Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A terceira via na integração das redações

Por Carlos Castilho em 30/04/2013 | comentários

O maior dilema de quase todos os jornais ainda não foi resolvido, apesar de a maioria ter optado pela coexistência numa mesma redação de profissionais das versões online e impressa. O principal atrativo da fusão de redações foi, e ainda continua sendo, a possibilidade de cortar despesas. A rearrumação de mesas e computadores nas redações foi tranquila, mas o mesmo não aconteceu na conduta e nos valores dos profissionais formados na tradição do papel e nos que chegaram ao jornalismo pela internet.

Mesmo nos jornais norte-americanos, que foram os pioneiros na fusão de redações, as diferenças culturais entre profissionais do impresso e do online não foram eliminadas enquanto os executivos continuam sem saber se abandonam de vez o sistema tradicional ou se insistem na combinação dos sistemas de produção de notícias. É o pior dilema de quem dirige um jornal, revista e agora também departamentos de jornalismo na televisão.

É neste contexto que surge a ideia do consultor e ex-professor da Universidade Harvard, Clark Gilbert, que propõe uma terceira via nesse processo de transição para o digital. Trata-se de uma espécie de grupo de “sábios” formado dentro de cada jornal ou revista, reunindo as cabeças mais antenadas tanto do impresso como do digital.

Gilbert definiu a missão do grupo como sendo a de “gerenciar o intercâmbio de capacidades”, preocupação que está sendo testada na prática na empresa Deseret,conforme o ex-professor de administração explicou na mais recente edição do Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ, sigla em inglês para Internacional Symposium of Online Journalism), um evento anual do Centro Knight para Jornalismo nas Américas – realizado na Universidade do Texas, em Austin, entre os dias 19 e 20 de abril – e que é o mais concorrido fórum reunindo jornalistas, executivos e acadêmicos no âmbito da produção de notícias.

O dilema dos executivos da imprensa tradicional é que os jornais impressos continuam sendo a fonte principal de receita das empresas jornalísticas, embora quase todos eles já tenham percebido que o modelo de negócios que os sustentou durante as últimas décadas está com seus dias contados. Até agora quase todos os especialistas na indústria de jornais recomendavam a fusão como caminho mais adequado para a transição de modelos de negócio.

Clark Gilbert garante que o modelo impresso não deve ser abandonado totalmente porque ainda tem potencial econômico, embora ninguém possa mais pensar nos lucros de 20% a 25% ao ano, registrados no setor no até o fim do século passado. Também alega que os valores jornalísticos tradicionais como independência, objetividade, exatidão e relevância serão adaptados ao ambiente digital.

Num artigo publicado na Harvard Business Review, em dezembro de 2012 (ver aqui), Gilbert desaconselhou uma mudança radical porque os riscos ainda seriam muito grandes – como mostra o cada vez mais congestionado cemitério de empresas jornalísticas norte-americanas. Os empresários convencionais sabem que seu lucro cairá no futuro próximo, mas também já perceberam que a viabilidade financeira do jornalismo online ainda é uma grande incógnita.

A terceira via, em teste na empresa Deseret,baseada em Salt Lake City, um reduto mórmon nos Estados Unidos, parte do princípio de que um novo modelo de negócios para as empresas jornalísticas depende da transição cultural dentro das redações. Os profissionais do impresso têm um ritmo de trabalho, prioridades editoriais e regras bem diferentes do pessoal da área digital.

Há inúmeras questões em jogo. Desde a diferença de idades até o fato de que nas redações online a maioria dos programadores e designers não fizeram faculdade de jornalismo, sem falar no fato de que, na média, os profissionais do impresso ganham mais do que os mais jovens. Com tantas diferenças em jogo fica fácil deduzir que a convivência em redações integradas costuma ser bastante tumultuada.

Para Gilbert, um dos principais testes da eficiência do Comitê Gerenciador de Capacidades é a questão do relacionamento com as comunidades de leitores. O pessoal do impresso nunca teve um interesse especial pelos leitores, considerados um incomodo inevitável. Já a garotada (e alguns nem tão jovens) dão tanta importância ao diálogo com o público que muitas vezes se esquecem da notícia. 

No caso do site de noticias Deseret News, a função do comitê é convencer os profissionais oriundos do impresso de que a fidelidade do leitor é condição vital para a sobrevivência do negócio jornalístico e que este objetivo só pode ser alcançado por meio da valorização do diálogo e da participação dos leitores na agenda jornalística.

Mas será preciso mostrar também os profissionais online que a relação com o leitor não deve ser do tipo bate-papo, mas sim voltada para a inclusão do público no processo de coleta, verificação e disseminação de notícias.

Não há dúvida de que se trata de um esforço complexo, demorado e com resultados incertos. Será muito importante acompanhar a experiência do Deseret News dando especial atenção ao fato de que ela provavelmente apresentará mais erros do que acertos. Lidar com valores humanos é muito mais complicado e imprevisível do que trabalhar com softwares e equipamentos informáticos.

A proposta de Clark Gilbert pode não ser a sonhada solução para o dilema das empresas jornalísticas contemporâneas e seguramente não produzirá nenhum modelo revolucionário, mas pode funcionar como uma opção séria à alternativa tudo ou nada, enfrentada pela maior parte dos executivos da imprensa contemporânea.

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