deputados e senadores…

  9. Comentou em 11/02/2008 Ruy Acquaviva

    Existe transparência nos gastos do governo federal SIM. Mesmo os saques na boca do caixa precisam ser justificados com a apresentação de notas fiscais e são passíveis de fiscalização.

    O que acontece é que em vez de se dar o crédito a quem introduziu mecanismos inéditos de controle e transparência, como é o caso do Governo Lula, usa-se esses mesmos mecanismos para obter informações que depois são utilizadas com muita má-fé, como retórica político-eleitoral contra esse mesmo governo.

    Se a discussão for institucional for feita a sério pelo bem da moralidade com o patrimônio público, TODOS os níveis de governo devem ser investigados, os governos anteriores devem ser investigados e deve-se discutir a sério o aperfeiçoamento dos mecansmos de transparência e controle.

    O que não pode é tentar usar essa questão como fonte de fatos a serem divulgados de forma seletiva e parcial, para desgastar o governo Lula e seu partido.

  10. Comentou em 11/02/2008 Jose de Almeida Bispo

    Bela análise. Porém, com costuma dizer o Mino Carta: ‘até o mundo mineral já sabe’ que o acompanhamento dos jornais grandes e midia restante, idem, não é para apurar nada. É para fazer sangrar esse operário abusado – e seu partido – que resolveu sentar-se na sala principal quando o lugar dele é a casinha de caseiro lá dos fundos. Se puser em marcha a PLP-217 como aprovada no Senado, os jornais, revistas e TVs ‘com gerenciamento profissional’ quebram todos. Todos se nutrem da verba de propaganda pública superdimensionada. Os ‘honestos’ da mísia não suportariam sessenta dias de capitalismo de fato.
    Não adianta. Nem sempre a mentira dita tantas vezes vira verdade como o quer seus criadores.

  11. Comentou em 11/02/2008 Max Suel

    Não, não existe transparência na publicação de despesas do governo federal quando mais de 70% das despesas (mais de 50 milhões de reais) foram sacadas em DINHEIRO VIVO, na boca do caixa. No que foram gastos estes mais de 50 MILHÕES DE REAIS em DINHEIRO VIVO ? Alguém sabe ???? Concordo com o autor do artigo: deveriam ser discutidas as formas de melhorar o controle dos gastos. O uso dos cartões (de CRÉDITO do governo Federal; e de DÉBITO do governo de SP) em si não é um mal, pelo contrário, o problema está no mau uso, no descontrole, na malversação, nos gastos indevidos com o cartão, que fugiram do uso a que estavam destinados.

  12. Comentou em 11/02/2008 Ruy Acquaviva

    Há que se ressalvar que o Governo Lula foi o único a publicar abertamente as suas despesas e que a oposição está fazendo de tudo para impredir que sejam investigadas as contas do governo FHC e do Estado de São Paulo (do governador Serra). Aliás, como pode um único estado gastar com cartões quase 50% mais que o governo federal??? Acho que TODOS

  13. Comentou em 11/02/2008 Marco Antônio Leite

    O político brasileiro sofre do mal de corrupção ativa e passiva, a qual tem causado um grande rombo nas contas públicas. Porém, essa sangria sem anestesia no dinheiro do povo mostra o quanto à imprensa e o trabalhador são inertes do ponto de vista de cobrar energicamente uma postura honesta de nossos governantes. Vale dizer, a imprensa nacional não põe medo na categoria dos corruptos, isto porque a imprensa de uma forma geral não conclama o povo para grandes movimentos populares, a fim de defenestrar essa gente do poder. Estamos num sistema ‘democrático’, mas não aceitamos essa bandalheira que ora esta instalada.

  14. Comentou em 11/02/2008 alvaro marins

    Acho uma ingenuidade imaginar que a mídia brasileira teria algum interesse em informar os seus leitores acerca do funcionamento e gestão do Estado. O interesse da mídia (mídia, jornalismo é outra coisa) hoje resume-se em tentativas inúteis de desqualificar o governo Lula e o PT na esperança de recuperar alguns espaços políticos perdidos por seus representantes políticos e ideológicos (PSDB e PFL [atual DEM]. Só que desconfio que com toda essa verborragia em torno de cartões coorporativos a mídia (repito, mídia, jornalismo é outra coisa) só vai conseguir perder leitores e audiência. E isso é muito bom.

  15. Comentou em 11/02/2008 Ricardo Camargo

    Weis, o MInistro Orlando Silva não havia ressarcido aos cofres o valor da tapioca antes da denúncia dos jornais? Há muito, mas muito exagero nessas denúncias todas. Agora, ninguém elogia o fato de o Governo Federal disponibilizar os dados de despesas na internet (diferentemente de outros lugares…)

  16. Comentou em 11/02/2008 Silvano Carvalho

    Vc poderia dar outro exemplo também, como retirar dinheiro vivo no cartão paulista e eu, vc e todos pagarem a conta, não seria um ex. melhor do que a tapioca?

  17. Comentou em 10/02/2008 Kleber Carvalho

    Weis li em outro site que a Fundação Ford foi bancada pela CIA por um longo período, te pergtunto : a Fundação Ford ainda é patrocinada pela CIA?? você encara isto como algo natural, faz parte do jogo capitalista?? você sabia que estas instituições tem forte ligaçao com a editora Abril?? você aceitaria trabalhar para uma empresa patrocinada pela CIA??

  18. Comentou em 10/02/2008 Ivan Moraes

    ‘Imaginem então que belo serviço poderia ter feito hoje o jornal que gastasse um par de páginas mapeando o pantanoso terreno da economia doméstica dos governos’: obrigado por usar o plural mas nos jornais nao teria acontecido tao cedo porque eles queriam usar ‘o governo’ somente e sabiam que iam se dar mal. Acabou a era da mentira. Nao existe nem indiferenca nem incompetencia na massa brasileira, vide as analizes dos blogs sobre os gastos. Mas se OS GOVERNOS nao querem o escrutinio da massa sobre a gasolina de FHC, nao teem direito de apoiar o gasto porque o gasto de FHC nao eh legitimo PONTO FINAL. Em outro assunto, Weis, eu estou superofendido com a ‘biografia’ da ministra na wikipedia brasileira porque ela foi um ato cronometrado, aberto, publico, de espionagem racista, mais especificamente de assassinato de character por cor de pele. Aonde esta a policia federal? Se nao era racismo entao porque razao a a biografia de Serra ainda nao conta a respeito de 42 mil nao-cartoes corporativos?

  19. Comentou em 10/02/2008 Renato Santos Passos

    O problema é que parece que matérias como a que o senhor anseia ver nos jornais não dão audiência. O pessoal quer é azevedos e amorins.

  20. Comentou em 10/02/2008 marina chaves

    afinal de contas, quando no brasil teremos uma gestão publica que seja clara e eficiente??? está na hora de nosssos administradores publicos começarem a se importar com questoes basicas…. e questoes mais complexas, que dizem respeito ao longo prazo…

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