Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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A síndrome do hamster nas redações

Por Carlos Castilho em 10/11/2010 | comentários

A imagem do ratinho correndo freneticamente no pequeno carrossel dentro de uma gaiola foi a escolhida pelo jornalista norte-americano Dean Starkman para descrever o ritmo cada vez mais veloz adotado pelas redações para processar e publicar notícias.


A correria do ratinho não tem nenhum sentido ou objetivo. É correr por correr porque o animal precisa gastar energias de qualquer jeito.  É mais ou menos o mesmo que acontece hoje em dia nas redações, contaminadas pela síndrome do hamster. A correria para ser o primeiro e não ser furado pela concorrência transformou-se num objetivo em si mesmo, perdendo qualquer relação com o fato noticioso.


A conseqüência deste processo, que no Brasil chegou a absurdos como limitar em 45 segundos o tempo de edição de uma notícia em alguns portais online, é que a preocupação em ser o primeiro acabou sacrificando inevitavelmente a qualidade da informação, porque não há tempo para a contextualização adequada.


A velocidade foi transformada no grande objetivo das redações, que passaram a travar uma competição pela pole position noticiosa deixando leitor na arquibancada como um espectador passivo de um processo onde ele seria o protagonista principal, pelo menos nos manuais e na literatura jornalística.


Starkman, um repórter investigativo na área financeira, fez as contas e chagou à conclusão de que o The Wall Street Journal, de Nova York, publicou 26 mil notícias e reportagens em todo o ano de  2000. Uma década depois, o mesmo jornal publicou 21 mil histórias só no primeiro semestre de 2010. Nesta  estatística não estão incluídas as notícias e reportagens publicadas exclusivamente no site do Journal.


O número pode ser visto como um indício de que o jornal diversificou e ampliou a  produção de conteúdos informativos. Poderia ser também um sintoma de que  a redação estaria preocupada em atender um número crescente de nichos de interesse,  para satisfazer a expectativa gerada pela multiplicação de blogs segmentados na web.


No mesmo perido em que foi feita a pesquisa publicada na revista Columbia Journalism Review, o número de jornalistas empregados na redação do The Wall Street Journal caiu de 323 profissionais em 2000 para 281, em 2008 — numa redução da ordem de 13%. Não é necessário  fazer muita força para perceber que com menos jornalistas produzindo mais notícias, o resultado tende a ser a perda de qualidade e o aumento na frequência de erros.  


Também fica fácil entender por que um repórter do Journal  admitiu, anonimamente,  que hoje o seu jornal  publica três vezes mais notícias sem importância do que antes, tudo pela necessidade de chegar antes da concorrência.


Esta não é uma situação única no principal jornal econômico do império industrial de Rupert Murdoch. É uma tendência mundial, sem que os jornalistas tenham tido condições de parar para pensar no absurdo de uma correria maluca que interessa apenas às empresas.  O leitor não está preocupado com a velocidade, exclusividade ou ineditismo da notícia.  Ele a quer completa e confiável, mas a roda do hamster não roda neste sentido.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/11/2010 Cincinato 21

    Isso não se vê somente em grandes jornais não, dentro da blogosfera
    brasileira, temos alguns blogs que disputam por melhores colocações
    e por lançamento repentino da noticia com os grandes portais de
    noticia e os jornais, trazendo o mecanismo do twitter e poquetpost
    com ele.

    Fazendo que a qualidade da informação e até mesmo da opinião do
    redator seja mais escassa do que já é normalmente.

  2. Comentou em 11/11/2010 Ibsen Marques

    Como disse o Newton Bignotto no programa Observatório da Imprensa da TV Brasil. O importante e necessário é o tempo para leitura e reflexão. Esses, em oposição ao freneticismo do roedor tem diminuido dia a dia.
    Nesse caso, de nada adianta produzir uma avalanche de notícias que nem podemos considerar como informação. Ler para que?

  3. Comentou em 11/11/2010 Jaime Collier Coeli

    Mas não é essa a maneira mais prática de padronizar a burrice? Um ratinho correndo numa gaiola… Faltou observar os choques eletricos ministrados aleatoriamente. Ocorre só na produção da comunicação ou é um paradigma da sociedade? Não pense, não critique, abandone-se ao simples procedimento do fazer sempre a lesma lerda. Dessa maneira a informação fica banalizada. Trata-se do culto ao banal.

  4. Comentou em 11/11/2010 Alysson Oliveira

    No caso da televisão esse problema está acabando com o trabalho dos produtores. São como vendedores, que precisam cumprir ‘a porcentagem’ de pautas por dia, ou seja, quantidade em vez de qualidade. Todo a sequência do trabalho fica prejudicada.

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