Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

A ressaca participativa gera tensões na blogosfera

Por Carlos Castilho em 21/05/2006 | comentários


Como toda novidade, o jornalismo de mão dupla está entrando agora no que se poderia chamar de ressaca participativa. O deslumbramento da descoberta de uma nova ferramenta de comunicação passa agora a ter que conviver com temores, explosões de raiva, catarses, ressentimentos e tentativas de retomar o controle sobre o que é publicado.


O ambiente, que até agora era marcado pela expectativa e pelo otimismo começa a ser marcado por uma crescente polêmica entre autores e comentaristas em weblogs, para citar o caso mais visível. Muitos autores se queixam da incontinência verbal de muitos leitores, enquanto estes classificam como censura as iniciativas para controlar o que é publicado num blog.


A discussão está apenas começando e deve ir longe porque não está em jogo apenas a adoção de códigos de conduta ou normas técnicas que regulem o relacionamento entre dois tipos diferentes de produtores de conteúdo, na nova ecologia informativa da internet. É um novo conjunto de comportamentos que está sendo criado num ambiente online cujos limites ainda são pouco claros.


O jornal inglês The Guardian embarcou num projeto que tem o polêmico nome de Comment Is Free (O comentário é livre), um site onde são publicados blogs de vários profissionais do jornal e onde os leitores devem se cadastrar para comentar os textos publicados.  


Trata-se de uma iniciativa de valorizar a conversa jornalística online eliminando o uso de expressões grosseiras e acusações gratuitas nos comentários à blogs. Mas a reação inicial dos leitores foi negativa, na medida em que muitos viram no cadastramento uma limitação da liberdade de comentário.


Vários outros grandes jornais europeus e norte-americanos adotam também algum tipo de restrição. Aqui nos blogs do Observatório da Imprensa, os autores tem a opção de selecionar os comentários antes de publicar ou não impôr nenhuma restrição, o que não é criticado por alguns comentaristas.


Muitos leitores classificam como censura qualquer tipo de limitação, ignorando as nuances existentes entre a liberdade absoluta e a postura policialesca dos censores militares. O recurso fácil à polarização não ajuda a entender o problema e muito menos buscar uma solução para o problema.


Os excessos verbais, xingamentos, sectarismos e radicalismos são anteriores ao surgimento da comunicação de mão dupla na Web. Só que eles se tornaram mais visíveis para a maioria dos internautas depois que a internet permitiu que os antigos leitores se tornassem também autores, dando origem à comunicação de mão dupla, ou conversação jornalística.


Estamos vivendo um período de descobertas e de transição de um modelo de comunicação unidirecional para outro multidirecional. O jornalista profissional perdeu o monopólio da notícia. A importância do controle do fluxo informativo está passando por transformações radicais e a crítica da mídia tornou-se uma ferramenta de contextualização.


Nesta transição confrontam-se dois tipos de experiências opostas quando se trata de autoria: a dos profissionais que tem uma longa tradição de convivência com códigos de conduta e regras corporativas, enquanto do outro estão milhões de pessoas que nunca tiveram a possibilidade de publicar nada, ou seja serem ouvidas, e que, por conta disto, acumularam uma grande frustração.


A ressaca participativa é o resultado direto da fruto da oscilação pendular sempre que algum grande obstáculo social é removido. Ela não é negativa e nem positiva. É um fato para ser analisado dentro do novo contexto de dualidade na produção de conteúdos. De nada adiantam comportamentos passados porque nem o controle resolve e nem muito menos os xingamentos.


Conversa com os leitores: O Código Aberto não seleciona comentários, mas já arquivamos vários textos que incluiam linguagem agressiva, propaganda partidária e mensagens comerciais. Não sou o dono deste espaço embora seja o responsável por ele. Os leitores também são co-responsáveis. Por isto tentarei sempre preservar o interesse coletivo.  

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/09/2006 Juccy Larr jlar@yahoo.com

    Congratulations on a great web site. I am a new computer user and finding you was like coming home. Continued success.

  2. Comentou em 29/05/2006 Ione Vedoy

    Olá Carlos!
    Pesquisando a rede, encontrei esta página do OI e seu texto acima.
    Gostaria, se possível, publicado em meu blog, que utilizo para estudo do direito, como instrumento de interação com alunos. Poderias me perguntar porque este texto. Estou a procura de material que envolva a profissão de jornalista e as temáticas relacionadas ao direito, pois leciono uma cadeira de direito no Curso de Jornalismo. Se possível publicar, avise-me. Agradeço sua atenção.

  3. Comentou em 26/05/2006 FABIO DE OLIVEIRA RIBEIRO

    Além de poder ser um espaço jornalistico aberto, a Internet também pode se transformar num espaço político aberto. Mas para que isto ocorra será preciso que os profissionais sejam tão corajosos quanto a
    jornalista Camila Vidal:

    http://www.virgula.com.br/news

    Que fez uma entrevista sobre o VOTO NULO e a publicou na integra.

    O nome do texto é

    PVN: o que você fará com seu voto nessas eleições.

    Fábio de Oliveira Ribeiro

  4. Comentou em 23/05/2006 Marcelo Sequeira

    Já fui censurado no ‘comment is free’ do The Guardian, mas meus comentários nunca poderiam ser classificados de extremeistas. Já fui xingado no blog óra Rónai, que estampara a eslováquia em manchete garrafal de oglobo como ‘primeiro mundo’. Já fui acusado de anti-semitismo por Marinilda deste site, por dizer o que desagradava aos patrocinadores do site e qualquer crítica ao sionismo e à Israel é classificado de anti-semitismo – alguma palavra sobre o anti-gentilismo de muitos judeus e de israel? No Globo, um panfleto, meus comentários raramente são publicados. Trocando em miúdos: a inprensa é um panfleto. Minha tia editora de O estado de São Paulo já me disse textualmente que não confia em ninguém – com razão, só o que ela esquece é que ninguém mais deve confiar na imprensa panfletária. na imprensa que não passa de um órgão propagandístico do grande capital, na imprensa corporativista onde os jornalistas estão acima do bem e do mal. É lamentável que não caia a ficha para a imprensa que SIM, vocês sobrevivem de propaganda falsa, sim vocês sobrevivem de meias verdades, de omissões graves. Quando os blogueiros discordam, são censurados, ameaçados, mas o leitor é obrigado a ler as maiores asneiras da imprensa, Karl marx realmente tinha razão e isto fica cada vez mais óbvio: liberdade de imprensa só que tem é o dono do jornal! Imprensa panfleto morreu!

  5. Comentou em 23/05/2006 José de Almeida Bispo

    ‘…existentes entre a liberdade absoluta e a postura policialesca dos censores militares’ É IMPRESSIONANTE como a intelectualidade brasileira busca acusar APENAS aos militares (sugere até uma sub-raça) quando o assunto é censura. Aqui o autor do artigo não foge à regra. De longe, desde o início do golpe – é só dar uma olhadela na imprensa nacional de todos os tempos – e a culpa pelos excessos da excrescência de 1964 é só dos milicos. Ninguém fala da FIESP; dos banqueiros, da Associação Comercial de São Paulo (a mesma que recentemente fez desagravo a Bob Jefferson – o confesso; e à DASLU – a sonegadora) e congêneres no país. Vale lembrar que é a mesma imprensa direitista – no que há de pior neste contexto – quem apoiou o golpe e apoiará todos os demais que vierem contra as iniciativas de barrar os excessos de suas fileiras, sempre egoístas e cruéis ao extremo. Concordo com minha conterrânea sergipana na defesa da liberdade geral. Da minha parte acredito que canalhas existem em todas as situações e os piores são os cheios de disfarces; os refinados. Prefiro os grosseirões. Eles dizem o que a alma manda. SEM HIPOCRISIA.

  6. Comentou em 22/05/2006 Maria Izabel L. Silva Silva

    Caro Castilho.
    Preservar o interesse coletivo é uma preocupação fundamental. Todavia, qual é mesmo o interesse coletivo? Publicar tudo? Ou selecionar (para não dizer censurar)? Já fui vítima de censura no OI. Algumas expressões foram cortadas, deturpando o comentário, deixando-o sem sentido. As palavras censuradas eram palavras duras, mas nem de longe, ofensivas. Quem determina o que é e o que não é ofensivo? Criticar o autor com veemencia é ofende-lo? Usar os mesmos adjetivos e a mesma verve que ele usou é ofende-lo? Por isso sugiro que, em nome do interesse coletivo, publique-se tudo. Cada um é responsavel por aquilo que comenta.

  7. Comentou em 21/05/2006 David da Silva

    O intercâmbio de opiniões, idéias e informações via blogs não deve, na minha opinião, abrir mão do cadastro dos navegantes. Não é assim em qualquer outra forma de interação entre as pessoas? O que aconteceria se eu me metesse na conversa de pessoas que dialogassem (ou discutissem) em um espaço público, sem ter alguma referência com aquele grupo? Eu teria de estabelecer um vínculo com os circunstantes, e ater-me à forma daquela confabulação, para não ser expulso do efêmero convívio. Ninguém entra em conversa de gente civilizada com modos de carcerário, nem se enfia com vocabulário rebuscado ‘nas idéias dos manos’. Blog pra espalhar maus modos e mentiras é pior que banheiro de buteco no baixo meretrício.

  8. Comentou em 21/05/2006 Taciana Oliveira

    Não sou expert na área de vocês. Por isso não me considere muito ingênua ao perguntar o seguinte: Qual é a avaliação ética de um jornalista que tem provocadores próprios ( se não for ele mesmo) que ficam como se fosse na calada do blog( vale a imagem?) só atacando com virulência e baixo calão a quem se posiciona sobre determinados assuntos? Estou falando sobre o blog do Josias da Folha. Quando alguém critica a VEJA, por exemplo, esses personagens saiem do escuro e atacam e a técnica é uma só: prontidão, repetição e violência. Será merchadising pago? Por favor, gostaria que vocês comentassem. Não venham me dizer que um blog daquela repercussão não é do seu alcance de interesse.

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