Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A tabloidização da imprensa mundial gera mais problemas que soluções

Por Carlos Castilho em 09/01/2006 | comentários


Acaba de ser publicado o primeiro estudo sobre as consequências da migração de um grande número de jornais europeus e norte-americanos para o formato tablóide, que durante anos foi associado ao jornalismo sensacionalista.


O estudo intitulado Extra, Extra  foi produzido pelo Projeto pela Excelência do Jornalismo (Project for the Excellence of Journalism ) para medir as consequências junto aos leitores de um fenômeno que está associado à crise do modelo de produção dos jornais provocada pela internet.


Os autores do estudo mostram que houve uma mudança na percepção do formato tablóide pela maioria do público. Ele já não é mais visto como sinônimo de imprensa marron, mas continua íntimamente associado à leitura superficial, rápida e impressionista.


A pesquisa comprovou que em 20 minutos um leitor de tablóide consegue entrar em contato com mais notícias do que o leitor de um jornal em formato standard (grande). Esta rapidez na leitura foi concebida originalmente para tentar reconquistar o público entre 20 e 35 anos que migrou para a internet mas o esforço não funcionou.


O informe Extra, Extra constatou que o número de leitores jovens não cresceu significativamente no formato tabloide, que acabou roubando mais leitores ainda dos jornais convencionais. Este fenômeno imprevisto, mais a disparada dos preços do papel no mercado mundial, acabou levando alguns bastiões do formato standard, como o The New York Times e The Wall Street Journal, a acelerar estudos para a redução de tamanho visando economizar papel.


No final do ano passado, a tonelada de papel para a imprensa chegou aos 650 dólares, quase 200 dólares a mais do que em 2002. Só entre setembro e outubro de 2005, o aumento foi de 11% na tonelada. Consultores como o norte-americano John Morton  acham que, com os preços atuais do papel, a lucratividade dos jornais está chegando ao zero, caso não haja um aumento significativa na receita publicitária.


Mas a mudança de formato não se limitou a uma questão de economia ou de público alvo. Os pesquisadores do Projeto pela Excelência do Jornalismo constaram que a preocupação com a rapidez de leitura acabou solapando as bases da credibilidade do noticiário. Nada menos que 74% das notícias publicadas nos tablóides norte-americanos pesquisados, inclusive as mais extensas, tinham apenas uma única fonte ou um único ponto de vista.


Outro fato que preocupou os autores do estudo foi a pouca importância dada ao noticiário local e comunitário, tido como um dos elementos cruciais para os tablóides recuperarem leitores perdidos para a web e TV. Em média apenas 22% das notícias publicadas tinham origem na região onde o jornal é editado. Ironicamente os jornais standard dedicam em média 57% do seu espaço para a informação local.


Pior ainda. Apenas 17% do noticiário publicado é produzido pela equipe de jornalistas dos tablóides. Nada menos que 73% das notícias são compradas de agências, enquanto nos jornais standard cerca de 93% do material é próprio.


Estes e outros dados levaram os autores do estudo a uma visão pessimista do fenômeno tablóide. Eles não chegam a afirmar taxativamente, mas fica claro que a mudança de formato em vez de resolver problema acabou por aumentar os dilemas dos executivos da imprensa.


Os pesquisadores estudaram três tablóides distribuidos gratuitamente para usuários de transportes públicos, um tablóide para assinatura domiciliar e três jornais em formato standard em quatro cidades grandes dos Estados Unidos, entre abril e agosto do ano passado.


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