Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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A ‘República perdida’ deles – e a nossa

Por Luiz Weis em 15/11/2005 | comentários

Este foi o ano em que a expressão “valores republicanos” só perdeu para “mensalão” e “caixa 2” no léxico político brasileiro.

Mas hoje, Dia da República, nem a data, nem os valores que lhe são comumente associados – separação entre o público e o privado, e entre Igreja e Estado, impessoalidade nas decisões de governo e na gestão da coisa pública, independência das instituições, respeito ao primado da Constituição, igualdade de direitos e oportunidades para todos… – encontraram espaço na mídia [a julgar pelos três principais jornais do país].

Com duas exceções, ambas na Folha. O colunista Janio de Freitas, lembrando que o fim do regime monárquico no Brasil resultou de um golpe de Estado, o primeiro de uma “série prolífica” de intervenções militares na vida política nacional.

E o filósofo Roberto Mangabeira Unger, da Universidade Harvard, que escreve às terças no jornal, invocando as “instituições republicanas”, o “regime republicano”, o “futuro da República” e até “as comemorações da proclamação da República” para exigir o impeachment do presidente Lula.

Perto da violência do artigo “Pôr fim ao governo Lula”, do ex-guru do ministro Ciro Gomes e auto-declarado presidenciável, as diatribes do tucano Artur Virgílio, líder do PSDB no Senado, parecem cafuné na cabeça do presidente.

O professor faz lembrar as verrinas de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas, em 1954, e João Goulart, em 1963/4.

No sexto dos dez “Afirmo” com que Mangabeira inicia cada parágrafo de seu texto, se lê, por exemplo: “Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.”

A fúria de Mangabeira não visa apenas Lula:

“Afirmo”, escreve ele logo em seguida, “que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas”.

Tem quem ache que Mangabeira, filósofo do direito cujas obras são estudadas no exterior, é doido de pedra fora da academia. Mas nunca ninguém o viu rasgando nota de mil, como se dizia quando isso existia. Seja como for, que o julguem os seus leitores.

Meu ponto é outro. Que acabrunhante é esta República em cujo aniversário o texto mais incisivo na mídia foi escrito para pedir a cabeça do presidente.

É acabrunhante em qualquer hipótese. Se Lula for o que dele diz Mangabeira e se Lula não for. No primeiro caso, porque lá se terá ido mais uma esperança, numa história que não é propriamente pródiga em vê-las darem certo. No segundo, porque indicaria até que ponto terão chegado seus adversários.

Em suma, mais uma vez, alguém – o presidente, ou os seus detratores – está fulminando os valores republicanos no Brasil.

O que me lembra um dos melhores e mais arrasadores documentários políticos já feitos, pelo menos deste lado do equador. Trata-se de “La Republica perdida”, de 1983, dirigido pelo argentino Miguel Pérez. O filme reconstitui a história do país no século 20. Toma como pontos de referência o golpe de 1930, que pôs fim ao ciclo de governos civis reformistas inciado em 1916, e a medonha ditadura militar de 1976 a 1982.

”La Republica perdida” termina com a campanha à presidência do radical (da mesma União Cívica Radical dos reformistas dos anos 1920) Raúl Alfonsín, cuja vitória, fincando a redemocratização, mais uma vez encheu a Argentina de esperanças. O seu governo acabou meio ano antes do prazo constitucional. O seu sucessor foi Carlos Saúl Menem.

E a nossa República, por onde andará?

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/11/2005 ricardo de araujo lima

    Por mais que se debata o assunto seja por renomados filósofos como no caso o Sr. Mangabeira Unger ou por brilhantes articulistas,’ A REPÚBLICA ‘,só terá o real significado, quando deixar-mos a posição de ‘ ACHÓLOGOS ‘, o Sr. presidente LULA e o seu antecessor tiveram a chance de mudar o destino do país, mudando o sistema político, e não o fizeram ‘achando’ que povo não compareceria as urnas para respaldar os seus mandatos, caçife político tiveram, apoio popular ídem e não o fizeram e acabaram perdendo o bonde da historia, permitindo com isso que a permuta no poder se perpetue entre as elites que há mais de 500 anos domina este Brasil.

  2. Comentou em 15/11/2005 Iorgeon Haenkel

    Existe verdade republicana maior do que o respeito à vontade do povo? Já perguntaram se o povo quer o empeachemant? De resto vejo pessoas rancorosas, preconceituosas e com uma inveja imensurável. Este Unger não sabe se é brasileiro ou inglês, vive uma eterna crise de identidade.

  3. Comentou em 15/11/2005 caio brandao

    O autor do artigo A República Perdida parece abrigar algum ressentimento com relação àqueles que identificam as perversidades desde governo Lula e defendem a sua resolução. Fico imaginando se o referido articulista, fosse um capitão de indústria, com largos milhões encrustados em sua polpuda conta bancária, daria procuração para o Delúbio, o Zé, o Valério e outros tantos protegidos do PT administrar os seus negócios.

  4. Comentou em 15/11/2005 Christian

    O patriotismo é o último refúgio dos covardes.

  5. Comentou em 15/11/2005 João Vancarder

    Sr.Luiz Weis!..

    O seu artigo me leva a acreditar que ainda há articulistas com mente equilibrada,com visão atenta, escrevendo seus artigos com perfeito conhecimento de liberdade, foco ajustado às relevantes questões, no momento oportuno dos eventos. Isto só nos propicia bons momentos de atenção e apreciação ao trabalho jornalístico de uma mente com ‘Grande Cabeça’. Sinceramente confesso, sem posicionamento político algum, que li alguns trabalhos do Sr. Mangabeira Unger e, longe de uma avaliação mas dentro de uma análise, há muito sofisma confusicionista em sua ‘Grande Cabeça Harvardiana’. Seria bom que ele procurasse ver um pouco da filosofia do simples para colocar pensamentos mais construtivos, de nível mais elevado para aqules que queira conquistar, pois a mim está muito dificíl de atingir, embora nossos níveis de intelectualidade sejam extremamente distantes.

    Notamos também a atitude positiva sobre o cerceamento de comentários sectários, injuriosos e obsenos, desnecessários ao desenvolvimento do ser.
    cordialemnte,
    J. Vancarder

  6. Comentou em 15/11/2005 José Antonio Alves de Póvoa Povoa

    O folósofo ´retrata algumas verdades, quanto a atenção que se dá ao dia da Proclamação da República, que deveria ser um dia de reflexões e valorização dos termos ‘res pública’, pois o filósofo quando pede a cabeça do Presidente esquece que não há nem um fato que autorize isso, sendo aconselhavel fazer uma reflexão da República dos Doutores e os resultados disso nos 500 anos de que a elite prometeu resolver todos os problemas brasileiros – Calma filosofo!,mais parece preconceito do que uma reflexão da realidade brasileira.

  7. Comentou em 15/11/2005 Kátia Ishimura

    A verdade é que, ao menos no nosso país, a República jamais existiu em sua própria essência. Direitos q não são respeitados, e um governo q não respeita o seu povo. Assim fica difícil cumprir com os preceitos previstos na nossa bandeira nacional, ordem e progresso. Portanto, concordo com o jusfilósofo Mangabeiras ao afirmar q o nosso presidente não se mostrou apto para o cargo em q foi confiado, tampouco demonstrou q oposição é mudança, porém essa escolha coube a nós, o povo, mas q isso não impliq a idéia de conformismo, porém um impeachment, com certeza, não seria a solução mais adequada. Ademais, o direito coercitivo ao voto, é o único q o governo faz questão de divulgar q nós, realmente, temos direito, e q este é um direito constitucional previsto pela nossa Constituição Republicana. Resta aguardar as próximas eleições, e contar com a sã consciência dos eleitores.

  8. Comentou em 15/11/2005 José Fernando dos Santos Fernando

    O Governo, Libera um intermediario para aquisição da casa proria.So que voce compra um imove da caixa para pagar em dez o quinze anos, com juros sobre juros, se nesse periodo voce se desembregar perde tudo que aplicou e fica na rua.Isso não e meio de querer dá cidadania.Essa forma é muito errada.Se o Governo que dá prioridade a moradia, tem que tirar esses lucros que a caixa explora do comprador,alem disso o imovel é de minina estrura, feito de materiais de terceira categoria, pelas firmas que ganham a licitação, roubam a metade e a outra metade o governo pega,depois de ter pago a metade se atrasar perde o imovel.Que tipo de negocio é esse que sou favorece ao proprio governo?depois de tomar o imove vende outra vez, ganhando daquele imovel o valor de tres, nas custai dos miseraveis que não pode se valer.Estes policos que aprovam as leis ,tem que criar vergonha na cara e buscar uma politica de respeito para com os cidadões.Tanto dineiro roubado pelos corruptor que se encontram no congresso, porque não fazer moradia e vender com dignidade sem explorar o couro ja rasgado pelos imposto que pagomos , alem disso juros sobre juros.Voce compra um imove hoje para almentar a poupança do governo, porque amanhã voce não pode mais pagar , com o almentos de custos que so eles sabem.(PRESIDENTE TENHA COMPAIXÃO DA CLASSE BAIXA,DE AMENOS A MORADIA.VOCE PODE FAZER ISSO LEMBRE QUE VC DISSE QUE FOI POBRE UM DIA.HONRE SUAS RAIZES.

  9. Comentou em 15/11/2005 Juarez de Mello Rosa Mello

    muito bom artigo,nos dias de hoje não temos o que comemorarmos,só nos resta refletirmos o momento atual.

  10. Comentou em 15/11/2005 Erlon Souza Santos

    Não concordo com filosofo nenhum, falar e facil para muitos… Filosofia é bom, porem nós brasileiros não sabemos praticar tal arte.
    Bons eram os tempos que não ficavamos esperando os feriadões chegar, e sim íamos para nossas escolas praticar um pouco de patriotismo, hoje se perguntar para um jovem o que se comemora ele não sabe, perdemos nossos valores nossas raizes para o stress, ambições, competições e outras coisas que a sociedade conseguiu através dos tempos, perdemos tudo…Afinal o que é Republica mesmo?

  11. Comentou em 15/11/2005 Marcos Santos

    Apesar da importante reflexão trazida pelo autor do texto, a escassez de reflexões sobre as verdadeiras origens da crise continua. Trata-se de mais um texto sobre a crise política que não faz uma análise das práticas republicanas (viciadas) do Brasil e como elas se perpetuam.

  12. Comentou em 15/11/2005 Marcos Santos

    Correção: Há algo na posição de quem escreveu o texto ‘A República Perdida’ que não fica claro para o leitor: ‘republicano’ ou não perdir a ‘cabeça’ do presidente?

    Prá mim, não há dúvida que esse é um direito republicano constiuído. A pergunta é: em quais circunstâncias isso é republicano?

  13. Comentou em 15/11/2005 euglaudston

    Ao comentar a República Perdida’ deles e a nossa, desejo antes de tudo concordar com o filosofo Mangabeira Unger, pois ele retrata o que fomos e o que somos. O termo república tem sido muito abordado nesta última década. Alguém há de lembrar que a razão é dele, o PT e o PSDB se confundem, temos de separar as cabeças para ver nmo que vai dar. Nós ficamos perdidos desde a década de noventa, este país deixou de ter um rumo, agora sangra as suas amarguras, temos de mudar, e mudar já, pois ainda nós resta uma esperança. Uma pequena luz no final do túnel.

  14. Comentou em 15/11/2005 Antonio de Padua Martins

    Correção.
    Tema como este,tratado com o burilamento, com
    a possivel v i s ã o , universal e particu-
    lar, merece ser estudado, em ‘grades’ de disciplinas sociais, politicas e da História
    do Brasil. Isto não é elogio. É reconhecimen-
    to justo pelo serviço informativo, educacio-
    nal e cultural, que o Autor nos oferece.

  15. Comentou em 15/11/2005 Antonio De Padua Martins

    Tema como este, tratado com o burilamento, com a possivel isão universal e particular,
    merece ser estudado, em ‘grades’ de disciplinas sociais, políticas e da História
    do Brasil. Isto não é elogio. E´reconhecimen-
    to justo pelo serviço informático, educativo
    e cultural, que o Autor nos oferece.

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