Terça-feira, 22 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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A turbulência global é um estudo de caso sobre a complexidade informativa no jornalismo

Por Carlos Castilho em 12/03/2009 | comentários

O papel da imprensa na atual crise financeira transformou-se num assunto de governo não apenas aqui no Brasil mas também na Europa, onde políticos como o polêmico primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi agora acusam os jornais de inflar as conseqüências da recessão econômica mundial.


 


Na verdade não é só de governo, mas também na opinião púbica porque é cada vez maior o número de pessoas que consideram simplesmente esquizofrênico o noticiário sobre o sobe desce da bolsa, das estatísticas que não batem, dos dados descontextualizados, das informações contraditórias e do lobby cada vez mais escancarado.


 


A percepção do público consumidor de informações é de desorientação e desconfiança crescentes conforme pode ser visto nas páginas de cartas de leitores e nos comentários de blogs. Ninguém até agora fez uma pesquisa séria sobre como as pessoas estão se informando sobre a crise.


 


Berlusconi acaba de aconselhar os empresários a não lerem mais jornais para não serem contaminados pelo que classificou de “loucos profetas do apocalipse” instalados nas redações dos grandes jornais. O primeiro ministro italiano, cujos negócios estão concentrados na mídia onde, entre outras coisas, é dono da empresa que controla a franquia mundial de programas de televisão “Big Brother” , acredita que os homens de negócio ficarão deprimidos se lerem o noticiário econômico todos os dias.


 


As declarações de Berlusconi foram feitas durante a abertura do Cisco Systems Business Collaboration Center , no dia 9 de março, conforme artigo publicado pelo site Follow the Media, uma empresa de monitoramento da imprensa mundial, sediada em Genebra, na Suíça. Outros governantes europeus como o primeiro ministro tcheco Miroslav Topolanek e o chanceler polonês Mikolaj Dowgielewicz também embarcaram na mesma tendência.


 


A alternativa de culpar o mensageiro é velha conhecida dos jornalistas mas neste caso da crise financeira mundial, a imprensa tem sim parte de culpa no cartório, mas não é pelo que estão dizendo políticos como Berlusconi, cujos interesses são claros e fortes demais para serem levados a sério.


 


O erro da imprensa foi deixar-se envolver pelos lobbies surgidos a propósito da crise onde cada um quer tirar o seu quinhão de proveito. Falhou ao não perceber que a chamada turbulência global é mais um caso onde o jornalismo foi atropelado pela complexidade da questão e não soube tratar a crise a partir de uma perspectiva contextualizadora.


 


O resultado é esta cacofonia informativa onde assistimos um telejornal ou lemos um matutino e terminamos sem saber o que realmente acontece. Num momento os números crescem, logo depois desabam. Um mesmo fato é visto num jornal como positivo e noutro como negativo. E assim por diante. A conseqüência é que sem ter a quem recorrer, o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta passa pura e simplesmente a duvidar de tudo ou se desliga dos acontecimentos.


 


A turbulência global é um enorme desafio para a imprensa porque coloca em cheque mate as rotinas de cobertura jornalística vigentes até agora na maioria das redações. A crise é complexa demais para seguir ao pé da letra a regra de ouvir os dois lados. Simplesmente porque a crise tem muitos lados, tantos que é difícil identificar a todos.


 


A cultura da imprensa está consolidada em torno de posições dicotômicas (certo ou errado, verdadeiro ou falso) e hoje basta estudar um pouco a realidade para ver que vivemos no meio daquilo que os acadêmicos chamam de sistemas complexos. São sistemas ou conjuntos (1), no caso humanos, que estão entrelaçados, mudam constantemente e onde o todo tem características diferentes da soma das partes.


 


A informação, em especial a jornalística, é um caso exemplar de sistema complexo já que ela depende intimamente do contexto em que foi gerada. Sem esta contextualização ela fica capenga e induz a percepções distorcidas por parte do publico. Falar em contexto significa falar em antecedentes, em conseqüências, em interessados e prejudicados. Identificar cada um destes fatores é uma tarefa hercúlea e quase inviável na correria generalizada da mídia para dar um “furo” jornalístico.


 


A complexidade na informação jornalística é apenas uma nova área na chamada teoria dos sistemas, construída a partir de descobertas científicas na física sub-atômica, que depois se expandiram para a biologia, mais tarde para a psicologia e nos estudos sobre aprendizado e cognição. Agora, a turbulência global criou condições ótimas para que a complexidade possa ser estudada na ecologia informativa contemporânea. 


 


Trabalhar a notícia seguindo as regras convencionais num ambiente caracterizado pela complexidade leva a um beco sem saída no qual o resultado é o descrédito por conta da desorientação que a mídia provoca no púbico. Assim, os jornais deveriam revisar suas estratégias editoriais na cobertura da crise para não acabar na alça de mira de políticos que confundem deliberadamente informação e interesses pessoais ou então cair no descrédito dos leitores, o que é muito pior a longo prazo.



(1) Detalhes sobre a teoria dos sistemas podem ser encontrados no livro A Teia da Vida, de Fritjof Capra, editora Cultrix, São Paulo, 1996.

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